SHARE
Fernando Silveira,novo presidente do Ruraltins (Foto: Lúcia Brito/Ruraltins)
Fernando Silveira,novo presidente do Ruraltins (Foto: Lúcia Brito/Ruraltins)

Por Antônio Oliveira

Com brilhante currículo acadêmico e no empreendedorismo, Fernando Silveira assumiu, nesta semana, a presidência do Instituto de Desenvolvimento Rural do Tocantins (Ruraltins), que, na atual gestão estadual, já estava há quase três meses sob a interinidade do atual secretário da Agricultura, Pecuária e Aquicultura, Cesar Halum.

Fernando Silveira é médico veterinário, com residência em Cirurgia e Clínica de Animais de Produção, pela Universidade de Medicina Veterinária de Ohio (The Ohio University, College of Veterinary Medicine), nos Estados Unidos da América.

Por 17 anos, foi professor concursado da Universidade Estadual de Ohio, nos EUA,  ocupando cargos de direção na instituição e foi ainda consultor da Secretaria da Agricultura de Ohio, participando da elaboração de projetos técnicos e científicos em países desenvolvidos e em desenvolvimento. No Brasil, Fernando Silveira foi fundador e sócio de uma empresa de agronegócios, no Tocantins. Na região de Rio Sono e Ponte Alta do Tocantins, ele exerce atividade como produtor rural. Na sua carreira profissional, ocupou cargo de veterinário-chefe na empresa, especializada em bovino de corte, Estância das Cascatas, com sede nos estados de Goiás e Mato Grosso.

O que a extensão rural no Tocantins ganharia com esta bagagem? Foi um dos questionamentos durante esta entrevista, concedida a este repórter no gabinete da presidência no Ruraltins.

A piscicultura entre os pequenos produtores é um dos seus focos.

Abaixo, a íntegra da entrevista.

Cerrado Rural Agronegócios (CRA) – Presidente, o senhor traz experiências da Academia e da iniciativa privada. No que isto pode contribuir para o pleno desenvolvimento da extensão rural no Tocantins?

Fernando Silveira – Os centros acadêmicos, as universidades, são centros de pesquisas, de geração de novas tecnologias e idéias. Eu entendo que a extensão rural é esta interface: entre a geração de tecnologias e novas idéias e processos, que nós levamos ao campo. Então, é o que eu trago – e eu já trabalho com esta parte acadêmica, levando esta tecnologia para o produtor. Eu acredito que, o que nós podemos é melhorar esta interface – produção de idéias, tecnologias, pensamento e levá-la direto ao homem do campo. Outra vantagem de se ter esta integração Academia x Extensão Rural, é que você também traz os problemas do campo, por meio da extensão rural, para os centros acadêmicos, para poder se ter soluções.

CRA – O senhor está encontrando, aqui no Ruraltins, uma equipe altamente qualificada. Pessoas até com Mestrado e Doutorado, que se dedicam à extensão rural, por meio de várias formações acadêmicas. Porém, é um pessoal que, em consequência dos últimos acontecimentos políticos no estado e a falta de recursos orçamentários que atendam a demanda do órgão, estão desmotivados. Como o senhor pretende enfrentar esta situação?

"Ruraltins tem um grupo muito bem capacitado focado na piscicultura (Foto: Ruraltins)
“Ruraltins tem um grupo muito bem capacitado focado na piscicultura (Foto: Ruraltins)

Fernando Silveira – Isto é um desafio na gestão pública na atualidade. Não tenho dúvidas de que todas as secretarias estão passando por dificuldades, assim como nós. Você falou muito bem: nós, realmente, temos um corpo técnico muito bom. Estamos representados em todos os municípios do estado – são 97 escritórios regionais. É uma estrutura grande. É um desafio? Sim. Nós pretendemos fazer uma avaliação de todas as nossas parcerias, assim como dos nossos convênios e ver o que nós podemos maximizar e ter disponível hoje. Este desafio, a gente sabe que ele vai perdurar por mais algum tempo. E eu acho que é hora de sermos criativos para podermos suplementar as perdas que vêm ocorrendo no decorrer desses últimos anos.

CRA – Qual seria a prioridade, neste atual momento do Ruraltins?

Fernando Silveira – O governador Carlesse foi bem claro para mim, durante minha entrevista com ele. Ele quer foco e assistência ao nosso pequeno produtor. Então, nosso foco continua sendo esse  produtor, a agricultura familiar. Nós temos uma opção e convênios que assistem também o médio produtor. Mas nosso principal foco continua sendo o pequeno produtor, proporcionando a ele condições de obter melhores rendas e que evolua na agricultura. A idéia não é só ensinar a pescar, mas que  o produtor passa a ter sua independência. Após o aprendizado e daí para frente passarmos para novas técnicas e tecnologias e não insistir na prática do assistencialismo.

