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Ridoval Chiaroloto, secretário de Indústria, Comércio e Serviço do Tocantins (foto: Antônio Oliveira/Cerrado Rural Agronegócios)
Ridoval Chiaroloto, secretário de Indústria, Comércio e Serviço do Tocantins (foto: Antônio Oliveira/Cerrado Rural Agronegócios)

Por Antônio Oliveira

A pasta da Indústria, Comércio e Serviços do Tocantins – ex-secretaria do Desenvolvimento Econômico, Ciências, Tecnologias, Turismo e Cultura -, nestes 30 anos de existência do estado, já foi dirigida por técnicos e empresários bem sucedidos, o que lhe deu a vantagem de uma melhor visão da política de desenvolvimento econômico, não obstante, como é praxe na administração pública, a política partidária a travar de uma forma ou de outra, além da falta de orçamento a altura das suas demandas.

Neste início de novo governo, o governador Mauro Carlesse foi buscar, em Goiás, um executivo bem sucedido na iniciativa privada e nos governos municipal de Anápolis, o maior polo industrial daquele estado, e no governo deste.

Ridoval Chiaroloto chega à secretaria de olho no futuro e, ainda conforme ele, sem olhar para retrovisor. “Eu me abstenho de falar sobre o passado, porque seria injusto, por eu não ter o conhecimento de qualquer outro governador que passou pelo Tocantins. Eu acredito que todos que passaram deixaram alguma coisa para o estado, deixaram uma marca. Eu estou pensando é de agora para a frente com minha equipe”, disse ele, nesta entrevista concedida a mim no início da  semana passada.

Por enquanto, conforme ele, o Tocantins não pode pensar a indústria de ponta (bens de consumo, automotiva, tecnologias, por exemplo), sem antes investir na agroindústria de suas principais vocações econômicas: a piscicultura e as commodities de grãos, carnes e minérios.

Para chegar aos seus objetivos, ele disse que está procurando conhecer as bases: estrutura da secretaria, e o que há de indústria e seus problemas no estado. Nesta entrevista, ele destacou algumas coisas que ele considera fundamentais para o desenvolvimento do Tocantins.

Chiaroloto foi presidente da Agência Goiana Regulação, Controle e Fiscalização de Serviços Públicos  de Goiás (AGR) do último governo Marconi Perilo (PSDB); teve papel fundamental na industrialização de Goiás nas últimas décadas; é empresário em Anápolis, desde 1973. Neste município, assumiu a Secretaria de Desenvolvimento Econômico. Também foi secretário de Indústria e Comércio da cidade de Anápolis entre 2003 e 2008; presidente por dois mandatos na Federação das Associações Comerciais, Industriais e Agropecuárias do Estado de Goiás (Facieg); presidente por quatro mandatos na Associação Comercial e Industrial de Anápolis (Acia) e presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Anápolis.

Abaixo, a íntegra da entrevista.

Cerrado Rural Agronegócios (CRA) – Secretário, o senhor vem de uma considerável experiência na iniciativa privada e no poder público do estado de Goiás. De que forma o senhor pretende transferir esta experiência para o Tocantins, um estado novo?

