CRÔNICA – A “Chica” que saiu das ruas de Barreiras e...

CRÔNICA – A “Chica” que saiu das ruas de Barreiras e voltou a ser a Maria das Minas Gerais

SHARE

Por Antônio Oliveira

Houve um tempo em que a qualquer sinal de distúrbio mental o ser humano era internado nos famosos “hospícios”, os manicômios, onde os tratamentos psiquiátricos eram desumanos, equivocados e, dificilmente, o paciente saia de lá com vida.  Confundiam-se, como se confundem ainda hoje, distúrbios mentais com perturbações espirituais. Eram casas de horrores, onde se acreditavam que a “loucura” não tinha cura.

Ainda na época do Iluminismo, na França, inspirado por este ideal e no da Revolução Francesa, Philippe Pinel (1745-1826), então diretor dos hospitais de Bicêtre e da Salpêtriére, foi um dos primeiros a libertar os pacientes dos manicômios das correntes, dando-lhes liberdade de movimentos, como terapia.

(Foto ilustrativa/Divulgação)
(Foto ilustrativa/Divulgação)

Fato recente, que inspirou o roteiro do filme  “Patch Adams – O Amor é Contagiante”, foi protagonizado pelo norte-americano que deu nome a este filme. Ainda no auge de sua adolescência, depois que perdeu o pai e foi deixado pela namorada, ele caiu numa crise depressiva e internou a si próprio numa clínica psiquiátrica. Nesta, concluiu que cuidar do próximo é a melhor forma de esquecer os próprios problemas e, melhor ainda, se isto for feito tendo com base o bom humor e, principalmente, o amor.

Após esta experiência resolveu deixar aquele hospital onde se tratava pacientes tidos como “loucos” de forma equivocada, e cursar Medicina, se especializando em Psiquiatria. Durante o curso, se notabilizou por sua conduta proeminentemente feliz e apaixonada pelos pacientes.

Em 1980, comprou um terreno em West Virgínia onde materializou os projetos do Instituto, que havia fundado anos atrás, construindo um grande centro psiquiátrico, onde presta assistência psiquiátrica de forma gratuita. Sua forma continua sendo o amor, a liberdade e o humor.

O Brasil teve, também, experiências amargas no campo da Psiquiatria. Seus manicômios eram casas de horrores. Em Minas Gerais, uma destas – o Colônia, em Barbacena, fundada em 1903 – se notabilizou por ter sido o palco da morte de ao menos 60 mil pessoas tratadas de forma desumana e equivocada.

Feito este preâmbulo, entro no assunto a que me propus para esta crônica.

Lá pela metade da década de 1980, perambulava pelas ruas de Barreiras – no centro e no grande bairro de Barreirinhas –, uma mulher de perfil físico esquálido e esquelético, roupa em farrapos e cabelos há anos sem sentir um pente – e um afago.

Ninguém sabia de onde veio, para onde iria, nem o seu nome.

Pedia comida nas casas e bebia, como se fosse água potável, a água servida, que saia dos canos de esgotos das residências. Quando entrava em crise mental ficava agressiva e danificava automóveis que via pela frente e, muitas vezes, atacava as pessoas. Era quando a Saúde pública agia, levando-a para o Hospital Eurico Dutra, onde lhe aplicavam o famoso “sossega leão” – sedativo -, e acalmada, era solta nas ruas novamente. Era um círculo vicioso.

Eu ficava observado essa situação que me incomodava: ver um ser humano ser tratado como se fosse um cão sem dono, a perambular pela cidade, repastando restos de alimentos, bebendo esgoto, sem um tratamento médico digno. Liguei para minha mãe, em Goiânia, que era vizinha do extinto Hospital Psiquiátrico Adauto Botelho, e pedi a ela para ver a possibilidade de uma vaga para esta criatura se tratar. Com muito custo, ela conseguiu.

Busquei o apoio moral junto a alguns amigos, como o empresário Romero Amorim; o médico veterinário Reginaldo Melo – maçons dedicados -, e a minha amiga do fundo do coração, Francisca Prado, a dona “Francesinha”, do Lar de Emmanuel, e o apoio do Poder Público Municipal, na pessoa do então prefeito Baltazarino Araújo Andrade. A este pedi o meio de transporte para que eu levasse a “Chica” – nome que dei a andarilha – até Goiânia. Fui atendido de imediato, o Prefeito me cedeu uma ambulância com o devido motorista e custos de viagem deste e da viatura.

