CRÔNICA – Carloman, o pintor que federalizou a campanha do baiano Sebastião...

CRÔNICA – Carloman, o pintor que federalizou a campanha do baiano Sebastião Ferreira para federal

SHARE

11885343_1605159399744314_1319480230194403827_nPor Roberto de Sena*

O pintor Carloman (na foto maior) é uma das figuras mais conhecidas e queridas de Barreiras, e de todo oeste baiano. Sobre ele, tenho para contar hoje, uma breve historia.

155970_102218896615847_747451215_nQuando foi candidato a deputado federal, o saudoso Sebastião Ferreira, contratou Carloman para fazer as pinturas de suas propagandas de muros e placas em toda região. No seu jeito espontâneo, tranqüilo e despachado, Sebastião chamou Carloman e lhe disse:

– Sou candidato a deputado federal. Tome aqui um carro, tá aqui também o dinheiro e todo material para você fazer as pinturas da minha campanha. Caia no mundo, pode pintar a vontade. Não faça economia. Quanto mais  melhor. Confio em você, jogue duro, vamos ganhar esta eleição de qualquer maneira, no peito e na raça. Cê sabe que eu num sou homem de derrota, eu nasci para vencer.

Carloman, vestido em seu macacão azul,  botou uma musica no toca-fitas do Del Rey e tranqüilizou Sebastião.

– Pode deixar deputado. O senhor sabe que pode confiar em mim. Coragem para trabalhar, não me falta.

Na época, Carloman não entendia bem de política, pensou que candidato a deputado federal poderia ser votado no Brasil todo. Assim sendo começou pintando na BR 020, foi até o Mimoso, (que hoje é Luis Eduardo Magalhães) do Mimoso a Roda Velha, de Roda Velha a Posse, de Posse para Alvorada, Formosa, Brasília, entrou no Goiás, passou por Minas e finalmente, São Paulo.

Com todo seu apetrecho parou no centro da capital paulista e pensou: “Meu grande sonho sempre foi pintar em São Paulo, agora chegou a vez de mostrar meu talento. A imprensa toda vai ver, daqui a pouco vou sai até no Jornal Nacional”.

E alegremente começou a cantar aquela musica de Caetano Veloso “Alguma coisa acontece no meu coração que só quando cruzo a Ipiranga e a Avenida São João”. Esses versos lhe deram uma ideia magnífica “Vou pintar uma placa bem no cruzamento da Ipiranga com a Avenida São João onde Caetano fez a sua famosa música.”.

Dito e feito. Instalou uma grande placa no cruzamento da Ipiranga com a Avenida São João, bem no centro de São Paulo e, placidamente, começou a pintar. PARA DEPUTADO FEDERAL VOTE EM SEBASTIÃO FERREIRA, LÁ DE BARREIRAS.

Os fiscais da prefeitura de São Paulo não tardaram a chegar para checar quem  autorizara  Carloman a pintar uma placa de propaganda política naquele local. Um deles, de forma ríspida, foi logo perguntando:

– Cadê a autorização para você pintar esta placa aqui neste lugar?

– Eu não preciso de autorização de ninguém!

Foi a resposta de Carloman

– Não precisa como? Quem você pensa que é? Aqui todo mundo precisa de autorização da prefeitura para pintar placas em qualquer lugar.  É a lei meu chapa!

– Estou cumprindo ordens do deputado Sebastião Ferreira, lá da Barreiras, na Bahia.

Retrucou Carloman sem dar a mínima para os dois sujeitos.

E os fiscais  perplexos: “Da Bahia?”. Que brincadeira é está meu amigo? Como é que um deputado da Bahia vem fazer propaganda aqui em São Paulo? Onde já se viu isso! Arranque logo essa placa daí que é proibido colocar placas neste local. Vamos ande com isso que  nós não temos tempo a perder e não estamos brincando, vamos logo com isso! Ande, rápido…

Carloman não gostou do tom de voz dos fiscais. Saiu da sua costumeira calma, levantou os óculos e revidou.

– Vocês estão é com medo porque já viram que Sebastião vai ter mais voto aqui em São Paulo do que o Maluf.

E para deixar os fiscais ainda mais irritados debochou da cara deles.

– Quem é Maluf pra ganhar de Sebastião? Ô coitado! Eu quero é prova! Sebastião vai dar de goleada no Maluf, querem apostar comigo? Meu Del Rey contra esse salarinho micho de vocês. Topam? Topam nada. É Por isso que vocês já começaram essa perseguição política. Mas não adianta perseguir. Só vai dar Sebastião na Bahia e aqui!

– Este cara é maluco. Bradou um dos fiscais.

