A Embrapa Gado de Leite desenvolve tecnologias para a bacia leiteira (Foto: divulgação)

Por Antônio Oliveira

Vamos falar da cadeia do leite no Brasil. Para começar, lembramos do que todos, no agronegócio, sabem: é uma das cadeias produtivas mais desorganizadas no Brasil, apesar de todo o potencial brasileiro para a produção e consumo do principal produto e seus derivados. Tem muitos gargalos a serem sanados, pelo mercado, pelas pesquisas e pela ATER (Assistência Técnica e Extensão Rural).

Vamos fazer um preâmbulo desta matéria, tendo como base dados da cadeia, referentes aos anos de 2017 a 2019, conforme o Anuário Leite 2019 (AL-2019), da Embrapa Gado de Leite. Mas não se desanime: no Brasil, a demanda por leite e seus derivados é imensamente maior que a oferta, ou seja, um bom nicho de mercado para quem procura onde investir no agronegócio. Com planejamento, tecnologias e profissionalismo. Certo?

Conforme o AL-2019, em 2017, a produção de leite sob inspeção no Brasil voltou a crescer depois de dois anos consecutivos de queda.

Na área de mercado, ainda segundo o Anuário, as principais incertezas sobre o desempenho do setor leiteiro no Brasil, em 2019, encontram-se no consumo. O crescimento por leite e derivados é fortemente influenciado pela economia. Com o fraco desempenho econômico do Brasil nos últimos anos é difícil que se tenha crescimento muito forte na demanda no curto prazo.

– Mas há espaço para expansão do consumo, porque existe demanda reprimida que se arrasta dos anos recentes e algum crescimento econômico ajuda nas vendas de lácteos – aponta o Anuário Leite 2019.

(Fonte: Scot Consultoria)

Ainda deste documento, eu retirei alguns dados do nível de eficiência da produção do leite no Brasil que, conforme especialistas, determina lucro ou prejuízo no produto.

– A rentabilidade média da atividade leiteira de alta tecnologia (25.000/ha/ano) caiu pelo segundo ano consecutivo, passando de 2,08% em 2017 para  0,15% em 2018. Para os sistemas com produtividade média de 1.500 litros/ha/ano (baixa tecnologia) a rentabilidade foi negativa em 9,45% – aponta o Anuário.

Segue.

– Apesar de, no cenário geral, 2018 ter sido um ano de valorização do preço do leite, quando o preço médio  pago ao produtor subiu 4,5% frente a 2017 (isso significa uma pequena valorização real se considerar a inflação do ano passado). De 3,75%, segundo o IPCA (Índice de Preço ao Consumidor), o indicador de custo de produção da atividade leiteira também apresentou incremento de 4,5% em relação a 2017 – explica.

(Fonte: Scot Consultoria)

Isto quer dizer, conforme o Anuário, que a margem do produtor foi prejudicada no ano passado, inclusive com prejuízos em diversos casos.

– No caso da pecuária leiteira de baixa tecnologia, este foi o sétimo ano consecutivo de rentabilidade negativa. Foi o pior resultado dentro das atividades agropecuárias analisadas em 2018 – frisa o documento.

Agora, a boa notícia.

Conforme o zootecnista e analista de mercado da Scot Consultoria, Rafael Ribeiro, durante o evento “Encontro dos Encontros”, promovido por esta consultoria, em Ribeirão Preto (SP), no início de outubro do ano passado, em 2020, com a produção crescendo menos e uma expectativa de melhora no mercado interno em termos de consumo, somada à abertura de mercados como a China, Egito e outros países, tudo isso pode dar uma puxada melhor nos preços, principalmente na primeira metade do ano.

De entrevistador a entrevistado: durante o evento, este editor fala ao Canal do Boi sobre as perspectiva do leite no MATOPIBA (Foto: Canal do Boi)

– A gente acreditava que em 2019 já daria uma melhorada no consumo, mas se a gente voltar um pouquinho no tempo, antes da crise, foram justamente os produtos de maior valor agregado – leite condensado, creme de leite, iogurte, principalmente – que vinham puxando pra cima as cotações e a demanda interna – disse o analista ao Portal DBO.

Ele apontou também que, “da mesma forma, foram esses produtos que sentiram mais com a crise”.

– Até que ocorra uma recomposição de renda e a melhoria do emprego, a gente vai ter um cenário mais fraco de consumo, mas em recuperação, e para 2020 a gente enxerga essa melhoria, esse cenário mais positivo do que foi em 2019 – pontuou.

