Entrevista teve três perguntas censuradas

 

Entretanto, para 2016, Júlio Busato evidencia que será preciso muita cautela, em virtude da crise econômica que o Brasil está enfrentando. “Além disto, temos o evento climático “El Ninho” se manifestando com grande intensidade, o que deve reduzir consideravelmente a incidência de chuvas para a região, com a presença de veranicos”. Contudo Júlio Busato, nesta entrevista feita por e-mail, ameniza a situação. “Contudo, os produtores estão confiantes em seu trabalho e nas tecnologias empregadas. Foram feitos alguns ajustes nas culturas plantadas, com aumento da área de soja e redução nas áreas de algodão e milho, por causa dos seus altos custos de produção; ocorreram alguns replantios na ordem de 5 a 8% da área – fato que não deverá afetar a produção”.

A entrevista foi marcada por um lance inesperado e inadmissível: a censura às três perguntas feitas por Cerrado Rural – duas delas em relação as denúncias feitas contra a sua gestão por um ex-Presidente e um ex-Diretor-Executivo da Associação.

Boa leitura.

presidente da aiba
Júlio Busato, presidente da Aiba (Foto: Rui Rezende)

Por Antônio Oliveira 

Cerrado Rural Agronegócio (CRA) Presidente, qual o balanço que o senhor faz do ano de 2015 para os setores produtivos rurais do oeste da Bahia?

Júlio Busato – Eu diria que o ano agrícola de 2015 foi um ano que entrará em nossa história como um ano de regular para bom. Tivemos uma perda na produtividade média das lavouras, em função de adversidade climáticas, mas que foram amenizadas pela tecnologia utilizada pelos agricultores, principalmente na fertilização e melhoria dos solos de Cerrado, através de rotação de culturas, plantio direto e plantio na palha, além de outras tecnologias que vêm melhorando constantemente o nível de matéria orgânica do solo, garantindo assim um bom nível de produtividade. Quanto aos preços das commodities, eles foram relativamente bons, principalmente a soja e o algodão que tiveram janelas de comercialização com bons preços e que foram aproveitadas por muitos produtores, melhorando assim a sua renda.

CRA –  Que perspectivas o senhor tem do próximo ano para esses setores?

Júlio Busato – 2016 não será um ano fácil para o setor. Iniciamos com uma deficiência de crédito para a agricultura, tanto nos bancos privados como nos públicos, em decorrência da instabilidade política e econômica, bem como pelo descasamento do dólar com o real em um curto período de tempo, impactando assim nos custos de produção das lavouras, já que a maioria dos insumos tem seus preços dolarizados. Além disto, temos o evento climático “El Ninho” se manifestando com grande intensidade, o que deve reduzir consideravelmente a incidência de chuvas para a região, com a presença de veranicos. Contudo, os produtores estão confiantes em seu trabalho e nas tecnologias empregadas. Foram feitos alguns ajustes nas culturas plantadas, com aumento da área de soja e redução nas áreas de algodão e milho, por causa dos seus altos custos de produção; ocorreram alguns replantios na ordem de 5 a 8% da área – fato que não deverá afetar a produção. As lavouras já estão formadas e acreditamos que ainda podemos obter boas produtividades, principalmente nas lavouras de algodão, já que com 700 mm de chuvas pode se obter excelentes produtividades. O que precisamos é que as chuvas sejam bem distribuídas ao longo do período safra.

CRA – Estamos vivendo uma crise política e econômica no Brasil, que deve persistir durante 2016. Qual é a estratégia da Aiba para enfrentar este período?

Júlio Busato – A estratégia da diretoria eleita da Aiba é a de manter os produtores unidos através de suas associações e sindicatos, pois somente assim teremos a oportunidade de nos organizarmos e sermos ouvidos pelos nossos governantes, seja na esfera federal, estadual ou municipal. Neste sentido, há três anos consecutivos, realizamos reuniões nas comunidades, com a participação dos presidentes da Aiba, Júlio Cézar Busato, Odacil Ranzi e Isabel da Cunha. O intuito de levar informação aos associados sobre os projetos e atuações da Aiba, mostrando a eles a importância e a necessidade da participação deles para o nosso fortalecimento enquanto entidade representativa. Hoje, já somos cerca de 1.380 associados.

CRA – Se bem que,  o governo e alguns analistas de economia, acreditam que o agronegócio será o único setor da economia brasileira que não será afetada por essa crise, crescendo até a média de 2%. Qual o seu ponto de vista em relação a isto?

IMG_6939Júlio Busato – Em minha opinião, a maioria dos setores será afetada pela crise, inclusive o agronegócio. Não somos uma ilha e já estamos sentindo com a dificuldade de crédito e a variação excessiva do dólar, pois temos um reajuste natural principalmente na soja e no algodão que podem ser contratados na moeda norte-americana, mas variações abruptas na maioria das vezes são prejudiciais para o setor. Apesar disso, deveremos continuar tendo crescimento, já que dispomos de tecnologias e novas áreas a serem incorporados ao sistema produtivo, principalmente nas áreas do cerrado de Matopiba. Nossa preocupação hoje não é com o crescimento, mas sim com o ganho do produtor que vem diminuindo ao longo do tempo, sendo que, no cenário nacional, o produtor do oeste baiano é hoje o que mais investe na lavoura, o que mais colhe por unidade de área e o que menos ganha por esta mesma unidade de área. Precisamos mudar esta equação e isto terá que passar por redução de taxas, impostos, melhorias em logística e transporte, principalmente para que se reduzam os custos de produção e aumentem a renda do produtor, seja ele de grande, médio ou pequeno porte.

