CRÔNICA A perigosa aventura de uma reportagem-política e o medo...

CRÔNICA A perigosa aventura de uma reportagem-política e o medo de um avião que poderia ter sido sabotado

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Por Antônio Oliveira

Estávamos pautados para gravar imagens e depoimentos sobre as obras de construção de uma pequena usina hidrelétrica na fazenda de um correligionário do então governador de Goiás, Maguito Vilela, e de seu candidato a sua sucessão, Iris Rezende Machado, histórico peemedebista goiano e que estava há “anos luz” a frente do nosso candidato nas pesquisas eleitorais.

aviao1 aA equipe era formada por mim, pelo veterano e um dos maiores ícones da imprensa goiana (um multimídia), Luís Carlos Bordoni; um cinegrafista e um auxiliar deste, cujos nomes não me lembro mais e a viatura que nos deslocaria até a zona rural de uma cidade da região noroeste de Goiás, um monomotor, que estava a serviço da campanha do então deputado federal e candidato ao governo de Goiás, pela primeira vez, Marconi Perillo, hoje no seu quarto mandato de governador.

Resumo da pauta nos dada pelos marqueteiros da campanha de Perillo: a usina estava sendo construída pela estatal goiana, Centrais Elétricas de Goiás (Celg). Tínhamos que detalhar tudo, em imagens e em depoimentos, se possível de trabalhadores na obra, e de pessoas na cidade.

Saímos do aeroporto Santa Genoveva, em Goiânia, por volta das 14 horas e pousamos cerca de uma hora depois numa pista de pouso vizinha a fazenda da nossa pauta, onde estava a nos esperar o presidente do PSDB, partido de Perillo, naquele município.

– Vocês vieram armados? – perguntou-nos esse líder político após os cumprimentos de praxe, ao descermos da pequena aeronave.

– Estamos armados porra nenhuma – respondeu Bordoni, com sua linguagem característica de bastidores.

– Nossa arma é Jesus – completou ele.

– Tudo bem. A fazenda é esta ao lado. Vamos entrar por baixo da cerca de arame e descer até as obras. A sede da fazenda está longe daqui. Os peões da obra não vão reagir à nossa presença e gravações. O perigo são os “seguranças” da fazenda. Mas, seja o que Deus quiser – respondeu o líder tucano naquele Município.

Embora estivéssemos empenhados naquela pauta e “armados com Jesus”, notava-se na equipe certa apreensão, enquanto descíamos ladeira abaixo, em meio ao mato e espinhos e sob sol escaldante. Na verdade, se colocássemos um cabo de vassoura no “fio-o-fó”, produziríamos pedras de dama, como se dizia nos velhos tempos de minha adolescência.

Por fim, nas obras, não havia nenhum trabalhador. Jagunço, só se fosse de tocaia, prontos para acertar a primeira cabeça. Esperava que não fosse a minha. Queria sobrar para contar a história.

Entre o medo e o dever a cumprir detalhamos em vídeo toda aquela obra, supostamente construída com recursos públicos e voltamos ao encontro do piloto que nos esperava na aeronave. Esperto: a qualquer som de um “traque”, asa para quem tem.

Era final de tarde e como tinha uma manifestação política do nosso candidato na cidade, resolvemos passar a noite nela. E, assim decidido, rumamos, em companhia do nosso anfitrião para um dos hotéis da cidade.

Logo mais, a noite, num barzinho, para onde nos dirigimos com toda a equipe, com  o tucano-mor da cidade e com  o piloto, o repórter aqui, feliz da vida por ter saído “vivinho da silva” daquela “quebra de milho” midiática e “markentiática”, lembrou de um detalhe:

– Bordoni!

– Diga, porra! – respondeu-me ele.

– Você deve ter notado que pousamos e deixamos o aviãozinho numa pista ao lado da fazenda onde fizemos as gravações da nossa denúncia-bomba…

– Sim, notei. E daí? – afirmou e questionou-me um dos melhores professores que eu tive no Rádio.

– Daí que, vai que alguém já bateu com a língua nos dentes para o proprietário da fazenda, correligionário do nosso candidato, que estivemos fazendo gravações na sua propriedade?

– E daí? – Pergunta o Bordoni.

– Dai, meu irmão, que o fazendeiro manda um peão sabotar o nosso avião?

Todos arregalaram os olhos para o meu lado e foi o piloto da aeronave quem primeiro se manifestou, pedindo ao nosso anfitrião para pedir alguém para passar a noite ao lado do teco-teco. No que fomos atendidos.

Contudo, não consegui dormir preocupado.

A cidade era quase 100% Iris Rezende, ao ponto de, nos preparativos de uma concentração politica pró-Marconi Perillo, a pedido, Bordoni empunhou o microfone e foi fazer prosélito, pré-animar aquela manifestação.

– É Marconi…., dizia meu colega de pauta, todo entusiasmado. Derrotar Iris, de quem ele era antagonista histórico, seria mais vitória sua de que no nosso candidato.

O povão lá embaixo respondia em coro:

– É Iris….

E assim durante muito tempo.

Ao chegarmos diante do avião, ainda temeroso, com o piloto e o tucano da cidade a nos dizer que não havia perigo, pois o rapaz a nossa frente passara a noite vigiando a aeronave, eu ainda pedi uma providência.

– Só entro neste avião se o piloto ligar o seu motor, dar alta rotação nele e o deixar em funcionamento por meia hora, antes de nos embarcarmos. Vai que alguém, chegou aqui antes deste nosso segurança?

E assim foi feito e chegamos em Goiânia com o “fio-o-fó” mais aliviado.

 

 

 

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