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*Por Antônio Oliveira

– É verdade que a boa safra de soja e a maior oferta de crédito no mercado devem gerar mais negócios dentro da feira. Mas, independentemente da comercialização, a feira é hoje uma das maiores e mais bem organizadas do Brasil, sendo uma referência ao levar o que há de melhor em tecnologia agrícola para garantir maior produtividade e rentabilidade para os agricultores – estas palavras de otimismo quanto a edição deste ano da Bahia Farm Show é de Celestino Zanella, presidente da feira e da instituição que a promove, a Associação dos Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba), em entrevista exclusiva para Cerrado Rural Agronegócios (site e impresso).

O diferencial é a facilidade que o crédito deverá ser liberado, de forma ágil para que a compra seja finalizada ainda dentro da feira – disse ainda em relação a operacionalização das instituições de crédito e custeio durante a fera. É esperado negócios da ordem de R$ 1,5 bilhão.

– O sucesso da Bahia Farm está diretamente relacionado à união e busca pela eficiência dos agricultores no cuidado com a terra, com a sua produção e de todo o seu negócio – enfatizou em relação ao crescimento da feira desde quando ela deixou de ser Agrishow Luís Eduardo Magalhães (promovida pela Abimaq), para caminhar sozinha sob a responsabilidade da Aiba e parceiros.

Zanella fala ainda da responsabilidade social e ambiental dos agricultores do oeste baiano. Ele lembra que, ao contrário do que se fala nas cidades, a região ainda tem quase 70% de Cerrado preservado e os agricultores já investiram mais de R$4 mihões em projetos sociais.

Abaixo a íntegra da entrevista:

Celestino Zanella, presidente da Bahia Farm Show e da Aiba: "Boas perspectivas" (Foto: Heckel Junior)
Celestino Zanella, presidente da Bahia Farm Show e da Aiba: “Boas perspectivas” (Foto: Heckel Junior)

Cerrado Rural Agronegócios (CRA) –  Diante dos excelentes resultados da safra de grãos 2017/2018, em quase todo o Brasil, principalmente na região do MATOPIBA, qual a perspectiva que os coordenadores da Bahia Farm Show têm da feira, neste ano?

Celestino Zanella – É verdade que a boa safra de soja e a maior oferta de crédito no mercado devem gerar mais negócios dentro da feira. Mas, independentemente da comercialização, a feira é hoje uma das maiores e mais bem organizadas do Brasil, sendo uma referência ao levar o que há de melhor em tecnologia agrícola para garantir maior produtividade e rentabilidade para os agricultores.

“São os produtores os responsáveis pelo sucesso da Bahia Farm Show, e nesta edição, não será diferente”

 Os resultados no campo estão diretamente relacionados à busca constante de tecnologia, informação e conhecimento pelos produtores que vem elevando a produtividade ao investirem no solo, em fertilizantes, sementes e maquinário. Somos altamente tecnificados e mesmo nas épocas de crise de chuva ou financeira, não deixamos de investir em nossos negócios. São os produtores os responsáveis pelo sucesso da Bahia Farm Show, e nesta edição, não será diferente.

Cerrado Rural Agronegócios (CRA) – Qual é a previsão de público e negociações?

Celestino Zanella –  Estamos com a previsão que cerca de 75 mil pessoas possam conferir as novas tecnologias, principalmente da área de maquinário e aviação agrícola, que chamam a atenção de quem visita a Bahia Farm Show. Por causa das chuvas e dos produtores que fizeram a sua parte com maestria, este ano muitos deles devem continuar investindo visando a próxima safra, o que vai ajudar a chegar novamente à marca de R$ 1,5 bilhão em oportunidade de negócios. A feira já está consolidada.  Os agricultores já veem nela a melhor oportunidade para ter os melhores maquinários e implementos agrícolas. Tudo isto com os melhores preços e negociações oferecidos pelos mais de 200 expositores, juntamente com as facilidades em crédito, parcelamento e juros abaixo do mercado que serão levados pelas instituições financeiras durante os cinco dias de Bahia Farm Show.

Cerrado Rural Agronegócios (CRA)As linhas de crédito e condições oferecidas pelos bancos que vão estar operando na Feira são satisfatórias, podem atender as expectativas dos projetos de expansão de lavouras na região?

