*Por Antônio Oliveira

BRF, do Grupo JBS é uma das principais envolvidas no escândalo (Foto: Divulgação)
BRF, do Grupo JBS é uma das principais envolvidas no escândalo (Foto: Divulgação)
Segundo maior produtor e primeiro exportador de carne bovina; segundo maior produtor e maior exportador de carne de frango, o Brasil, desde esta sexta-feira, 17, vê sua até então boa imagem destas proteínas ser maculada pela ação criminosa – segundo investigação do Ministério Publico Federal e Polícia Federal – de algumas empresas destas duas cadeias de alimentos. Via de regra, este lamentável fato pode jogar ao lixo anos e anos de investimentos em pesquisas para aumentar a produção e produtividade destes dois tipos de carne, além de altos investimentos em marketing para que o país alcançasse centenas de mercados mundo afora. O PIB brasileiro também será afetado com reflexos na manutenção e geração de empregos e renda.
Aliás, o presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, informou nesta sexta-feira, 17, que a imagem do Brasil vai ser muito afetada negativamente após este escândalo denominado de  Operação Carne Fraca.
Conforme Castro,  a situação é preocupante, porque o Brasil demorou muito tempo para consolidar sua participação no mercado internacional e hoje é um dos grandes exportadores de carne.
– Então, com isso, a imagem do país, vai ser muito afetada disse ele.
José Augusto de Castro afirmou que, como a exportação de carne não é feita em bolsa de mercadorias,  mas no mercado físico (“oferta e demanda”), o país poderá enfrentar cancelamento de compra e redução de preços. O cenário só não será pior – afirmou –  porque, nos Estados Unidos, maiores exportadores de carne de frango, apareceu mais um caso de gripe aviária.
– Mas, infelizmente, vamos sentir o impacto negativo aqui.
O Brasil exporta atualmente quase US$ 12 bilhões (o equivalente a quase R$ 40 bilhões) de carnes bovina, suína e de frango por ano.
– É um setor que emprega muita gente. Os principais compradores da carne brasileira de frango são a Arábia Saudita, a China e o Japão, que são muito exigentes. Possivelmente, esses países vão cancelar os contratos ou pedir novos certificados – acredita Castro.
Ainda conforme Castro, outros países podem entender que o Brasil perdeu credibilidade com a emissão de certificados.
– É um cenário difícil – disse  Castro, que lamentou ainda que ter essa notícia hoje foi muito ruim, depois da informação nesta  sexta-feira de que o Brasil aumentou, pela primeira vez nos últimos meses, o nível de emprego.
Associações e varejo manifestam preocupação
A Operação Carne Fraca causou indignação no mercado varejista  de carnes. Por meio de nota, a Associação Brasileira de Supermercados (Abras), orientou seus associados a dar prioridade à qualidade e à segurança na comercialização dos alimentos vendidos em todas as lojas do Brasil.
A Associação de Supermercados frisou que sempre recomenda a aquisição de produtos com SIF (Serviço de Inspeção Federal).
– Vale ressaltar que as lojas não mantêm produtos perecíveis em estoque por mais de 10 dias, que é o prazo médio entre a produção e a comercialização – observou.
A Asbras informou  que está aguardando a identificação dos lotes irregulares para tomar as medidas necessárias.
Pecuaristas
O Movimento Nacional dos Produtores (MNP) manifestou a insatisfação dos pecuaristas brasileiros diante deste escândalo
Ele disse que apoiou e parabenizou a ação da Polícia Federal em defesa da qualidade do produto comercializado pela indústria e em defesa do consumidor, “que coloca sua saúde em risco e sai com danos econômicos.”
Ainda conforme o MNP a comercialização de carnes no mercado interno e externo é fundamental para a economia nacional.
– Esse fator coloca em cheque não só a credibilidade das unidades frigoríficas, mas todo o trabalho desenvolvido da porteira para dentro [da fazenda], uma vez que um crime dessa proporção pode fechar mercados internacionais e até diminuir os índices de consumo de carne – disse.
– É com preocupação e indignação que os produtores rurais brasileiros, em especial de Mato Grosso do Sul, que possuem reconhecimento pela qualidade crescente a cada safra, avaliam a situação e repudiam os envolvidos – acrescenta a  nota.
O MNP diz ainda que  caso confirmada a participação do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, além de uma crise econômica no setor, o cenário se desenvolverá para uma grande crise institucional, uma vez que os pecuaristas, já insatisfeitos com a precificação e desvalorização dos animais, passarão a ser mais atentos e fiscais de seus produtos.
Sindicarne de Santa Catarina
Já o Sindicato das Indústrias da Carne e Derivados no Estado de Santa Catarina (Sindicarne) e a Associação Catarinense de Avicultura (Acav) também divulgaram nota sobre a Operação Carne Fraca. As duas entidades afirmam que a indústria brasileira da carne, em especial a catarinense, atingiu nas últimas décadas elevado nível de segurança e qualidade em sua operação, condição internacionalmente admirada e reconhecida.
