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Travessia do Rio Tocantins, em Pedro Afonso, a caminho de Campos Lindos (Foto: Tatiane Oliveira/Reprodução Cerrado Rural)
Travessia do Rio Tocantins, em Pedro Afonso, a caminho de Campos Lindos (Foto: Tatiane Oliveira/Reprodução Cerrado Rural)

Nestes 14 anos de fundação e circulação da minha revista – Cerrado Rural Agronegócios -, já passei por tantas coisas em minha vida que, algumas delas, nem mesmo minha família sabe. Aborrecimentos, perseguições, humilhações, dificuldades, sacrifícios, enfim. Mas, não só eu, mas também toda a sociedade da região em que nos inserimos tivemos conquistas por meio das grandes reportagens publicadas e ações outras mostrando o potencial da região.

Vivi muitas situações, até cômicas, como a que, durante três dias, me alimentei apenas de cafezinho e de soja verde plantada num lote baldio ao lado da rodoviária de Foz de Iguaçu, no Paraná. Havia ido, pela primeira vez, participar de um Congresso sobre soja. Uma história que contarei oportunamente. Aqui vou contar outra, um pouco absurda, porém cômica.

Gostoso lembrar que comecei minha revista cruzando o Tocantins, o sul do Maranhão e o oeste da Bahia, com uma das minhas filhas na função de fotógrafa,  sobre uma Vespa 1986 – um hobby que virou necessidade – , fazendo reportagens. Quando em Campos Lindos, nordeste do Tocantins, só chegava de jeep ou caminhão, nós chegamos de Vespa e chamados de doídos.

Corria o ano de 2004, eu preparava a segunda ou terceira edição da minha revista. Estava em Formoso do Araguaia, região de várzeas, no sul do Tocantins, fazendo uma reportagem sobre o bom momento da cidade com os agronegócios da semente de soja, da melancia e do feijão, cultivados lá pelo sistema de inundação ou subirrigação. Entrevistei produtores rurais, presidentes de cooperativas de irrigantes e Prefeito do Município; fotografei lavouras, canais de irrigação e depois fui para o centro da cidade fotografar o movimento da principal avenida, evidência da pujança econômica da região.

Entre uma foto e outra, chega ao meu lado dois policiais militares armados com fuzil ou metralhadora (de arma entendo tanto quanto de medicina nuclear) e um deles me questiona o que eu estava fazendo.

– Estou fazendo uma reportagem no Município e, aqui, fotografando esta avenida. Não posso? Sou jornalista – respondi.

– O senhor está fotografando a agência bancária, é uma atitude suspeita. Me mostre sua identificação de jornalista – voltou à palavra o policial.

– Carteira de Jornalista estou sem ela aqui. Tenho minha Carteira de Identidade e papel timbrado de minha empresa, o que prova ser eu um jornalista, pequeno empresário da comunicação e homem de bem – retruquei.

Ele olhou os documentos e, não satisfeito, disse-me que eu teria que acompanha-los até ao Comando local da Polícia Militar. Concordei, mas fazendo uma exigência, o de não ir no porta-malas.

Os policiais me olharam atravessados como que se estivesse pensando com eles mesmos: “sujeito folgado!”.

Era uma viatura/camioneta “zerada”, da nova frota recém adquirida pelo Governo do Estado. E eu a inaugurando como acusado. E lá fomos para o Batalhão da PM.

Chegando lá, dois dos três policiais me levaram até a sala do Comandante, avisando-o que me flagraram em atitude suspeita fotografando o Banco do Brasil.

Ao telefone e sem ao menos olhar para nós, o Comandante ordenou que me levasse para a Delegacia de Polícia Civil da Cidade.

– Comandante, deixe-me ao menos fazer umas ligações para Palmas e o senhor saberá quem realmente sou, não sou um bandido – protestei.

– Levem-no para a Delegacia – disse o Chefe daquela corporação, ainda ao telefone.

E lá vamos nós para a Delegacia.

Chegando a esta e ao descer do carro, com dois policiais me escoltando e outro ficando no interior da viatura, eu avistei um telefone público na calçada.

– Antes de entrarmos, eu vou usar aquele telefone que é público e eu tenho o direito de defesa – disse aos policiais.

Um adentrou a Delegacia e o outro ficou me escoltando a certa distância. Tirei de minha bolsa a minha agenda de telefone e comecei a fazer ligações: secretarias de Comunicação Social, de Agricultura e da Justiça e Segurança Pública do Estado, esta, na época, secretariada pelo Desembargador aposentado por Goiás, Júlio Resplande, uma das grandes reservas morais de Goiás e Tocantins, e P2 da PM. Durante essas ligações ouvi o policial que estava “na minha cola” murmurar: “Porra!”. A todos esses órgãos públicos narrei o que estava acontecendo.

Poucos minutos depois, ouvi, pelo rádio da viatura, o Comandante da PM local chamar os policiais que estavam comigo de volta à sede do Batalhão. O policial que estava lá dentro saiu, falou algo com seu colega na calçada, adentraram a viatura e foram embora.

Logo, sai da Delegacia o titular desta.

– Quem é Antônio Oliveira aqui? – Perguntou.

– Sou eu! – Identifiquei-me, em voz.

– Pelo amor de Deus, seu Antônio, eu não tenho culpa do ocorrido. O Secretário (Júlio Resplande) me ligou e me disse cobras e lagartos. O senhor esta liberado – disse-me.

– Tudo bem. Mas, por favor, chame aqueles policiais, pois quero que eles me deixem de volta aonde me detiveram, fazendo-me passar por constrangimento – argumentei.

– Seu Antônio. Aqueles policiais perderam a parada e não seria confiável que eles o levassem de volta à cidade. Pense! – contra argumentou o Policial Civil.

– Então o senhor me leva, mas em carro caracterizado de Polícia Civil – propus.

– Não tem, agora.  Vou levar no meu e te deixo no local de onde você foi retirado – propôs.

E eu fui devolvido ao seio da gente boa de Formoso do Araguaia.

 

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