Vaqueiros atentos ao projeto inicial do Rui
Vaqueiros atentos ao projeto inicial do Rui

Por Antônio Oliveira*

Fotos: Rui Rezende (direitos reservados)

Os seis biomas brasileiros é de uma beleza que não deixa nada a desejar para os cenários cinematográficos americanos, europeus, africanos e asiáticos. Tão belos que não couberam no verdadeiro hino às belezas brasileiras “Aquarela do Brasil”, do grande radialista, compositor, jornalista e boêmio Ary Barroso.

Cerrado e Caatinga são dois dos mais belos ecossistemas brasileiros. Difícil definir onde há mais belezas naturais, se nestes biomas ou se nos outros. Mas uma paginada rápida dos livros de fotografia do grande fotógrafo brasileiro, com raízes na Bahia, Rui Rezende, não é difícil concluir que a maiores belezas naturais do Brasil estão nestes dois biomas de mãos dados, por meio da transição de uma para a outra.

RTEmagicC_1910_Mix_Rui_Resende.JPGRui Resende, sem exagero ou ufania, sintetizou no seu olhar e em suas máquinas o espírito criativo dos grandes pintores de natureza do mundo de todos os tempos. Suas fotos são naturais, onde ele usa apenas os recursos naturais, como luz do sol, ou da lua. “No dia em que eu precisar alterar minhas fotos em Photoshop, eu paro de fotografar”, disse-me ele, certa vez, quando visitávamos pontos naturais de Palmas – foi quando vi que o cara é maluco e perfeccionista na sua arte. Aliás, a grade evidência, criatividade e obstinação do Rui pela fotografia artística, foi quando, após pedir que operadores de colheitadeiras de algodão fizessem uma grande desenho num grande algodoal em plumas para fotografar no ar, a bordo de um avião experimental, este se despencou céu abaixo, deixando o grande Rui em coma, na cadeira de rodas por muito tempo e na incerteza se voltaria à liberdade das peripécias em busca das mais belas imagens. Rui também se especializou em transformar imagens dos agronegócios em obras de arte, conseguiu, na arte unir agronegócios à natureza. Um conciliador.

À cada imagem, uma curiosidade
À cada imagem, uma curiosidade

Rui já presenteou o Brasil e o mundo com 5 lindos livros focados na natureza e no agronegócio do Cerrado baiano e na Caatinga. Seu mais novo livro “Vaqueiros do Raso da Catarina” (povo e cenário da Caatinga baiana), está em processo de lançamento Bahia a fora. As imagens do livro são sincronizadas pelos textos em poesias e prosas do Cícero Félix, jornalista e professor da Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB). No próximo dia 27 será a vez do maior polo do Cerrado baiano conhecer esta obra em noite de autógrafo, como informa a matéria a seguir produzida por sua assessoria *e editada por Cerrado Rural Agronegócios, sempre atenta aos movimentos que promovam o Cerrado do MATOPIBA e biomas vizinhos.

O Raso da Catarina e seus cavaleiros

Cavaleiros paramentados em vestes de couro rasgam a paisagem entre imburanas, angicos, xiquexiques e facheiros. Em meio a névoa de poeira que levanta no ar, os cavaleiros vão campeando em busca do gado desgarrado, uma peleja se inicia na visagem da Caatinga. A cena, forte e bela para quem presencia é um filme pronto de uma cultura que resiste. Raso da Catarina. Há quem diga que o raso é um encantamento, uma voz feminina que ecoa pelos vales saindo dos bicos das araras-azuis-de-lear.

O primeiro encontro se deu ao acaso, Rui fotografava a trabalho, foi entrando na mata e se deparou com um grande acampamento e para quebrar a desconfiança inicial dos homens, o fotógrafo mostrou a página de um livro seu com a foto de vaqueiros da Gruta dos Brejões, na Chapada Diamantina. O visível interesse dos vaqueiros do Raso pela foto fez, desse encontro fortuito, surgir “Vaqueiros do Raso da Catarina”, o 6º livro da carreira do fotografo.

Traços característicos do homem da Caatinga
Traços característicos do homem da Caatinga

O texto assinado por Cícero Félix, jornalista e professor da Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB), traz, como ele diz “fileiras de causos” relatados propositalmente em linguagem coloquial com o cuidado de resguardar as características de uma cultura viva que se estrutura em uma relação visceral entre o Raso da Catarina e o sertanejo ali nascido, como disse seu Euclides, “filhos da coragem de Lampião e da fé de Conselheiro”.

“Vaqueiros do Raso da Catarina” transmite a intensidade e a força solar de uma rara e resistente cultura. Com 156 páginas, bilíngue, o livro se completa com um precioso dicionário que identifica a rica indumentária e objetos que paramentam o vaqueiro e seu cavalo.

O Artista

A biografia de Rui Rezende também é uma história de resistência, o fotógrafo é sobrevivente de um acidente aéreo ocorrido em 2014 na região de Barreiras, oeste da Bahia. As vivências na natureza, ajudando a mãe na lida com o cacau, correndo livre atrás de cavalos, levando o gado para a fazenda do avô, Tonico do Limão, em sua cidade natal, Amargosa, inspiraram a profissão:

– Talvez por conta deste meu passado,  hoje sou um fotógrafo de natureza. Faço tudo por amor às coisas e esse livro é o primeiro depois de passar quatro anos sem publicar por causa do acidente – revela Rezende.