Ridoval Chiareloto – Bom, primeiro eu estou procurando conhecer o Tocantins e como funciona esta secretaria. A velhice serve para isto: ter conhecimento e aproveitá-lo para transmitir aquilo que você aprendeu no decorrer dos anos junto com sua equipe. Não se faz nada só, em nenhuma iniciativa. Eu fui, durante muito tempo, presidente de entidades de classe. E tudo isto é feito com equipe. Se você tem uma equipe que funciona de acordo, você vai ter sucesso e o governo vai ter sucesso. Eu aprendi muito, apanhei muito para aos meus 74 anos com este conhecimento. Eu espero que eu tenha sucesso aqui também. Se a equipe for boa, se trabalharmos muito, acredito que dá para atrair diversos investidores para o estado do Tocantins. Este oferece todas as condições para o crescimento, para a industrialização, principalmente nas commodities, que são grãos, carne e minérios. Em cima disto que eu vou trabalhar. Eu fiquei 7 anos na Secretaria de Indústria e Comércio do estado de Goiás, trabalhando com uma equipe muito boa. Lá era um pouco diferenciado, em relação ao Tocantins, porque lá se trabalha muito em cima de indústrias de porte fino, que são os laboratórios, e também na indústria automobilística e outras que são das áreas de alimentação, de álcool e açúcar. Agora, aqui, eu estou levantando o perfil do estado. Vou fazer, inclusive, uma visita a todos os prefeitos os seus prefeitos; vou fazer um trabalho lá no Bico do Papagaio, onde uma indústria está necessitando de apoio, que é uma indústria de ovos. Quero conhecer também o Porto de Praia Norte, que acho ser um dos melhores projetos para o Tocantins, para o Brasil e para o sul do país. Eu acho que tem muita coisa para fazer. Vou ter que trabalhar muito. Sempre falo o seguinte – e falava isto para meu amigo e ex-governador de Goiás, Henrique Santillo (ex-senador também, falecido): ‘Não se tem a indústria no bolso’. Você tem que mostrar o que o estado oferece, principalmente o Tocantins que tem um dos melhores incentivos fiscais que eu conheço. Eu viajei quase todos os estados, conhecendo suas políticas de incentivo, e vejo que o Tocantins e seus benefícios têm que ser divulgado Brasil, mundo a fora. E, aí, vou fazer este trabalho juntamente com os prefeitos e deputados. O governador Mauro Carlesse demonstra uma vontade muito grande de industrializar o estado e ele está tomando os primeiros passos. Eu recebi este convite, que muito me honrou. Eu ainda tinha mandato no governo de Goiás, que venceria agora em abril, porque eu era presidente de uma agência (Agência de Regulação). Eu saí em novembro, porque iria cuidar de meus negócios. E receber este convite do Tocantins, para mim foi um desafio.

O novo secretário quer focar na indústria de transformação de grãos... (Foto: Divulgação)
O novo secretário quer focar na indústria de transformação de grãos… (Foto: Divulgação)

CRA– O senhor falou em equipe boa. Esta secretaria tem, sim, uma equipe muito boa. Há, no contexto do desenvolvimento econômico do Tocantins – Agricultura, Indústria, Comercio e Serviços  e correlatas -, técnicos altamente capacitados. Porém, desmotivados em consequência das reviravoltas políticas no estado nos últimos anos, resultando em dificuldades em investimento neles e no trabalho que desenvolvem. Como o senhor analisa esta situação e o que pretende fazer para motivar este pessoal?

“A prioridade é uma só: atração de investimentos para desenvolver o estado. Ajudar a aumentar a arrecadação com novos empreendimentos”

Ridoval Chiareloto – Eu acho que cada governo tem suas peculiaridades, cada governador tem um pensamento. Eu me abstenho de falar sobre o passado, porque seria injusto, por eu não ter o conhecimento de qualquer outro governador que passou pelo Tocantins. Eu acredito que todos que passaram deixaram alguma coisa para o estado, deixaram uma marca. Eu estou pensando é de agora para a frente com minha equipe. Eu acho que a motivação quem faz, primeiro é o governador; segundo é o secretário e sua equipe. Eu penso fazer a motivação. Nós temos grandes valores aqui dentro, que conhece as potencialidades do estado e por onde agir para atrair investimentos – o Wilmar, o Paulo – entre outros. A equipe dependerá muito de mim: se eu for um cara entusiasmado e que queira fazer alguma coisa e eles não notarem, eu vou ter que puxá-los. Este é o meu sistema de trabalho. Quando eu cheguei na secretaria (similar) do estado de Goiás, foi deste mesmo jeito. E do mesmo jeito que eu trabalhei lá, eu tenho que trabalhar aqui. Eu não vou inventar nada, além daquilo que a equipe pode fazer. Tenho muito conhecimento que com o empresariado, principalmente, de São Paulo. Eu tinha um escritório em São Paulo, onde eu fazia reunião com os empresários e  mostrava o que o estado de Goiás poderia oferecer à eles. Espero que o estado do Tocantins faça a mesma coisa.  Vamos ter que oferecer os incentivos, as condições, os terrenos. Mas eu acho que, principalmente, o estado do Tocantins é (tem vocação para) agroindústria e é nesta que temos que focar primeiramente, para depois tentar atrair indústrias de ponta, de tecnologias. Mas a gente não pode descartar nada. Eu acho que a gente tem que trabalhar nas cadeias produtivas, principalmente do microempresário que é onde há a  geração de empregos. Por isto que acho que um polo de confecção cabe muito no Tocantins. Por que? Não se justifica que pessoas do norte do Pará, do Maranhão (entre outros estados do Norte e Nordeste) passem por aqui e vão fazer compra em Jaraguá, em Taquaral, Itauçu, que são polos de langerie. Eu acho que devemos tem um polo de confecção no Tocantins. Mas, como é que faz? É financiando o pequeno e o médio empresário com máquinas de costura, treinamento e capital. Nós vamos ter que trabalhar em cima disto. Outra cadeia, na qual devemos trabalhar, é a cadeia do peixe, que pode se aflorar. É onde entraria a Agência de Fomento (do governo do Tocantins), que foi criada para financiar o micro e o pequeno empresário. Espero que a gente possa fazer este trabalho.