Por fim, o zootecnista e analista da Scot Consultoria, apontou que “para 2020, consumo interno e uma aposta grande nas exportações são fatores positivos para o mercado do leite, principalmente na primeira metade do ano, quando a gente tem esse período de entressafra no Brasil Central e região Sudeste e a maior concorrência por matéria prima tende a puxar os preços para cima.”

Jornalistas e influenciadores de agro numa verdadeira sala de aula sobre a cadeia do leite no Brasil (Foto: Gabriel Muniz/Texto)

Uma aula com a Embrapa Gado de Leite

E foi neste mundo milk, durante esta viagem pelo Brasil que produz,  que os 24 jornalistas e influenciadores de agronegócio do Road Show 2020, da Texto Comunicação Corporativa, adentraram, no primeiro dia do evento – 9 próximo passado -, na capital paulista. Chefe geral da Embrapa, Paulo Martins, e alguns de seus pesquisadores, mais uma pesquisadora de outro instituto convidada, realizaram para os comunicadores o workshop “Tudo sobre a cadeia do leite para comunicadores”. (À mesa externa, à nossa disposição, os frutos das pesquisas, da produção e produtividade da cadeia do leite: do in natura, aos queijos finos – aprendendo e usufrundo da cadeia do leite).

O evento foi aberto pelo presidente da Embrapa, por meio de videoconferência, Celso Luiz Moretti, que discorreu, rapidamente, sobre o panorama do leite no Brasil. Após sua mensagem, respondeu as perguntas dos jornalistas e influenciadores. Eu cobrei dele, atuação da Embrapa Gado de Leite na região do MATOPIBA.

O encontro técnico teve prosseguimento com oito palestras, abaixo relacionadas, com link para suas respectivas lâminas, para melhor informar você, leitor.

– “Leite e Derivados: Que Cadeia Produtiva é esta?”, por Paulo do Carmo Martins,  Doutor em Economia – Chefe-Geral  da             Embrapa Gado de Leite;

Dr. Paulo chefe geral Embrapa

– “Que leite é este? Inovação focada no Consumidor”, por Pedro Braga Arcuri – pesquisador da  Embrapa Gado de Leite;

Pedro Arcuri

– “De onde vem o leite? A fazenda e a produção”, por Bruno Campos de Carvalho,  Chefe-adjunto de Transferência de Tecnologia–Embrapa Gado de Leite;

Bruno Campos de Carvalho

– “PASTO GOSTOSO E NUTRITIVO PASTO GOSTOSO E NUTRITIVO”, por Paulino  Andrade, pesquisador da Embrapa Gado de Leite;

Paulino Andrade

– “Nanotecnologia rima com o leite?”, por Humberto de Mello Brandão, pesquisador da Embrapa Gado de Leite;

Humberto de Mello Brandão

– “A cadeia do leite e a sustentabilidade ambiental”, por Marcelo Henrique Otenio, pesquisador da Embrapa Gado de Leite;

Marcelo Henrique Otenio

– “Como será a vaca do futuro? Tecnologias do DNA na produção de leite”, por Marcos Vinícus da Silva, pesquisador da Embrapa Gado de Leite. Ele anunciou, em primeira mão, novas pesquisas para o melhoramento genético da raça Gir – assunto que vamos abordar, quando terminarmos esta série -,

Marcos Vinícius Barbosa

e

– “Como o leite vira delícias? Inovações na indústria de laticínios”, por Valdeane Cerqueira, pesquisadora da  EPAMIG/ILCT.

Valdeane Cerqueira EPAMIGILCT

De forma gradativa, Cerrado Rural Agronegócios, vai desdobrar essas palestras em matérias específicas.

Paulo Martins fala aos comunicadores (Foto: Gabriel Muniz/Texto)

Conversa com Paulo Martins

Após sua palestra, eu fiz uma breve entrevista com o Chefe-geral da Embrapa Gado de Leite, oportunidade em que abordamos o atual panorama do leite no Brasil – incluindo na região do MATOPIBA.

Cerrado Rural Agronegócios (CRA) – Qual é o presente e qual seria o futuro da cadeia do leite no Brasil?