Celestino Zanella  Este ano, teremos novamente seis instituições financeiras públicas e privadas, que prometem levar as melhores linhas de financiamento e crédito agrícola principalmente para a aquisição de maquinário.  O diferencial é a facilidade que o crédito deverá ser liberado, de forma ágil para que a compra seja finalizada ainda dentro da feira. Estamos com um bom problema também, que é o gargalo logístico do armazenamento por conta da boa safra deste ano, e os bancos já estão se preparando para atender com crédito para apoiar os produtores para investimentos nestes projetos (armazéns e silos). Os agentes financeiros também se antecipam à feira e aproveitam para revisar e oferecer melhores condições para proporcionar os melhores investimentos dentro da Bahia Farm Show.

Cerrado Rural Agronegócios (CRA)Nem as crises políticas, econômicas e quebras de safra, barraram o crescimento da Bahia Farm Show. O que este fato pode dizer para os cenários nacional e internacional dos agronegócios, além de “nós fomos capazes de organizar uma feira tão boa e importante quanto a origem dela”?

Os produtores são resilientes, mas é preciso que se busque uma forma de melhorar a rentabilidade para que os agricultores possam investir ainda mais”

Celestino ZanellaO sucesso da Bahia Farm está diretamente relacionado à união e busca pela eficiência dos agricultores no cuidado com a terra, com a sua produção e de todo o seu negócio. Os produtores rurais são a mola propulsora do desenvolvimento socioeconômico do oeste da Bahia e a feira é o momento em que conseguimos traduzir essa relevância para as pessoas da cidade que nos visita. Os produtores são resilientes, mas é preciso que se busque uma forma de melhorar a rentabilidade para que os agricultores possam investir ainda mais. Isto é dificultado pelos entraves burocráticos, com a grande quantidade de licenças e outorgas nas mais diferentes esferas de fiscalização – Município, Estado e da União. Há também o excesso de tributação e da insegurança jurídica relacionadas à legislação fundiária, ambiental e trabalhista. Além de toda a conjuntura relacionada ao clima e as pragas, produzir no Brasil é um grande desafio por causa da burocracia que freia o desenvolvimento.

Cerrado Rural Agronegócios (CRA)O tema do Fórum do Canal Rural deste ano, dentro da feira, é sobre cultivo sustentável, ou seja, cultivar preservando o Cerrado. Uma polêmica que envolve produtores rurais, sobretudo irrigantes e os moradores da cidade. Isto, realmente, tem sido possível, a região está preservada?

Celestino Zanella –  Durante o Fórum do Canal Rural, que será transmitido ao vivo, será levado um tema que vai desmistificar que o produtor é contra o meio ambiente. Serão apresentados novos dados do Cadastro Ambiental Rural da Bahia, chamado de Cefir, que vai reforçar que as maiores faixas de floresta nativa preservada do Cerrado baiano estão dentro das áreas dos produtores rurais. Temos também um estudo da Embrapa Monitoramento por Satélite, que será apresentado pelo chefe-geral (desta unidade), Evaristo de Miranda, que também vai apresentar dados nacionais. Os últimos dados apontam que, 64% de toda a vegetação nativa do oeste da Bahia está preservada, ou seja, de um total de 11,6 milhões de terras, 3,6 milhões de hectares de vegetação nativa permanecem intocados, e outros 2,3 milhões de hectares estão em áreas de reserva legal. E, acreditamos que temos mais área de Cerrado nativo, caso sejam contabilizados também as áreas de preservação permanente. Neste sentido, mostramos a toda a sociedade que os produtores respeitam o Código Florestal e que estamos garantindo mais terras do que o necessário para a preservação ambiental da região.

“Somos altamente tecnificados e utilizamos técnicas como o plantio direto, com a cobertura da palhada para proteger o solo, e o uso racional da água para irrigação ao investir em sistemas modernos”

A Bahia Farm Show é a maior vitrine dos agros na Bahia e a 4ª maior do Brasil
A Bahia Farm Show é a maior vitrine dos agros na Bahia e a 4ª maior do Brasil

Cerrado Rural Agronegócios (CRA) –  Como os agricultores e irrigantes provam que exercem uma agricultura sustentável, que não são responsáveis por crises hídricas registradas nos últimos anos na região?