 CRA – No âmbito governamental, o senhor acredita que a presidente Dilma tem feito “o dever de casa” em relação aos setores produtivos rurais no Brasil?

Júlio Busato – Esta é uma pergunta difícil de responder. Eu diria que a presidenta Dilma foi muito feliz quando escolheu para ministra da Agricultura a senadora Katia Abreu, que tem feito um excelente trabalho à frente do MAPA, principalmente na modernização do Ministério, abertura de mercados,  na interlocução dos produtores junto a outros ministérios e com a própria Presidente de forma simples e direta, já que ela possui experiência no setor e com certeza está contribuindo e poderá contribuir muito mais com a agricultura brasileira para os próximos anos.

CRA – Em relação ao governo  da Bahia. Entra safra, sai safra, e este se mantém de forma superficial às necessidades dos setores produtivos do Cerrado baiano, principalmente em relação à infraestrutura, o que faz com que os próprios produtores, por meio de suas associações de classe, como Aiba e Abapa, invistam altas somas em dinheiro para manter estradas. Que estratégia as lideranças do agro no oeste da Bahia teriam para fazer com que o governo baiano esteja mais presente?

Júlio Busato – A Aiba tem sido a grande interlocutora dos agricultores do oeste baiano com o Governo do Estado. Ao longo dos 25 anos de sua existência foram criadas pontes entre a Associação e o Governo da Bahia que deram excelentes resultados, como exemplo disto eu citaria o Fundeagro e o Prodeagro que são fundos criados em parceria com o governo do estado e que serão os grandes promotores de desenvolvimento e melhorias, principalmente em infraestrutura de transporte e logística para a região no futuro.

A Aiba tem participado de várias audiências com o governador Rui Costa, com o vice-governador João Leão, com os secretários da Sefaz, Seinfra, Seagri, Sema, Seplan, SDE e SSP para tratar dos mais diversos assuntos, desde estradas, energia elétrica, até segurança no campo. E nestas audiências ficou muito claro que o Governo do Estado tem consciência da importância e das necessidades do oeste baiano, mas, infelizmente, a sua situação financeira, assim como a da maioria dos estados brasileiros, não está muito bem, o que tem impossibilitado o governo de fazer maiores investimentos na região.

Precisamos também ter a consciência que o agronegócio, da forma como é hoje, teve seu inicio há pouco mais de 30 anos, que o desenvolvimento foi de forma muito acelerada e os governos não conseguiram acompanhar este crescimento com a infraestrutura necessária. Para se ter uma ideia, temos mapeada na associação mais de 7.000 (sete mil) quilômetros de estradas no Oeste, muitas delas em estado precários e que demandam uma quantidade enorme de recursos para suas melhorias.

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Júlio Busato em trabalho itinerante da Aiba: esclarecimentos aos associados.

Chegamos à conclusão de que o mais caro para o agricultor é não ter uma estrada em condições de escoar sua produção. Por isso, as associações, principalmente Aiba e Abapa, fizeram parcerias com os governos municipal e estadual e estamos ajudando a resolver os problemas mais sérios da região. A expectativa é que continuemos neste caminho, pois entendemos que esta é a melhor forma de mudarmos a situação que hoje se apresenta tanto nas questões de infraestrutura, como ambientais, sociais e de segurança no campo.

Quero aqui parabenizar as diretorias da Abapa e ao presidente Celestino Zanela por terem criado e dado continuidade ao projeto da patrulha mecanizada, que juntamente com as prefeituras e os agricultores já estão chegando a 500 km de estradas construídas e melhoradas. Tenho certeza de que juntos faremos ainda mais no futuro.

CRA – Até que ponto a Agência Matopiba pode contribuir para a melhoria das condições da produção agropecuária, do agronegócio e dos impactos sociais destes nas cidades? 

Júlio Busato – A Agência poderá auxiliar muito para as melhorias, principalmente no que diz respeito à infraestrutura e à qualidade da vida das pessoas. A Embrapa divulgou um trabalho excelente onde mostra de forma bem clara uma radiografia da região do Matopiba e eles são alarmantes, temos sérios problemas fundiários, de educação, saúde, renda da população e IDH, sendo os piores índices do Brasil.

Temos bolsões de riquezas, mas a grande maioria da região é pobre e pouco desenvolvida e a agência terá condições de apresentar os problemas específicos de cada micro região e auxiliar na busca de soluções para melhorar a qualidade de vida das populações presentes no Matopiba.

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Censura

Cerrado Rural fez ainda as seguintes perguntas ao presidente Júlio Busato:

 – As divergências, com ataques e denúncias contra sua gestão, por parte de duas grandes lideranças rurais no oeste, estão superadas?