CRA – Presidente, embora a agricultura familiar tenha uma grande responsabilidade no fornecimento de alimentos para a sociedade, ainda há muitos pequenos agricultores que trabalham de forma rudimentar, sem acesso a tecnologias e linhas de crédito. Como o senhor pretende trabalhar no esclarecimento e modernização desse pessoal?

Fernando Silveira – Muitas vezes, o desafio para este público, que você descreveu, que está trabalhando de forma rudimentar, é a parte documental. Nós vivemos sob uma burocracia muito grande que, às vezes, os impedimentos e os entraves não estão na transferência de tecnologia, de treinamentos que nós fazemos. Mas os entraves, estão na documentação do próprio imóvel, documentação em relação à licenças ambientais. Então, nós já assistimos os produtores nesta área. Assim nós, identificando um problema na parte burocrática, também estamos capacitando os nossos técnicos para resolverem essas questões burocráticas.

CRA – Há uma necessidade muito grande, na agricultura familiar no Tocantins, que é a agroindustrialização para a agregação de valor à pequena propriedade. Qual seria sua proposta para esta demanda?

Fernando Silveira – Integração de cadeias produtivas, mesmo do pequeno produtor, primeiro tem que ter produção para se agregar valor, no caso da industrialização de alguns produtos, seja ele de origem vegetal ou animal. Para você agregar valor tem que se ter a parte da indústria. Eu acredito que as parcerias com a indústria devem ocorrer no começo dos projetos, não depois. Porque, às vezes,  nós criamos demandas para a indústria, mas esta ainda não está na região. Vamos dar um exemplo: incentivos a produção de tomate na região X, mas se lá não existir uma esmagadora e processadora de tomate, a produção não vai prosperar. Eu acredito que esta conversa com a indústria tem que ser no começo do processo, ou seja, identificado o foco da região, seja por aptidão dos produtores ou por clima, trazer, primeiro, a indústria da cadeia que nós estamos fomentando, treinando e capacitando os atores envolvidos.

CRA – O Tocantins tem quatro cadeias produtivas com potencial de crescimento: piscicultura – principalmente -, avicultura, leite e, ainda, se arrastando, a suinocultura. Segundo observações de pesquisadores  da Embrapa Suínos e Aves, a região do MATOPIBA, principalmente o Maranhão e o Tocantins, tem potencial bem maior que regiões com tradição na cadeia de suínos e aves, como Goiás, Santa Catarina e Paraná. O senhor teria alguma proposta de desenvolvimento dessas cadeias entre os pequenos produtores, inclusive  pelo sistema de integração?

"Nosso foco é o pequeno agricultor", diz Fernando Silveira (Foto: Ruraltins)
“Nosso foco é o pequeno agricultor”, diz Fernando Silveira (Foto: Ruraltins)

Fernando Silveira – Essas são cadeias mais complexas. São cadeias que envolvem, na sua base, uma estrutura de investimento muito maior do que eu acredito que o pequeno agricultura esteja capaz no momento. A priori, não seria de interesse nosso se envolver nessas cadeias mais complexas, como a suinocultura e a avicultura, em função do porte. Numa segunda instância, elas caberiam no nosso segmento no médio produtor.

CRA – … e pelo sistema de integração/agregado?

Fernando Silveira – … Sem dúvida. A diferença é que neste sistema integrado, principalmente na suinocultura e avicultura modernas, a própria indústria integra, sendo parceira não só com a estrutura técnica, mas até com financiamento. Então, o setor privado já está bem organizado quando se trata da cadeia de suinocultura e da avicultura nos moldes mais modernos. Eu não vejo isto como um espaço em que nós podemos entrar tão cedo.

CRA – Quando a piscicultura?

Fernando Silveira – A piscicultura já é um setor interessante, mesmo porque o valor das instalações é acessível ao pequeno produtor, é viável. Nós estamos – como já disse, eu estou me inteirando dos projetos, mas é um dos nossos carros chefe, em termos de projeto. Nós temos alguns projetos – estou me inteirando do processo -, mas já temos alguns em andamento. Nós temos aqui dentro um grupo, muito bem qualificado, com foco na área de piscicultura. Eu tenho ouvido falar muito bem dele.

CRA – Presidente, para finalizar: entra presidente, sai presidente, e a construção da nova sede do Ruraltins, aqui ao lado, se arrasta. Qual a previsão que o senhor teria de conclusão desta obra, tão necessária para o órgão?

Fernando Silveira – Eu diria que a previsão é para logo. Eu assumi há um dia (21/06, ele foi nomeado e assumiu no dia 26/03), como você sabe, e não me reiterei ainda sobre a questão financeira para esta obra. Eu acho que é uma questão de tempo. Mas seria muito bem vindo.

 

 

NO COMMENTS

LEAVE A REPLY