Por Antônio Oliveira

O objetivo da revista Cerrado Rural Agronegócios, na sua versão virtual, foi o de ouvir, dos dois candidatos que concorrem, em segundo turno, o Governo do Tocantins, Vicentinho Alves e Mauro Carlesse, suas propostas para os agronegócios, inclusive a piscicultura, a avicultura, a suinocultura e a bacia leiteira do Estado e, assim, embasar os atores do segmento, que é a maior vocação econômica do Tocantins: o da produção de alimentos.

Convidamos todos os dois por meio de suas assessorias de imprensa e pelo mesmo canal que elas comunicam com a mídia, na transmissão de releases da campanha de seus candidatos. Estipulamos um prazo para confirmar a entrevista. Porém, apenas a assessoria de Mauro Carlesse acenou e aceitou a entrevista. Embora, os assessores de seu corrente, Vicentinho Alves, não se manifestaram dentro do prazo, sequer dando um retorno do convite, decidimos manter, para o Senador, o mesmo espaço concedido à Carlesse, embora nossa ideia preconcebida seria perguntas e respostas conjuntas. Vamos aguardar manifestação do candidato até a próxima sexta-feira.

Nesta entrevista, Mauro Carlesse fala não apenas dos agronegócios, mas de logística e de políticas públicas para o setor.

Sobre logística, ele levantou uma interessante proposta: tornar o rio Tocantins numa hidrovia sem ser preciso construir as eclusas. Loucura? Parece que não.

Para a piscicultura, ele defende a desburocratização do Estado a questão o licenciamento e do cultivo de tilápia.

Leia e conheça suas propostas:

Cerrado Rural Agronegócios (CRA) Qual a visão que o senhor tem do potencial do Tocantins para a produção de alimentos, fibras e biomassa?

Mauro Carlesse – Vejo o Tocantins com potencial para se tornar o líder na produção agropecuária no centro-norte e Nordeste do Brasil. E isso será possível aliando o uso de tecnologias às nossas características, como por exemplo ter 82% de solo plano, podendo ser altamente mecanizado, por causa do domínio que já temos da agricultura tropical. Temos um volume de água singular, tudo faz com que o Tocantins tenha o maior potencial agrícola. Agora é preciso desburocratizar a parte ambiental, simplificar a questão tributária agrícola para que incentive a industrialização no Estado e não a exportação da produção in natura. Junto a isso, precisamos ter investimentos em infraestrutura e logística alinhado com a demanda do agronegócio.

“A nossa expectativa é que assim que tiver essa liberação – da tilápia -, partiremos para aprovação também pelo Coema, para que possa iniciar essa criação em tanque rede”

CRA – O Tocantins, a cada safra, vem se destacando pelo aumento da produção, área plantada e produtividade nos cultivos da soja e do milho. Entretanto, quase que 100% da produção é exportada, deixando de agregar valor à produção e geração de empregos e rendas por meio das agroindústrias. Qual seria a sua proposta para começar a reverter esta realidade?

Mauro Carlesse – Primeiro é fortalecer as cadeias da bovinocultura, piscicultura, suinocultura e avicultura em sistemas de confinamento visando agregar valor à agricultura. Vamos transformar aqui o grão (proteína vegetal) em proteína animal. Ou seja, incentivando a integração das cadeias produtivas e agregando valor. Após essa etapa a ideia é oferecer atrativos para investidores que se instalarão no Estado, para processar essa produção nos parques agroindustriais. O Tocantins tem condições de se tornar líder na produção agropecuária na região centro-norte do Brasil. Aliado a uma política fiscal que privilegie a industrialização dentro do Estado, oferecendo ao empreendedor segurança jurídica e uma infraestrutura logística que atenda suas necessidades.

CRA  – Tocantins ainda dá seus primeiros passos em certas culturas como a cotonicultura e silvicultura. Porém, faltam investimentos em pesquisas que validem variedades para as condições edafoclimaticas do Estado e políticas públicas de incentivo. O que o senhor propõem?

Mauro Carlesse, governador em exercício e candidato a permanecer no cargo (Foto: Assessoria)
Mauro Carlesse, governador em exercício e candidato a permanecer no cargo (Foto: Assessoria)

Mauro Carlesse – Entendo que precisamos reforçar e destacar a importância da extensão rural para implantação dessas tecnologias diretamente ao produtor. As pesquisas estão acontecendo tanto por parte da Embrapa como na parte das Universidades em seus cursos voltados ao agronegócio. Inclusive, dentro do centro tecnológico que abriga a Agrotins, o curso de Engenharia Agronômica realiza pesquisas em parceria com Ruraltins e Adapec e a própria Secretaria da Agricultura. Essas tecnologias demandam tempo de desenvolvimento e necessitam estar adequadas à realidade do produtor, para que possa agregar renda e levar dignidade às pessoas que estão na atividade.

O Tocantins será parceiro dos produtores. Essa é a principal vocação do nosso Estado, ser grande no agronegócio e na agroindústria

CRA Questão da logística. Embora o Tocantins tenha um eficiente bimodal – rodovias e ferrovia – o sistema ainda deixa muito a desejar por vários fatores –  da estrutura a falta de políticas públicas para melhorar e enriquecer o sistema com mais um modal, a hidrovia, e melhoria da malha viária estadual e vicinal. Qual seria a sua proposta?

