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*Por Cejane Borges
Turismo no Cantão, passeio no coração verde da floresta alagada ( Carlos Eller/Governo do Tocantins)
Turismo no Cantão, passeio no coração verde da floresta alagada ( Carlos Eller/Governo do Tocantins)
De um lado a mata do Cerrado, com as suas conhecidas árvores tortas pela influência do solo e do clima; do outro lado, a Floresta Amazônica com sua vegetação inundada, cheia de nós dos cipós e das lianas. Assim começa a aventura que é conhecer e fazer turismo no Parque Estadual do Cantão, um cantinho verde na bacia do Rio Araguaia, de quase 90 mil hectares preservados no coração do Brasil.
O Cantão fica no estado do Tocantins e é uma região de transição que abriga três ecossistemas: Cerrado, Floresta Amazônica e Pantanal. É o lugar perfeito para quem ama o ecoturismo; quer conhecer a região de maior biodiversidade do país; descobrir os segredos da mata; contemplar o boto do Araguaia; apreciar o canto de inúmeras espécies de pássaros que colorem os céus; se encantar com uma paisagem surreal do pôr do sol com uma junção entre o firmamento e as águas dos rios Coco, Javaés e Araguaia; saborear um murici no pé; passear de voadeira; comer uma comidinha feita no fogão a lenha; e se emocionar com a beleza natural da floresta. São atrações únicas para o turista que busca uma conexão direta com a natureza. Pequenos prazeres inusitados, sensações indescritíveis.
Pelo segundo ano, os paulistas Marta Fernandes, Julio Barbeiro e Mario Hilsenrath fazem turismo no Tocantins (Carlos Eller/Governo do Tocantins
Pelo segundo ano, os paulistas Marta Fernandes, Julio Barbeiro e Mario Hilsenrath fazem turismo no Tocantins (Carlos Eller/Governo do Tocantins
O ponto de partida para explorar o Cantão é a cidade de Caseara, município de quase 5 mil habitantes, às margens do rios Araguaia e Coco, distante cerca de 230 km de Palmas, a capital do Tocantins. O acesso à cidade é realizado por rodovia pavimentada que está em ótimas condições de trafegabilidade. A partir de Caseara, os únicos meios de locomoção do turista são as embarcações: voadeiras, canoas indígenas e caiaques, que percorrem as caudalosas águas do Cantão e adentram em um cenário paradisíaco composto por mais de 830 lagoas e braços de rios.
Neste ponto, começa a trilha aquática, um passeio navegável pelos igapós – floresta que fica inundada de dezembro a março, período das cheias na região. Os rios sobem em média 10 metros e as embarcações navegam próximas ao topo das árvores, uma experiência ímpar onde o turista tem a oportunidade de contemplar a beleza dos pássaros, ouvir os sons da mata e ver os varjões – espécie de pradarias de vegetação flutuante, que abrigam grande diversidade florística e acolhem, para reprodução, as famosas ciganas, lindos pássaros que vivem no Cantão.
Cabana do filme Xingu é uma das atrações do Cantão (Carlos Eller/Governo do Tocantins)
Cabana do filme Xingu é uma das atrações do Cantão
(Carlos Eller/Governo do Tocantins)
Em mais de duas horas navegando, quem visita o Parque Estadual do Cantão conhece alguns lagos que são como berçários do Araguaia e locais para reprodução de muitas espécies de peixes, dentre eles o pirarucu, típico da região amazônica e um dos maiores peixes de água doce do planeta. O caminho é todo entrecortado por trilhas aquáticas, lagos, braços de rios e varjões. Na paisagem, o turista avista alguns torrões – pedaços de terras não inundadas onde vivem os torrãozeiros, ribeirinhos que habitavam o Parque Estadual do Cantão antes do seu tombamento como Área de Preservação Ambiental (APA), em 1998.