– Os padrões de biosseguridade, os avanços genéticos e a atenção extrema à sanidade e ao manejo fizeram da nossa produção agropecuária uma das mais seguras de todas as cadeias produtivas, graças ao empenho e profissionalização dos produtores rurais e aos pesados, intensos e contínuos investimentos das agroindústrias. As indústrias brasileiras e catarinenses de carnes, notadamente as de aves e suínos, adotam o que há de mais avançado em máquinas, equipamentos, processos e recursos tecnológicos, assegurando alimentos cárneos confiáveis e de alta qualidade – concluiu a nota.
SRB
A Sociedade Rural Brasileira (SRB) defendeu a importância da apuração de todos os fatos relacionados à Operação Carne Fraca, assim como a responsabilidade na sua divulgação, de modo que seja realizada com o devido cuidado para esclarecer a opinião pública sobre o grau das diversas irregularidades identificadas.

De acordo com o presidente da SRB, Marcelo Vieira, não é toda a produção do Brasil consumida no mercado interno ou exportada que apresenta os problemas identificados na operação. Para Vieira, as longas investigações da Policia Federal devem ter constatado também boas práticas no setor.

– É essencial que esta conformidade também venha a público e assim seja manifestado.
Abiec
A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (ABIEC) foi outra instituição corporativa das cadeias das proteínas que se manifestou preocupada com esse lamentável fato.
Conforme ela, nenhuma planta de carne bovina dos seus 29 associados está citada na denúncia de esquema entre frigoríficos e fiscais agropecuários federais para comercialização de alimentos adulterados.
A ABIEC  diz ainda que seus associados seguem rígidas normas e padrões nacionais e internacionais de segurança para a produção e comercialização de carne bovina destinada tanto ao mercado interno quanto aos mais de 133 países para os quais exportam.
A Abiec lembra que o Brasil, além de ser o maior exportador mundial de carne bovina  é reconhecido pela qualidade e status sanitário de seu produto, que conta com auditoria dos órgãos brasileiros responsáveis, bem como das autoridades sanitárias das nações que importam a carne bovina brasileira.
– A ABIEC ressalta que os casos que vieram a público por meio da Operação Carne Fraca são isolados e não representam a imensa cadeia produtiva de carne bovina no Brasil.
A Associação repudia veementemente a adoção de práticas que não condizem com a garantia da qualidade do produto nacional e da credibilidade da indústria brasileira. E reitera sua confiança na atuação do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), bem como nos parâmetros seguidos pelo S.I.F. – Serviço de Inspeção Federal.
ABPA
Maior associação representativa das cadeias de proteína animal do mundo, congregando as cadeias da avicultura e da suinocultura, a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) veio a pública manifestar sua preocupação em  relação à “Operação Carne Fraca. Ela afirma que o Brasil é reconhecido internacionalmente pela qualidade e status sanitário de seus produtos, que são auditados não apenas pelos órgãos brasileiros mas também por técnicos sanitários dos mais de 160 países para os quais exporta.
– Legislações internas e internacionais – estabelecidas por órgãos como o Codex Alimentarius – norteiam o trabalho de excelências desenvolvido pelas agroindústrias brasileiras – afirma.
Neste sentido – continua a ABPA -, falhas que eventualmente venham a ser comprovadas são exceções em um modelo produtivo que é referência para o mundo.  São questões pontuais, que não refletem todo o trabalho desenvolvido pelas empresas brasileiras durante décadas de pesquisas e investimentos, para ofertar produtos de alta qualidade.
– A ABPA, desta forma, condena quaisquer práticas comprovadas – as quais, reafirmamos, são pontuais – que impactem negativamente o consumidor do Brasil e do exterior.  A associação ressalta, ainda, que todos os problemas detectados serão rapidamente corrigidos pelo setor, intensificando ainda mais os cuidados que já são tomados em prol da qualidade dos produtos – enfatizou.
Ainda conforme a ABPA, ao mesmo tempo em que ela apoia a operação e as investigações,  reitera sua confiança no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), nos fiscais federais agropecuários e nas empresas que, com seriedade, comprometimento e competência, vem ajudando a alimentar o Brasil e o Mundo nas últimas décadas.
CNA
Tão logo ficou sabendo deste caso, a Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA) também veio a público manifestar sua preocupação. Em nota ela diz que considera lamentável a denúncia de que alguns dos principais frigoríficos do país, com o apoio de uma rede de fiscais agropecuários do Ministério da Agricultura, estariam envolvidos num esquema de venda ilegal de carnes ao consumidor.
– Como representante dos produtores rurais, a CNA defende que os fatos envolvendo frigoríficos e fiscais agropecuários sejam apurados com rigor. E que, uma vez comprovados, possam levar à punição exemplar dos envolvidos – frisou.
Ainda conforme a CNA, os produtores rurais têm dado uma grande contribuição ao desenvolvimento nacional. Geram emprego, renda e alimentos de qualidade para a população.
– Portanto, não é justo que tenham a sua imagem maculada pela ação irresponsável e criminosa de alguns – concluiu a nota assinada pelo presidente da entidade, José Martins da Silva Junior.