Esse livro dá para eles um empoderamento e um reconhecimento da real importância destas pessoas em convívio harmonioso que este importante ecossistema brasileiro que é a Caatinga

Como disse Euclides da Cunha, "O sertanejo é um forte"
Como disse Euclides da Cunha, “O sertanejo é um forte”

Entrevista

Como é retornar em grande estilo após o afastamento por conta do acidente? 

Minha meta como fotógrafo de natureza era publicar ao menos um livro por ano, estava trabalhando forte para isso. Com o acidente vieram muitas dúvidas, na verdade, no começo eu nem sabia se voltaria a caminhar direito e se conseguisse poderia não conseguir escalar, carregar meus equipamentos. Enfim, possivelmente eu voltaria bastante limitado fisicamente. No entanto, minha cabeça esteve sempre pensando em soluções, pensava o tempo inteiro nas possibilidades para que eu pudesse continuar com minhas prováveis limitações. A última foto que tinha feito foi exatamente uma para o livro do OESTE ( “Oeste da Bahia – o Novo Mundo”, fotos de natureza e de agronegócios), e a foto seguinte, depois do acidente foi uma foto aérea já pensando no novo livro que seria um livro de fotos aéreas do estado da Bahia. Mas o encontro com os vaqueiros, ainda antes do acidente, também estava no meu foco para se transformar em um livro e foi o que acabou chegando primeiro,  porque fui contemplado num edital da FUNCEB,  com isso, se tornou viável mais rapidamente. Este livro é, realmente, muito especial para mim porque, além de ser o primeiro livro na minha nova vida, é também meu primeiro livro voltado a um tema mais específico, um livro mais artístico, eu diria. A beleza do livro se dá pela verdade das imagens ao retratar a vida real e cotidiana destes verdadeiros heróis do nosso pais que são os vaqueiros e em especial os “Vaqueiros  do Raso da Catarina”.

Este livro, esta ideia com os vaqueiros do Raso da Catarina, já era uma ideia que existia?

A ideia para fazer esse livro nasceu no momento em que eu me deparei com um grande acampamento desses vaqueiros no meio da Caatinga, lá no Raso da Catarina, quando estava fotografando para fazer um livro de fotos de algumas unidades de conservação do estado da Bahia, trabalho feito por encomenda da Secretaria do Meio Ambiente do estado da Bahia, ainda em 2014. Portanto, antes do acidente. Pouco mais de um ano depois deste encontro, eu retornei ou local para levar as fotos para os vaqueiros e levar também a ideia de fazermos um livro sobre a vida deles na lida com o gado.

Cenas bucólicas a simplicidade do sertanejo compõem o livro
Cenas bucólicas a simplicidade do sertanejo compõem o livro

Durante o processo de produção, quais foram os momentos mais marcantes?

Pra falar a verdade, fazer esse livro só foi alegria, muita “resenha”, companheirismo e uma forte relação de amizade com todos os vaqueiros. Para a captura das imagens, tivemos alguns desafios por conta da Caatinga – ela é bastante fechada. Por este motivo, precisei usar suas roupas em alguns momentos para conseguir me “embrenhar” nos matos junto com os vaqueiros. Também foi necessário subir em muitas árvores para conseguir ângulos que pudessem mostrar as montanhas do lugar. Boa parte das fotos são flagrantes de momentos de muita velocidade e ação na captura do gado. Como lá é uma região de Caatinga, às vezes, bastante seca, em algumas viagens não tínhamos água para tomar banho e muitas vezes bebíamos água de barreiro bastante saborosa com aquele gostinho de barro.

Qual a importância de se registrar, se expor e eternizar este local e as pessoas que o compõe? 

Os “Vaqueiros do Raso da Catarina” lidam com o gado de uma maneira diferente de todos os lugares por onde pude ver, acredito que são únicos no que fazer e foi exatamente isso que me fez “limitar” o livro a essa região. Eles criam o gado completamente soltos numa área de Caatinga gigantesca que pertence a sete municípios. Para se ter uma noção, às vezes um animal é encontrado anos depois a mais de sessenta quilômetros de onde ele foi souto, ou “dez léguas”, como eles falam. Tudo isso dentro de uma área de preservação ambiental de onde, a qualquer momento eles podem ser expulsos, principalmente considerando que eles já encontram algumas dificuldades para ter acesso ao local por,  conta do órgão ambiental que “é responsável” pelo local. Com isso, essa tradição, que vêm de algumas gerações, sofre ameaças de não existir mais sem falar em outras formas de manejo que podem fazer com que os vaqueiros do raso da Catarina deixem de existir. Esse livro dá para eles um empoderamento e um reconhecimento da real importância destas pessoas em convívio harmonioso que este importante ecossistema brasileiro que é a Caatinga.

Já existem planos para novas publicações? 

Sim, estamos trabalhando forte na produção de fotos para nosso livro sobre o Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, (MATOPIBA); outro livro sobre Amargosa, minha cidade natal, (este livro será em comemoração aos meus 20 anos de carreira como fotógrafo) e, em paralelo, continuo produzindo imagens para o livro “Bahia Aérea”. Quero retomar o tempo que fiquei “parado“.

Serviço 
Exposição de fotografias e lançamento do livro “Vaqueiros do Raso da Catarina” de Rui Rezende
Preço de capa: R$ 120,00

Conheça mais sobre Rui Rezende, acesso o site, abaixo:

[www.ruirezende.com.br]

Galeria de fotos

  

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