Fui a campo mais meus amigos para o resgate daquele ser humano. Não foi fácil, mas conseguimos. A colocamos na viatura e a levamos para o Eurico Dutra, onde lhe aplicaram um calmante e um sonífero.

Rumamos para Goiânia. No meio do caminho os medicamentos perderam o efeito e a “Chica” se debatia e xingava muito na cabine de pacientes da ambulância. Não podíamos fazer mais nada, a não ser seguir viagem.

Enfim, o Adauto Botelho, onde fomos atendidos por atencioso Psiquiatra. Já adepto aos novos métodos de tratamento de distúrbios mentais, explicou-me que a internaria, mas que não queria que ela ficasse lá pelo resto da vida, se não o tratamento jamais teria efeito. Amenizado o problema, a paciente teria que ter alta e encaminhada à família, disse-me. “Que família?”, perguntei-me, intimamente. Mas garanti que iria em busca de seus familiares, pensando eu que a “Chica” fosse da região de Barreiras.

Voltamos para a cidade baiana, onde eu tinha um jornal e fazia Rádio (Rádio Barreiras e Rádio Vale do Rio Grande) e iniciei uma pesquisa por meio dessas emissoras. Nada de noticia da família da “Chica”. E o tempo foi passando e ela dando sinais de retomada da memória.

Meses, quase um ano, se passaram e minha paciente obteve alta médica. Mais um problema a ser resolvido: não encontrei nem rastro de sua família. Pedi, então, a minha santa mãe desta existência que ficasse com ela em casa. Foi o que minha mãe fez.

A “Chica” já não era mais a mesma: tomou corpo, a conversa normal e, aos poucos, a pedido dela, minha mãe foi lhe dando afazeres domésticos e convivência social. Ela já não era mais a “Chica”, mas a Maria – segundo ela, seu nome verdadeiro. E a memória ia se refazendo com a convivência social no seio da minha família.

Meses se passaram, enquanto eu não sabia mais o que fazer para descobrir os seus familiares. Eis que um dia, durante uma das exposições agropecuárias de Goiânia, cujo parque fica a poucos metros de nossa casa e o nosso quintal transformado em garagem paga, a Maria avistou uma camionete estacionada por lá, olhou a placa – de Januária (MG) – e disse para minha mãe que era de uma cidade próxima a esta.

Minha mãe me ligou, dando-me esta informação. Imediatamente, entrei em contato com um locutor da Rádio Nacional de Brasília, na época, com grande penetração no interior brasileiro, pedindo-lhe que desse “um alô” neste sentido, explicando a situação para as populações da região de Januária.

Poucos dias depois, apareceu um dos irmãos da Maria que era a “Chica”. Informou morar em Pedras de Maria da Cruz, a cerca de 50 km de Januária, do outro lado do Rio. Falamos-nos por telefone, quando ele me disse que já a tinha como morta, afogada na águas do Rio Francisco, que corta a região, em consequência de suas crises de loucura.

Mais uma vez, recorri ao então prefeito Baltazarino e ele me cedeu um automóvel de luxo para os padrões da época – uma Caravan (GM) –, motorista e os curtos das duas viagens – uma à Goiânia para buscar a Maria, e a outra de Barreiras a região da cidade dela.

Ao adentrarmos o território de Minas Gerais, já na região de Montalvânia, a Maria, que já não era mais a “Chica” reconheceu as belezas das Minas Gerais e, muito emocionada, pediu a mim e ao motorista:

– Vocês podem me deixar aqui, já estou em casa.

Claro que a gente não faria isto, pois o destino dela estava a mais de 100 km à frente.

Por fim, chegamos a Pedra de Maria da Cruz e a entregamos para sua família. Entregamos também os medicamentos dela, com as devidas recomendações médicas e a as de minha mãe: sociabilidade, carinho, amor e o que fazer.

A deixamos feliz com os seus e voltamos da mesma forma para Barreiras.

 

 

NO COMMENTS

LEAVE A REPLY