Na década de 1990, durante um período em que eu estava em Goiânia, trabalhando para o jornal Diário da Manhã, redigi, e publiquei, um artigo contra a permanência do Parque de Exposições Pedro Ludovico Teixeira, o chamado Parque da Pecuária, localizado no setor Nova Vila. Construído, muito pequeno, entre a década de 1940 e 1950, em terreno doado pelo grande pecuarista Altamiro de Moura Pacheco, fundador da Sociedade Goiana de Agricultura e Pecuária (SGPA), o parque foi ampliado na década de 1970, após a desapropriação de dezenas de quadras residenciais e comerciais daquele bairro, somando uma área total de 150 mil metros quadrados. Numa casa à 300 metros do parque, eu fui criado.

Vista área parcial do Parque de Nova  Vila (Foto: Divulgação/Google)
Vista área parcial do Parque de Nova
Vila (Foto: Divulgação/Google)

O problema é que a região no entorno da Nova Vila cresceu muito e está, na prática, na região central da capital goiana. Em épocas de exposições agropecuárias – a principal, realizada tradicionalmente no mês de maio, e as outras no decorrer do ano – é sempre um tumulto: trânsito tumultuado, estacionamentos não comportando a demanda, movimentação de milhares de pessoas, assaltos, poluição sonora e atmosférica – mal cheiro-, a proliferação de nuvens de moscas no entorno do parque. Moradores nas vizinhanças já vinham se movimentando há anos, reivindicando às autoridades estaduais e municipais a mudança do parque daquele local.

Após a publicação do artigo, fui procurado por um grupo de moradores da região, que veio me trazer mais reclamações, reivindicar o meu apoio. Deste encontro nasceu o “Movimento Pró-Mudança do Parque de Exposições de Nova Vila”.

Visitas à vereadores, sessão especial na Câmara  Municipal – onde me deram a tribuna da Casa para falar -, imprensa, realização de um seminário, solicitação de uma audiência com o então presidente da SGPA, o pecuarista Antenor Nogueira – que não nos recebeu. Enfim, foi uma luta ferrenha ao longo de 2 a 3 anos, e neste período um outro presidente nos recebeu, foi sensato e sensível ao problema e até ficou meu amigo.

Certo dia, fomos falar com o então secretário de Meio Ambiente do município de Goiânia. Tentar convencê-lo a exigir da SGPA providências para que animais não ficassem alojados no parque meses antes e depois da realização das feiras e até multando-a, como multa a outros.

Da antessala do gabinete do titular daquela pasta, ouvimos um fiscal falar para o secretário que em determinado bairro um morador estava com um criatório de galinhas e a vizinhança estava reclamando do mal cheiro. “Multa e apreenda as galinhas” – disse a autoridade ambiental de Goiânia. “Mas secretário, é uma família pobre, poderíamos amenizar” – respondeu o fiscal. “Multa e apreenda as aves. A lei é para todos” – sentenciou.

Nós, os integrantes do “Movimento Pró-Mudança do Parque de Exposições de Nova Vila”, ficamos animados, quase batemos palmas.

Tragédia em Minas Gerais é o resultado da falta de cumprimento de leis (Foto: Google)
Tragédia em Minas Gerais é o resultado da falta de cumprimento de leis (Foto: Google)

Mas, ao entrar e narrar os problemas para aquele secretário e cobrar providências, porque, afinal, “a lei é para todos”, como ele dissera para o fiscal minutos antes, a autoridade do meio ambiente de Goiânia foi muito claro e sincero conosco: “Ali é uma instituição muito poderosa – político e economicamente. Lamento muito, mas não podemos autuar a administradora do parque”.

Narrei esta história, que teve muitos outros capítulos – de vitórias e derrotas -, para mostrar como funciona as coisas no Brasil, inclusive com a Vale e suas mineradoras – e aqui não vai nenhuma condenação de viés ideológico contra a empresa, grande geradora de empregos, de renda, de divisas para o Brasil. Se no nosso país as leis fossem para todos e não houvessem a corrupção, as propinas, o poder econômico dando as cartas nos poderes Judiciário, Legislativo e Executivo, tragédias como as de Mariana e Brumadinho não teriam acontecidos.

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Voltando ao assunto do Parque de Exposições de Nova Vila. Entre concordância e discordância de diretores, presidentes e associados da SGPA e até de expositores de animais (maioria favorável a mudança), com a necessidade da mudança do parque, determinada diretoria concluiu pela mudança e a entidade ganhou do Governo de Goiás uma imensa área na zona rural da capital, não muito longe da cidade (nos fundos do Quartel do Exército, no Jardim Guanabara) e, mediante um projeto, recursos do Ministério do Turismo para a construção do parque, importante nicho turístico de Goiânia.

Mas, diretorias sucessoras bateram martelo que não saem daquele local.

Um parque de exposições agropecuárias no centro de uma grande cidade; megas empresas que subestimam leis, autoridades e imprensa, só mesmo em terras onde o poder econômico fala mais alto que as leis e as necessidades do povo.

Antônio Oliveira