Paulo Martins – Leite é aquele negócio que tem passado, presente e futuro. Tem passado porque vem crescendo; tem presente porque cada vez mais atrai novos produtores, investidores e tecnologias. Você já imaginou a Microsoft interessada em discutir leite? Isto está acontecendo e tem futuro porque nós temos crescimento e vamos continuar crescendo. Os Estados Unidos não têm demanda suficiente para o leite que produz, ao contrário do Brasil, por isto laticínios do mundo inteiro querem vir para cá. Nós temos um futuro muito promissor. Agora, nós temos alguns gargalos que têm que serem resolvidos.

CRA- Quais são esses gargalos?

Paulo Martins – Transferência de tecnologias. A gente não tem, hoje,  no Brasil,  um sistema eficiente que faça com que o produtor, principalmente o pequeno,  receba essas tecnologias e a atividade leiteira exige este tipo de acompanhamento. Não dá para imaginar que uma pessoa vai aprender a produzir leite no exercício de sua atividade. Isto fica muito caro. É preciso fazer com que essas tecnologias digitais cheguem até ao produtor, pois isto vai reduzir custos e ajudar na tomada de decisões. Outra coisa que precisamos resolver é o ânimo do produtor, procurar meios para que ele permaneça na atividade.  Ele não pode ficar reclamando da sua atividade. Se você ficar reclamando do que você faz, seu filho vai querer te seguir? Não vai. Boa parte dos  produtores vai sair da atividade leiteira.

CRA-  A ATER brasileira tem contribuído de forma adequada com a cadeia do leite no Brasil?

Paulo Martins – Nós tivemos, na década de 1990,  um desmonte da ATER, de um sistema nacional de tecnologia. Isto não foi reativado a contento. A gente precisa voltar a ter isto, porque sem investimento em assistência técnica e extensão rural, as pesquisas validades não terão efeito. A pesquisa cumpre sua missão, mas não marca o seu rumo, porque uma coisa é gerar tecnologia e a outra é fazê-la chegar a todos que a queiram e precisam. Boa parte dos produtores quer acesso a tecnologias, mas não conseguem. Este não é o papel da Embrapa. É preciso reforçar o sistema ATER, também na iniciativa privada. Os municípios precisam entrar neste processo, não só o governo federal, mas também os governos estaduais e municipais.

CRA- O senhor disse em sua palestra que está havendo no Brasil uma grande evasão de produtores de leite. Por que isto ocorre e como impedir isto?

Paulo Martins – Isto aconteceu em todas as outras atividades no Brasil; isto ocorreu em todos os outros países. Então, aconteceu como aconteceu com as outras culturas no resto do mundo e na pecuária de leite. Nós temos muitos produtores de leite e boa parte deles não são, efetivamente,  produtores. Não dá para imaginar que alguém que produz 100 litros de leite e não quer crescer seja um produtor de futuro. Nós precisamos de produtores que queiram crescer, que sejam resilientes, que corram risco. Não dá mais que se pegue um pouquinho de cada propriedade, fazendo com que os custos de logística e industrialização se tornem mais caros.

CRA- Vamos regionalizar esta entrevista, tratando da região do MATOPIBA, onde nós temos uma demanda imensamente maior que a oferta e consumindo produtos lácteos que vêm de fora. Como incrementar, aumentar a produção para melhorar a oferta de leite na região do MATOPIBA, onde os diversos focos de pesquisas da Embrapa estão presentes, atuando, menos a Embrapa Gado de Leite.

Paulo Martins – Primeiro vocês têm o que é maravilhoso, que é a demanda. Nos dias atuais, a demanda é que puxa a oferta. Quem tem oferta, não tem a garantia da demanda. Agora quem tem demanda, estimula a oferta. A demanda, inclusive, independe de tecnologia. Se vocês têm a demanda,  precisam de uma articulação local e regional para que a gente tenha mecanismos estimuladores da produção de leite na região. A Embrapa está muito preparada para estar com vocês. Mas não é a Embrapa a responsável por organizar esse processo…

CRA – … Tem que ser provocada?

Paulo Martins – …Tem que ser provocada, exatamente, tem que aproveitar a oportunidade.  Se provocar, estaremos juntos.

Provoquei.

Os “alunos” em um momento para a posteridade (Foto: GabMuniz/Texto)

PS.: Antônio Oliveira viajou a convite e por conta da Texto Comunicação Corporativa, idealizadora e executora do Road Show. Por problemas técnicos, deixamos e publicar este material também em vídeo, conforme anunciamos.