Celestino Zanella –  A produção de grãos é em sua essência sustentável. Somos altamente tecnificados e utilizamos técnicas como o plantio direto, com a cobertura da palhada para proteger o solo, e o uso racional da água para irrigação ao investir em sistemas modernos. Não é fácil como se pensa adquirir uma outorga para irrigação, demoram-se anos, e muitas vezes, há uma burocracia ineficiente na solicitação destes processos. Dentro da sustentabilidade, estamos trabalhando com o projeto Soja Plus, que também mostrará os resultados na Bahia Farm, durante o workshop, e que vem reforçando a adoção de critérios de sustentabilidade principalmente na segurança, treinamento e qualidade de vida dos colaboradores e também no respeito à questão ambiental. Já foi provado que a crise hídrica que a região sofreu está relacionada ao baixo índice de chuvas, e neste sentido, os nossos negócios foram os mais afetados. Como prova de que trata-se de um momento cíclico do clima – e não por causa de desmatamento ou da irrigação-, desde o ano passado, as chuvas estão voltando aos índices considerados normais para a região. De toda forma, nós, agricultores, estamos produzindo ciência, e estudando sobre o potencial hídrico da região, com uma parceria entre a Universidade de Nebraska, dos Estados Unidos, e da Universidade Federal de Viçosa. Até o momento, os resultados parciais mostram que não há impacto da agricultura no aqüífero da região, e que existe água suficiente para atender todos os usuários, incluindo os agricultores, por meio da irrigação.

Cerrado Rural Agronegócios (CRA)A região comemora muito super safras – produção e produtividade –, e diversificação de cultura. Mas, quase toda a produção é exportada, principalmente no caso do algodão, não agrega valor ao produtor e à sociedade regional, no que diz respeito a geração de empregos e renda. As agroindústrias, excetuando o esmagamento da soja, ainda são ausentes na região. Que caminhos o setor dos agronegócios, representado pela Aiba, estão tomando para reverter esta situação, industrializar o oeste?

Celestino Zanella –  Os produtores rurais e a Aiba vem fazendo a sua parte, ao cobrar as condições de logística na conservação de rodovias, energia elétrica e telefonia, e de incentivos fiscais, para que possamos aumentar a nossa capacidade de produção agrícola, e para que mais indústrias tenham condições de se instalarem na região. De toda forma, parte da nossa produção é destinada ao mercado interno, e outra parte para o externo, a depender das condições de mercado. No caso do algodão, por exemplo, parte da produção já é beneficiada na região, sendo parte da fibra destinada para as indústrias do nordeste brasileiro, e outra parte para os mercados asiáticos. O ideal, para todas as culturas, era que o produto saísse beneficiado, agregando mais emprego e renda para a região. Infelizmente, a região não oferece condições socioeconômicas, tributárias e de logística ideais para trazer mais indústrias para a região.

“Estas são ações que fazemos por entender que somos desta região e queremos que ela se desenvolva como um todo, não somente no aspecto econômico, mas também no social”

Cerrado Rural Agronegócios (CRA)Tanto a Aiba, quanto a Bahia Farm Show, têm procurado exercer função social na região. Como o senhor descreve essas ações e o porquê delas?

Anúncio_Mais Conhecimento_Nova Data-001Celestino Zanella –  A feira abre todos os anos espaço para o social, com o ingresso solidário. Pelo quinto ano seguido, é revertido um percentual do valor das entradas em benefício do Hospital do Oeste (HO). No último ano foram doados R$ 25.752,00 para a instituição, para a compra de 5 poltronas reclináveis, 22 biombos sanfonados e 2 cadeiras de banho e 10 mesas de cabeceira para o setor de emergências. Nos outros anos, já foram comprados, por exemplo, ar condicionados para o setor de pediatria.  Também temos o Fundesis, que em parceria com o Banco do Nordeste, já foram aplicados em 12 anos cerca de R$ 4 milhões dos agricultores que já apoiaram entidades sociais nos 14 municípios da região, a exemplo de creches, abrigos, projetos da área de educação, e incentivo à arte e cultura, dentre outros. Estas são ações que fazemos por entender que somos desta região e queremos que ela se desenvolva como um todo, não somente no aspecto econômico, mas também no social.

*Entrevista disponível também na versão impressa desta revista, edição deste mês.

 

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