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Lá se foram quase 20 anos, mas nunca saiu da minha memória, principalmente quando eu passo de frente ao cemitério de Barreirinhas, em Barreiras, no oeste da Bahia, o dia em que sepultamos aquela criaturazinha com poucos meses de nascido.

Seu nome, sua data e local de nascimento, não nos foram informados. Só me recordo que era um menino e que ele teve um sepultamento digno de um ser humano, embora com seus pais biológicos tomando rumo ignorado, após nos entregá-lo, atendendo nosso pedido, para adoção.

(Imagem meramente ilustrativa - foto do Google)
(Imagem meramente ilustrativa – foto do Google)

Era noite de um dia, de um mês e do ano de 1990 ou 1991, que também não me lembro mais com exatidão, quando eu e minha então esposa, Zulmira, chegávamos para a reunião evangélica do Centro Espírita Lar de Emmanuel, na Vila Rica, naquela cidade, dirigido, até os dias de hoje, por nossa boníssima amiga Francisca Prado, nossa querida Francisquinha, pessoa de uma alma com um azul muito brilhante. Fomos informados que tinha um grupo de andarilhos, retirantes ou ciganos, acampados sob as copas de umas mangueiras de um lote baldio nas proximidades do “Rego de Barreirinhas” – canal aberto por trabalho braçal, lá pelos anos de 1920/30, sob o comando do grande Geraldo Rocha, puxando água do Rio de Ondas para mover uma pequena hidrelétrica em Barreiras, hoje aterrado, dando lugar a uma avenida -, que estavam com uma criança de colo doente e que iam dar ou abandoná-la. Eu e Zulmira nos dirigimos para o local e pegamos a criança para entregá-la, provisoriamente, a Francisquinha, como fazem até hoje pessoas daquela sociedade e o Juizado da Infância nesses casos.

Naquela mesma noite, percebendo tamanho trabalho e responsabilidade de minha amiga com tantas crianças que ela e o marido, meu compadre José Prado, já tinha com quase uma dezena de crianças adotivas – hoje são mais de 50 -, e com uma vontade imensa de adotar aquela criança, consultei a Zulmira desta possibilidade. “Onde comem quatro, comem cinco”, foi, mais ou menos, a sua resposta. Já tínhamos quatro filhos. Passamos, desde aquele dia, e por poucos dias, a ter mais um.

Debilitado, o levamos imediatamente ao pronto-socorro do Hospital Eurico Dutra (famoso por suas deficiências, graças ao pouco caso que os governos da Bahia sempre tiveram para com o oeste da Bahia – um estado dentro do território baiano, faltando apenas, num grito de independência e bom senso das lideranças políticas da parte leste do Estado, legalizá-lo, criando o tão sonhado e necessário estado do São Francisco, um direito de 9,99 de cada dez habitantes daquela região).

Lá ele fora atendido por uma pediatra que nos deu o seguinte diagnóstico: “Esta criança já esteve aqui com seus pais e eu já o examinei e constatei que ele tem a Síndrome de Dow e, além disto, tem sopro no coração. Portanto, terá vida curta, pouco adiantando interná-lo”.

Eu olhei bem para ela e vi que uma criança estava em gestação em seu ventre. Respondi-lhe: “Que esta criança que a senhora espera nasça com saúde. Mas, se não, a senhora deixaria de dar-lhe um tratamento digno, deixaria de lutar pela vida dela?”.

Nosso filho do coração foi internado.

Como, naquele hospital, não aceitavam acompanhantes durante toda a noite – não me lembro com que argumento -, informei que, todos os dias, até por volta da meia-noite ou 1 hora, eu estava a trabalho na redação da Rádio Líder FM, depois seguiria para casa, que pudessem me chamar para qualquer emergência.

No terceiro dia de internação da criança, eu e Zulmira, como fazíamos desde o primeiro dia, fomos visitá-la. Já não a encontramos mais no seu leito. Seu corpinho jazia como indigente sobre uma fria pedra de mármore do necrotério do malfadado Hospital Regional Eurico Dutra.

Não era um indigente, não. Lá no seu sepultamento estavam seus pais do coração e a nossa iluminada Francisquinha, dando-lhe, em preces, nosso adeus e o nosso pedido de perdão pela frieza, não daquela  pedra de mármore, mas dos corações de quem deveriam ter a medicina como sacerdócio e, desta forma, respeitando o ser humano, independente de sua  condição social, religiosa, física, etc.

(Do Livro Histórias  que eu vivi e ouvi. Depois dos filhos, os netos. E a vida recomeça, de minha autoria, ainda inédito)

 

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