Em um desses torrões, o viajante tem a oportunidade de experimentar um pernoite na floresta e de conhecer o Seu Levi, torrãozeiro que recebe pessoas de todo o Brasil e do mundo na sua casa à margem do rio Coco, onde vive há mais de 30 anos. O ribeirinho acolhe os turistas e disse que tem alegria em receber os visitantes.
– É bom demais poder oferecer uma janta, uma comida para quem vem na minha casa. Já veio gente aqui da Espanha, dos Estados Unidos, do Japão, da Alemanha – contou.
Em seu quintal, gatos, cachorros e galinhas vivem harmonicamente cercados por jacarés. No escuro da noite, regada por uma lamparina, o turista saboreia uma comida caseira feita no fogão a lenha e ouve as histórias dos ribeirinhos na companhia da luz das estrelas e dos sons dos animais da mata. Se der sorte, pode ouvir até o esturro da onça. Enquanto a prosa acontece, no rio, bem pertinho, o jacaré-açu repousa na margem. É neste momento, na convivência com o cotidiano dos torrãozeiros, que o turista vivencia a experiência do modo de vida do ribeirinho. Tudo muito rústico, muito natural e muito íntimo.
E, no breu da floresta, o viajante passa a sua noite em uma barraca, com cama de campanha. Na mata, o dia amanhece cedo. A lida dos ribeirinhos começa com os primeiros raios de sol e o café da manhã é servido na cozinha de chão batido do Seu Levi. Mais histórias, mais vivências e, na hora da partida, a lembrança de um sorriso largo e acolhedor de um homem simples, mas com muita bagagem para ensinar.
O servidor público federal Francisco Carlos Leal e o economista irlandês Thomas Giblin são viajantes apaixonados por ecoturismo e encontraram no Cantão um ambiente de relaxamento e de convivência com natureza.
– Aqui, existem elementos de safari de ficar dentro do mato olhando os pássaros. Eu vi mais de quinze diferentes tipos de pássaros. A diversidade da natureza tão rica e, no dia a dia, despercebemos e não valorizamos. Tivemos a oportunidade de ver como é a vida de quem mora na beira do rio –  destacou Thomaz.
Os dois já estiveram na Amazônia, no Pantanal e na Mongólia. São praticantes de ecoturismo e amam trilhagem pela mata. As suas viagens “têm sempre o mesmo princípio o encontro com a natureza e perceber a importância da preservação da natureza e de como as pessoas vivem. Isso é uma riqueza muito grande e uma maneira de compreender melhor o mundo”, apontou Francisco, que também comenta que o próximo destino do dois é o Jalapão, que também fica no estado do Tocantins.
Barco na água e é hora de navegar até o píer da Unidade de Conservação do Parque Estadual do Cantão e percorrer uma trilha para conhecer o complexo, que é administrado pelo Instituto Natureza do Tocantins (Naturatins) e conta com o Centro de Recepção do Turista, um espaço com auditório para palestras e exibição de vídeos, atendimento informativo sobre os projetos de preservação da região e as ações governamentais executadas no Cantão e lojinha de artesanato local. Além disso, na unidade, o turista pode praticar arvorismo e tirolesa, participar de práticas esportivas de aventura, nas estruturas que foram construídas na mata fechada. São desafios com vários níveis de dificuldades em duas bases: infantil e adulto. Adrenalina e diversão nas alturas, nas árvores do Parque Estadual do Cantão.
A unidade conta com trilhas terrestres para visitação, dentre elas a trilha que leva à Cabana, construção erguida às margens do rio e que serviu de locação para o filme Xingu. Após a caminhada, ao pôr do sol, o píer é base de contemplação do boto do Araguaia, o Inia Araguaienses, que exibe seu nado acrobático nas calmas águas do Rio Coco, no dourado do sol poente. Jacarés, tartarugas e ariranhas se juntam ao boto para a alegria dos turistas que podem ver tamanha diversidade. Todo esse ecossistema é preservado e considerado uma das áreas mais importantes da amazônia brasileira, abrigando um berçário de reprodução natural e de riqueza biológica.