... na do peixe, uma das grandes vocações do Tocantins... (Foto: Antônio Oliveira/Cerrado Rural Agronegócios)
… na do peixe, uma das grandes vocações do Tocantins… (Foto: Antônio Oliveira/Cerrado Rural Agronegócios)

CRA – Secretário, neste primeiro momento, o que seria prioridade para o senhor e para o governador Mauro Carlesse, aqui nesta secretaria?

Ridoval Chiareloto – A prioridade é uma só: atração de investimentos para desenvolver o estado. Ajudar a aumentar a arrecadação com novos empreendimentos. Acho que esta é a prioridade do governador Mauro Carlesse. Gerar emprego, desinchar a administração estadual. Não é só no Tocantins, mas em todos os estados, geralmente,  foi o inchaço nos órgãos públicos que os deixaram em péssimas condições e isto não é bom para nenhum país, não é bom para o estado do Tocantins, não é bom para qualquer outro estado. Iniciativa privada é quem tem que fazer a geração de empregos e de riquezas.

CRA – Veja bem: estado que surgiu a partir da divisão do estado de Goiás, o Tocantins tem praticamente o mesmo potencial que Goiás tinha e tem, e que se desenvolveu e está na vanguarda, hoje, do desenvolvimento nacional. Com sua experiência no estado de Goiás, qual a analogia que o senhor faz das duas realidades?

Ridoval Chiareloto – Eu sempre falo que o Tocantins é um filho novo do Goiás. Eu morei um tempo em Araguaína (norte de Tocantins) e acompanhei este processo de criação do estado. Eu diria o seguinte: se você fazer uma infraestrutura de acordo, não há porque Tocantins ser diferente de Goiás, principalmente por sua localização. Tocantins tem 1.600.000 habitantes, mas se você considerar a circunferência de 1.200 quilômetros em torno dele, terá 10 milhões de consumidores. Isto dá para fazer uma logística que atenda a todos esses consumidores. Eu acho que se a gente melhorar a BR-153, com duplicação, e consolidar a Ferrovia Norte-Sul, dá pra promover um crescimento da  mesma forma que foi feito no estado de Goiás. Não é nada muito diferente do estado de Goiás.

CRA – A menina dos olhos, digamos assim, o grande potencial, hoje no Tocantins, é a piscicultura, principalmente a cadeia produtiva da tilápia – tempos também um potencial muito grande para os nativos, mas sem um pacote tecnológico que os tornem mais comerciais. Como senhor, por meio desta secretaria e a sempre parceira Secretaria de Agricultura, pretende desenvolver esta cadeia, desde a produção primária a terminação do produto?