Mauro Carlesse – Em primeiro lugar é proporcionar ao produtor o acesso à Ferrovia Norte-Sul, para que ele possa negociar diretamente com as empresas que controlam os agentes logísticos. E Isso vai demandar uma articulação política junto à Valec, concessionária da ferrovia, e junto ao Governo Federal. Hoje a Ferrovia Norte-Sul não atende as necessidades dos produtores.

Em relação às rodovias é preciso que o Governo faça os investimentos necessários para, nas regiões produtivas, adequá-las ao tráfego pesado. Isso precisa ser pensado desde a construção da rodovia. E as TOs que já estão prontas precisam ser adequadas a essa realidade. Dentre as nossas prioridades, está a busca de recursos alinhados à demanda da cadeia produtiva na questão da infraestrutura. Incluindo também as estradas vicinais utilizadas no escoamento da safra e na construção de pontes que suportem a passagem das máquinas e carretas. E também é preciso urgente a duplicação da Belém-Brasília, o asfaltamento BR-010, a conclusão da BR-242 ligando o Tocantins à Bahia e ao Mato Grosso, a liberação para a construção da TO-500, e ainda as pontes ligando o Tocantins ao Maranhão, Pará e Mato Grosso.

Na questão da Hidrovia, é possível encontrar uma solução mais barata do que fazer uma eclusa, como a necessária na Usina de Lajeado. Por exemplo, o uso de guindastes para o transbordo de contêiner, assim como é feito nos Estados Unidos e na Europa. Desta forma, não seria necessária uma obra cara em um momento que recursos são escassos. Vamos discutir essa alternativa e tentar viabilizá-la.

CR – Tributação e falta de uma eficiente política pública de incentivos aos produtores já instalados no Estado e fomento a novos investimentos – eis duas das grandes demandas dos setores produtivos agropecuários do Estado. Sua proposta?

Mauro Carlesse – Eu vejo que o principal entrave enfrentado pelo produtor para se instalar e se manter no Estado é a burocracia. Principalmente na questão ambiental. Eu mesmo que sou agropecuarista já enfrentei esse problema. Temos que implantar uma política de Estado que privilegie o investimento. O Estado precisa entender a importância do desenvolvimento e superar essas barreiras que acabam espantando os investidores que querem se instalar aqui. Hoje, no Tocantins um licenciamento ambiental pode demorar de dois a três anos, o que inviabiliza qualquer investimento aqui, pois nos estados vizinhos esse tempo é bem menor e o produtor já começa a ver o retorno de seu investimento de maneira mais ágil. Resolvendo esse problema, que na minha opinião, é hoje o principal entrave e aliado às propostas que eu já elenquei, creio que teremos condições competitivas de fomento e fortalecimento ao agronegócio no Estado.

“Na questão da Hidrovia, é possível encontrar uma solução mais barata do que fazer uma eclusa, como a necessária na Usina de Lajeado”

CRA – Além da produção de grãos, que vem crescendo muito no estado, Tocantins tem um potencial muito grande para a produção de pescados, aves e suínos, tendo como vantagem, inclusive, a imensa produção de matéria-prima para a produção de ração animal produzida aqui, que são a soja e o milho. Entretanto, nestes setores, também, faltam políticas públicas definidas. O setor de avicultura vive uma crise que fechou portas de frigorífico e avicultores agregados;  a piscicultura, com capacidade para produzir 800 mil toneladas/ano de peixes, ainda é emperrada – produz apenas menos que 15 mil toneladas-, principalmente por não permitir o cultivo do peixe de maior liquidez e consumo no Brasil e no mundo, a tilápia. Este processo, de liberação da espécie, vem se arrastando ao longo de dois anos e depois de aprovada pelo Coema, a Resolução ainda traz barreiras que que vão dificultar a tilapicultura no Tocantins, que pode render a este, anualmente, R$ 1,2 bilhão. E aí, o que o senhor propõe?

Mauro Carlesse – Primeiro a tilápia só é proibida no leito dos rios em tanque rede, mas em tanque escavado e bag não. Tanto que os dois maiores projetos de pescado já produzem tilápia em tanques escavados e bags.

A aprovação da criação da tilápia em tanque rede nos lagos das UHEs está em fase final de aprovação por parte do Ibama e a nossa expectativa é que assim que tiver essa liberação, partiremos para aprovação também pelo Coema, para que possa iniciar essa criação em tanque rede. Inclusive a nossa gestão já realizou contatos com investidores do setor, que sabem do potencial e estão interessados em se instalar no Tocantins.

Em relação a avicultura, o problema é que os produtores fizeram investimento para a produção das aves, se tecnificaram, mas a indústria não acompanhou essa evolução e passou a ser o gargalo dessa cadeia. No entanto, existem grandes cooperativas interessadas em se instalar no Tocantins devido à grande produção de milho e para aproveitar o potencial produtivo no Estado, além do mercado consumidor tocantinense e estados vizinhos, que tem cerca de 20 milhões de pessoas para consumir. O que falta são as condições necessárias que já citei. Primeiro a estabilidade, a segurança jurídica, a redução da burocracia, incentivos fiscais, a integração das cadeias produtivas, investimento em infraestrutura logística. Tudo isso será uma prova que o Governo quer incentivar a produção e o desenvolvimento do Estado. O Tocantins será parceiro dos produtores. Essa é a principal vocação do nosso Estado, ser grande no agronegócio e na agroindústria. E como um investidor desse setor, entendo bem o que o produtor que já está aqui tem passado. E vencendo as eleições, vamos implantar uma política permanente e vamos mudar pra melhor a realidade do Tocantins.