Contato íntimo com a natureza, momentos de prazeroso sossego, olhar de contemplação, sentidos aguçados e vivências únicas é o Turismo de Experiência de Cantão- Carlos (Eller/Governo do Tocantins)
Contato íntimo com a natureza, momentos de prazeroso sossego, olhar de contemplação, sentidos aguçados e vivências únicas é o Turismo de Experiência de Cantão- Carlos (Eller/Governo do Tocantins)
O tour termina no porto do Horácio, na cidade de Caseara, sem souvenir, sem espaço para compras de lembranças. Na bagagem de volta, a mente em paz e como recordação os cliques fotográficos de cada animal exótico, de cada ribeirinho acolhedor, da simpatia contagiante dos barqueiros e do profissionalismo de uma operadora de viagem local, que tem parceria com o Governo do Tocantins e que promove o Turismo de Experiência do Cantão, que mais do que experimentar situações, desperta os sentidos. A viagem é realizada com o acompanhamento de um guia de turismo local. Os barqueiros também são todos nativos da região e conhecedores das belezas naturais do Cantão e do fluxo das águas dos rios que cortam a paisagem. O passeio acontece em um clima de muita descontração e amizade, com a contação de muitas histórias e lendas. Para o turismólogo e empresário Leonardo Azevedo, da operadora de turismo, o aproveitamento da mão de obra local é mais do que gerar a oferta de empregos na região.
– Nossa equipe nasceu e cresceu às margens desses rios, eles conhecem cada canto mágico do Cantão.
Ele explica que trabalha com o turismo sustentável, que proporciona a geração de renda para as pessoas. É o morador local que acompanha o turista nas atividades ao ar livre. A proposta de visita ao Cantão é o turismo de experiência onde é “vivenciado o dia a dia dos moradores que não têm energia elétrica. É um tipo de turismo, em que se saí da zona de conforto. É comer com o prato na mão, é ajudar a fazer a comida no fogão a lenha”, pontuou Leonardo.
No ano de 2016, mais de 200 grupos visitaram o Parque Estadual do Cantão. Pessoas oriundas de diversas regiões do Brasil e do mundo. Amantes do ecoturismo, pessoas em busca de contato com a natureza. De São Paulo, Marta Fernandes, Julio Barbero e Mario Hilsenrath vivenciaram a experiência de vir conhecer uma Amazônia cheia que eles só viam na televisão.
– No pernoite no Seu Levi, tomamos um banho no chuveirão com a água que vem do rio onde o jacaré estava. Ouvimos histórias que levaremos conosco pra sempre. Vimos como ele vive na mata e como planta a mandioca, a abóbora e a melancia -, disse Marta.
O grupo é apaixonado por ecoturismo e já estiveram em Bonito, na Chapada dos Veadeiros, no Petar e no Jalapão, destino que amaram e recomendam.
A partir de Caseara, os únicos meios de locomoção do turista são as embarcaçõesque percorrem as caudalosas águas do Cantão- Carlos (Eller/Governo do Tocantins)
A partir de Caseara, os únicos meios de locomoção do turista são as embarcaçõesque percorrem as caudalosas águas do Cantão- Carlos (Eller/Governo do Tocantins)
Visitar o Cantão é compreender o jargão popular que a Amazônia é o pulmão do mundo e entender a dimensão do que significa preservar a área e as espécies que habitam a região. Visitar o Cantão é se permitir ter um contato íntimo com a natureza e quiçá dizer com o Criador também, pois só mesmo algo tão grandioso e acima da compreensão humana poderia desenhar um pedacinho de paraíso como o Cantão. No coração da floresta, a vida pulsa; na alma viajante, o Cantão emociona o coração do turista que ama a natureza!

*É jornalista da Secretaria de Comunicação Social do Tocantins

* Texto com edição de Cerrado Rural

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