CRÔNICA – A espingarda que meu pai me deu

CRÔNICA – A espingarda que meu pai me deu

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Por Osvaldo Piccinin

a-espingarda-que-meu-pai-me-deu-cronica-osvaldo-piccininHá um equívoco comum entre as pessoas que se sentem superiores às outras. Curiosamente, o individualista se julga mais forte que o resto do mundo. Mas é o contrário. Você se fortalece muito mais quando assume as limitações e é humilde o suficiente para pedir ajuda. Para mim este é o verdadeiro herói e sábio.

Depois de passar quase toda minha infância caçando com estilingue, forcei a barra para meu pai dar-me, de presente de Natal, uma espingarda de carregar pela boca, tipo pica-pau, como chamava. Com apenas onze anos de idade, pude sentir o gosto de me diferenciar dos demais primos da colônia do sítio onde morávamos. Afinal, portar uma arma de fogo era coisa para adultos e não para um pirralho como eu, metido a galã.

Como era praxe, nessas ocasiões, antes da entrega definitiva do perigoso brinquedinho, havia a entrega técnica – sempre acompanhada de muitas explicações quanto ao manuseio e aos cuidados a serem tomados.

Meu velho pai confiava muito em mim, mas a pressão dos tios, mãe e primos para não me dar a tão sonhada espingarda pesava muito em sua consciência e na sua tomada de decisão, por isso tanta cautela. Herdei do meu avô o gosto pelas armas. O velho não largava sua velha garrucha de dois canos por nada desse mundo. Dizia-me: homem de verdade tem que andar armado.

Passei a caçar com adultos, sempre nos finais de semana, e me sentia “o tal”. O prazer sentido ao amanhecer, bem antes do sol nascer, ainda com a relva molhada, me causava uma sensação de superioridade perante meus primos. Era a pica-pau nas costas, no ombro o embornal com as munições e “pernas pra te quero”!

E lá íamos nós, com extrema ansiedade, tentar encontrar com alguém com o qual nem encontro havíamos marcado. Nossos alvos preferidos eram as ariscas pombas e os tinhosos inhambus. As lavouras de milho recém colhidas, nosso ponto de encontro. Dificilmente voltávamos para casa sem pelo menos um troféu para exibir aos demais amigos e familiares.

Quando eu achava que já sabia tudo sobre a arte de caçar e manusear minha espingardinha, dei um vacilo que me custou um zumbido no ouvido até hoje. Um amigo, que por ingenuidade, ignorância ou maldade me sugeriu usar pólvora empregada em cartuchos, alegando ser mais potente.E o velho caninho da minha jóia preciosa não agüentou e explodiu. Daí a seqüela do zumbido no ouvido.

Meu pai, que ao ouvir sobre o que havia acontecido, deu-me uma explicação que jamais esqueci, em linha com a introdução desta crônica, qual seja:

– Você deveria ter me consultado antes de usar algo que desconhecia. Você achou que já sabia tudo e se deu mal. Sabia que poderia ter sido pior? Sabe meu filho, na vida a gente não sabe e não tem a obrigação de saber tudo, por isso devemos ter humildade suficiente para perguntar a quem sabe. E agora o que vamos falar para sua mãe? E para seus tios e primos que tanto me criticaram?

Depois de passado o susto e de ter levado um baita sabão, entendi que ser humilde não significa ser trouxa, mas sim sabido. Quanto mais um homem sabe e culto for, maior deverá ser sua humildade. Suas boas qualidades naturalmente se aflorarão e ele será admirado e respeitado como ser humano pelos seus semelhantes.

Ao contrário do que acontece com o prepotente e arrogante, onde a soberba funciona como viseira. O tipo “eu me basto” padecerá pela vida afora, culpando a todos pelo seu fracasso, como se o mundo contra ele estivesse.

E VIVA A HUMILDADE!

(Osvaldo Piccinin é engenheiro agrônomo formado pela ESALQ e sócio-fundador da Agro Amazônia)

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