Carloman não ficou calado. Do alto da escada respondeu em cima da bucha

– Malucos vocês vão ficar é quando abrir as urnas e o Maluf tomar uma surra de votos de Sebastião Ferreira. Quero soltar foguete aqui, igual a gente solta lá na Barreiras.

Os fiscais não gostaram da forma como Carloman falou. Acharam que ele estava tirando onda e foram ainda mais duros.

– Olha meu amigo, você já está passando dos limites! Desça dessa escada, tire esta placa daí, caso contrário nós vamos lhe aplicar uma multa e chamar a polícia pra você deixar de ser abusado.

Carloman percebeu que o negócio estava ficando sério. Decidiu ligar (de um orelhão, na época ainda não havia celular) para Sebastião Ferreira e comunicar o que estava ocorrendo.

– Alô deputado, como é que tá a coisa ai em Barreiras? Beleza? Ótimo! Vamos ganhar de lavagem, vai ser uma surra daquelas. Olha depois das pinturas que eu fiz, sua candidatura cresceu muito, nós vamos ganhar essa mole, mole. Agora tem um probleminha. O seu sucesso já tá incomodando muita gente! Imagine deputado,  o Maluf está com medo de perder a eleição para o senhor e botou uns fiscais metidos a biscoito de sebo para me perseguir! Os bichos tão com tanto medo da derrota que tão me obrigando até a  arrancar as placas de sua propaganda que eu estou pintando. Isso só pode ser perseguição do Maluf…

Do outro lado da linha Sebastião não entendeu nada  .

– Que historia é esta Carloman? Por que o Maluf iria me perseguir? Cê ta ficando doido cabra veio?

– É verdade deputado! O Maluf quando viu o crescimento do seu nome ficou morrendo de medo  de perder a eleição para o senhor e mandou arrancar a sua placa que eu tô pintando.

Sebastião estranhou ainda mais aquela conversa sem sentido.

– Maluf mandou arrancar minha placa? Me diga uma coisa Carloman, onde você tá cabra veio?

Carloman bateu no peito e respondeu com entusiasmo

– Eu sou um retado deputado! Eu não falei pro senhor que coragem pra trabalhar é o que não me falta? Pois eu já tô é em São Paulo. Em São Paulo. Tô pintando uma placa  no cruzamento da Ipiranga com a Avenida São João, bem onde o Caetano Veloso fez aquela musica, num sabe?

Sebastião  deu um murro na mesa, pulou na cadeira e gritou no telefone.

– Cê tá fazendo o que aí em São Paulo, Carloman?

– Oxente, tô pintando suas placas deputado.

– E quem é que vai votar em mim ai em São Paulo? Hem? Quem? Eu sou Candidato é na Bahia. Cê tem que pintar as placas é na Bahia, na Bahia, entendeu? Saia daí. Volte urgente. Venha embora hoje mesmo, hoje, hoje…tá me entendendo? Só quem pode fazer propaganda em ai em São Paulo, são os candidatos de São Paulo. Eu sou é da Bahia e só posso fazer propaganda na Bahia. Apague estas placas ai, ligeiro, a Justiça Eleitoral pode até pegar no meu pé por causa disso. E venha embora cabra da peste, venha hoje mesmo, não fique ai nem mais um minuto, pelo amor de Deus!

Carloman levou as mãos a cabeça, limpou o suor do rosto e respondeu

– Oxente deputado e eleição de deputado federal  é só na Bahia?… Virgem Santa, meu padim Pade Ciço Romão Batista, pensei que voto para deputado federal valesse  no Brasil todo, eu já ia sair daqui para pintar no Amazonas.

– Que Brasil todo que nada cabra veio, cê tá doido? É só na Bahia, na Bahia, tá me entendendo? volte hoje mesmo. Venha embora agora. E não me arrume mais problemas pelo amor de São João Batista, padroeiro da Barreiras.

Carloman desceu da escada, desmontou a placa e empilhou o material. Olhou com raiva para os fiscais da prefeitura de São Paulo. Ligou o Del Rey, saiu cantando pneus,  ainda teve tempo de gritar. “Não adianta seus puxa-sacos, o Sebastião vai dar uma surra de votos no Maluf.” Três dias depois Carloman estava em Barreiras e apesar de muito cansado  ainda teve fôlego para   participar da festa da vitória de Sebastião. Sua façanha entrou para os anais da história política do Oeste baiano.

Bem se vocês não acreditam no que eu estou contando, Carloman tá aí vivo e são para confirmar tudo. É só perguntar a ele.

*(Roberto de Sena é poeta e jornalista – crônica extraída do site Mural do Oeste, dele)

 

NO COMMENTS

LEAVE A REPLY