Funcionários suspeitos são afastados
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Eumar Novaski anuncia medidas (Foto: Ascom/Mapa)
O Ministério da Agricultura afastou os 33 funcionários suspeitos de participarem do esquema de venda de carne adulterada. Eles agora vão responder a processos administrativos e, se comprovada a participação, podem ser demitidos.
Além disso, o ministério interditou três estabelecimentos envolvidos na investigação: o frigorífico BRF do município de Mineiros, no Estado de Goiás, e dois estabelecimentos do Pecin Agroindústria, um em Jaraguá do Sul, em Santa Catarina, e outro em Curitiba, no Paraná.
Eles produzem carne de frango e embutidos, como salsichas e mortadelas. Outros 21 estabelecimentos serão fiscalizados e se comprovado pelo ministério irregularidades também podem ser interditados. O ministério confirmou ainda que recebeu as primeiras denúncias sobre esquemas que permitiam a venda de carnes estragadas em 2010.
O secretário-executivo do ministério da Agricultura, Eumar Novaski, comentou que representantes da União Europeia e dos Estados Unidos entraram em contato com o órgão para ter informações sobre a Operação Carne Fraca, da Polícia Federal. O gestor disse que o caso preocupa porque o esquema de venda de carne estragada pode repercutir no mercado internacional.
Mapa interdita frigoríficos e afasta 33 servidores
Três frigoríficos foram interditados e 33 servidores envolvidos na Operação Carne Fraca destituídos das funções que ocupavam no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), anunciou, nesta sexta-feiram 17,  o secretário-executivo da pasta, Eumar Novacki. As medidas foram tomadas em função da operação desencadeada pela Polícia Federal, que investiga o pagamento de propina para obtenção de licenças sanitárias.
O secretário observou que o corpo técnico do Mapa é altamente qualificado e que o sistema de inspeção federal é robusto, sendo submetido a avaliações constantes, incluindo as de autoridades sanitárias estrangeiras por parte de 150 países importadores de carnes brasileiras.
– Não vamos tolerar desvios e atos de corrupção. Estamos tomando medidas enérgicas em relação a servidores e empresas e compartilhando informações com a Polícia Federal e com o Ministério Público –  disse Novacki.
As intervenções do Mapa ocorreram no frigorífico da BRF de Mineiros (GO), de abate de frangos, e nas unidades da Peccin em Jaraguá do Sul (SC) e em Curitiba (PR), que produzem embutidos (mortadela e salsicha). Em relação aos servidores, estão sendo abertos processos administrativos.
– Cabe ressaltar que há processos que foram abertos já no passado, em fase de investigação, e que estamos dando todo o suporte à PF –  ressaltou o secretário. As primeiras denúncias do caso divulgado nesta sexta-feira ocorreram há quase sete anos e, há dois anos, foram iniciadas as investigações culminado com as prisões e conduções coercitivas – acrescentou.
O secretário enfatizou que o Mapa não admite atos ilícitos e apoia integralmente quaisquer ações que visem coibi-los. Além de desenvolver ações próprias, assinalou, o Ministério da Agricultura tem parcerias com outros órgãos federais para fornecer dados, coletas oficiais de amostras, análises laboratoriais e resultados de ações fiscalizatórias.
Novacki admitiu preocupação com repercussão no exterior, observando que o Brasil é um grande player no mercado internacional do agronegócio. Mas ressaltou que as denúncias se referem a casos isolados e que o produto brasileiro tem reconhecimento no exterior. Ele lembrou ainda medidas adotadas no Mapa, desde que Blairo Maggi é ministro, como mudanças legais – entre elas portaria que impede a remoção de fiscais por parte de superintendentes regionais, sem motivação.
Em novembro do ano passado, Maggi publicou a Portaria 257/2016, que centralizou na Secretaria de Defesa Agropecuária e na Secretaria-Executiva essas remoções.
– É um dos mecanismos adotados nesta gestão que contribui para evitar a repetição de fatos como os apurados pela PF – disse Novacki. O secretário afirmou ainda que, em 10 meses, desde que Maggi, assumiu foram abertos mais processos administrativos do que nos dois anos anteriores.
Blairo Maggi emite nota
Em viagem ao exterior, o ministro Blairo Maggi, do Mapa, se manifestou por meio da nota transcrita abaixo:
“Diante dos fatos narrados na Operação Carne Fraca, cuja investigação começou há mais de dois anos, decidi cancelar minha licença de 10 dias do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). O que as apurações da Polícia Federal indicam é um crime contra a população brasileira, que merece ser punido com todo o rigor.
Neste momento, toda a atenção é necessária para separarmos o joio do trigo. Muitas ações já foram implementadas para corrigir distorções e combater a corrupção e os desvios de conduta, e novas medidas serão tomadas. Estou coordenando as ações, já determinei o afastamento imediato de todos os envolvidos e a instauração de procedimentos administrativos. Todo apoio será dado à PF nas apurações. Minha determinação é tolerância zero com atos irregulares no Mapa.
Blairo Maggi”

*Com informações de agências de notícias e assessorias de comunicação do Mapa e das empresas e corporações  citadas nesta matéria.