– O que realmente aconteceu?

– Por fim, no contexto de sustentabilidade social, ou seja, na relação setores produtivos x sociedade, qual o balanço que a Aiba faz deste ano que se finda?

Esta entrevista foi feita por e-mail – perguntas elaboradas -, uma forma que nossa redação evita muito por acha-la muito “fria”, mas que, às vezes, diante de circunstâncias como tempo e distância entre entrevistador e entrevistado, como neste caso, é inevitável.

As perguntas foram repassadas ao presidente Júlio Busato por meio da Assessoria de Comunicação da Aiba (Ascom). Quando recebemos as perguntas respondidas, para nossa surpresa e indignação do espírito de jornalismo, notamos que estas três últimas perguntas foram cortadas, não se sabe pelo entrevistado, ou pela Ascom. Como justificativa da censura, a Ascom observou no seu e-mail de envio do conteúdo: “Algumas perguntas nós retiramos da pauta, por não mais falar sobre o assunto. A maioria foi mantida, como pode conferir.”

Contestada por nós sobre o ato antiético e de censura, a Ascom replicou que “Neste caso, relembre que a associação não pode comentar esses fatos devido ao seu estatuto que rege que assuntos internos da Aiba, como este, deve ser tratado apenas com seus associados”.

Em relação a pergunta sobre sustentabilidade social e ambiental, a Ascom não respondeu o motivo do Presidente não a ter respondido.

Nós retrucamos que respeitamos esse direito do Presidente em não tocar no assunto, que que agisse de outra forma, como o “nada declarar”, e não cortando pauta de um veículo ao seu bel prazer.

Nova alegação é enviada pela Ascom, se colocando a disposição de Cerrado Rural mas se reservando no direito a não responder àquelas duas polêmicas perguntas e outros argumentos que preferimos não publicar e nem dar mais abertura para a continuidade da polêmica.

Cerrado Rural entende que a Aiba é uma instituição privada e que tem no seu estatuto uma cláusula que proíbe seus diretores discutir publicamente problemas internos. Mas entende também que a instituição, por seus relevantes serviços prestados não só aos seus associados, mas à toda a sociedade, tornando-se, desta forma, figura pública, alvo das atenções da sociedade como um todo e, mais, é uma instituição que trabalha, em forma de convênios e/ou repasses de poderes públicos, como Estado e União. Por outro lado se o Estatuto faz tal proibição, por que dois de seus mais atuantes e zelosos Executivos, levaram isto à público? Causou-nos estranheza esta atitude, principalmente levando-se em conta que o senhor Júlio Busato sempre se mostrou ser um líder aberto ao diálogo, um democrata, principalmente na sua relação institucional com a imprensa. Fato que ficou notório após a “explosão” das denúncias contra a sua gestão, momento em que ele sofreu um bombardeio dos veículos regionais e estaduais – uns de forma ética, outros de forma “marronsista” – mas que não retaliou, não se voltou contra a quem quer que seja, recebendo-os bem no órgão que dirige. E nem estamos, com nossas matérias e artigos já publicads sobre o caso, fazendo acusação ao Sr. Busato, a qualquer um de seus diretores. Mas, tão somente, como imprensa, atrás de esclarecimento de um fato que foi denunciado. Desvio de recursos? Erros administrativos? Manipulação com interesses pessoais, políticos e de grupos adversários ao senhor Júlio? A sociedade não sabe e precisa saber.

Cerrado Rural esclarece ainda que, ao tentar trazer à luz o problema que surgiu há meses, o faz levado pelo espírito de um jornalismo imparcial e comprometido com todo o processo de desenvolvimento social e econômico das sociedades nas quais tem atuação, não estando – neste foco – motivado por quaisquer outro interesse.

Cerrado Rural, tanto seu site, quanto sua versão impressa continua a disposição tanto da atual diretoria, quanto das anteriores – uma das quais quem detonou a denúncia em questão -, para, quando acharem necessário, esclarecer a sociedade o que há de verdade ou inverdade nas acusações dos senhores Horita e Pitt.

Cerrado Rural renova o seu mais profundo respeito pelo trabalho da instituição, a longo de seus mais de 25 anos projetando o oeste da Bahia no cenário nacional e internacional do agronegócio.

(Antônio Oliveira)

Leia sobre o caso que gerou esta censura:

http://cerradoeditora.com.br/cerrado/aiba-socios-se-afastam-da-associacao-e-apontam-irregularidades-e-indicios-de-falencia-na-instituicao/

http://cerradoeditora.com.br/cerrado/caso-aiba-que-a-atual-diretoria-se-explique-e-renuncie-de-seus-cargos-para-o-bem-da-instituicao/

http://cerradoeditora.com.br/cerrado/aiba-busato-emite-nota-de-esclarecimento-e-nega-envolvimento-politico-partidario/

http://cerradoeditora.com.br/cerrado/aiba-denuncias-podem-se-acabar-em-pizza/

http://cerradoeditora.com.br/cerrado/caso-aiba-instituicao-seria-alvo-de-uma-disputa-por-um-trampolim-para-o-poder/