“A gente não pode pensar que os outros estados não dão incentivos. Dão e dão muito”

Ridoval Chiareloto – Eu tenho uma afinidade muito grande com o Cesar (Halum, secretário de Agricultura, Pecuária e Aquicultura do Tocantins). Ele é parceiro, companheiro, nasceu em Anápolis, mora em Araguaína. Eu acho que este conjunto, esta sinergia, ajuda muito. Aqui na secretaria já tem um projeto de piscicultura, que está bem adiantando. Agora, para desenvolver isto, o que é preciso? Financiamento. Se o Basa e o Banco do Brasil financiarem os pequenos e a Agência de Fomento colocar dinheiro não só nos grandes produtores, mas nos pequenos também dá para fazer os integrados (sistema de integração produção primária/frigoríficos – a mesma coisa que se faz na cadeia da avicultura. Se tiver os integrados produzindo e os frigoríficos para comprar a produção desses integrados eu não vejo como não fazer. O mundo, hoje,  gosta de carne de peixe e a produção aqui no Tocantins é bem melhor que a de outros cantos porque a água oferece todas as condições necessárias para esta cultura. Então, eu acho que tem que financiar o pequeno, o cara que tem o tanque. Mas tem que financiar o grande também. E ai entra o Banco do Brasil, Basa e a Agencia de Fomento.

IMG-20181130-WA0038CRA – Geralmente os empresários, para se instalarem num estado, quer saber dos incentivos fiscais que terão. E isto está sendo revisto pelo governo federal e até mesmo o governador Mauro Carlesse já demonstrou preferir desburocratizar o estado, a oferecer outras condições que não sejam incentivos fiscais.

Ridoval Chiareloto – O governador Mauro Carlesse não tem restrição a incentivos fiscais, pelo o que nós conversamos. O pensamento dele é o mesmo meu: não pode ser demorado para atender ao empresário. Ele (o governador) é um homem que tem uma visão empresarial, tem uma visão política e sabe que para poder atrair empresários é preciso ser muito rápido. O que acontece quando você chega numa secretaria e num governo que não tem interesse em desenvolver o estado? O empresário leva um projeto e ouve: “Olha, deixa ai que eu vou ver”. Quando você fala isto é porque dificilmente sai. Temos que acompanhar todas as pessoas que procuram a secretaria, temos que ter uma atenção muito especial e ai o governador tem que dar um apoio total aos empresários nos incentivos fiscais. Não tem outro jeito de se fazer desenvolvimento, porque a briga entre os estados é muito grande. A gente não pode pensar que os outros estados não dão incentivos. Dão e dão muito. Mas aqui, o Tocantins oferece os incentivos fiscais maiores que os  ofertados no Sul do país, porque aqui tem o imposto de renda que dá quase 80% de isenção; dá 75% no ince ICMS; dá 25% na energia elétrica. Isto a gente tem que mostrar para a sociedade, para os  empresários, tem que levar ao conhecimento lá fora. Eu acredito que o governador Mauro Carlesse fez este convite a minha pessoa para ver se dá para ajudar. Mas eu não só nada além que qualquer outro diretor ou secretário daqui do Tocantins

...Para ele, a boa localização e a logística do Tocantins colocam o estado em situação privilegiada (Foto: Antônio Oliveira/Cerrado Rural Agronegócios)
…Para ele, a boa localização e a logística do Tocantins colocam o estado em situação privilegiada (Foto: Antônio Oliveira/Cerrado Rural Agronegócios)

CRA – Para finalizar, qual a mensagem que o senhor deixaria para os investidores já instalados no Estado e os interessados em investir aqui?

Ridoval Chiareloto – Que acreditem no governador Mauro Carlesse, que acreditem nos seus secretários, que acreditem na equipe da Secretaria de Indústria, Comercio e Serviços e que acreditem na Secretaria da Agricultura  e que acreditem na equipe do governo. Nós temos alguma coisa pendente, que eu já estou tratando, que a legalização dos distritos industriais. Que eles acreditem que nós vamos resolver esta pendência- escritura – e que o empresário que queira investir, que procure a Secretaria de indústria e Comércio, que terei o maior prazer de recebe-los, conhecer sua ansiedade, o que querem fazer em investimentos. A partir da hora que eles quiserem fazer investimentos que eles apresentem o projeto que eu vou acompanha-lo do início ao fim, junto ao Terratins (regularização fundiária do estado), por exemplo. Com este governo, pelo o que já conversei com o governador, o empresário vai ficar muito satisfeito. Não vai ser de uma hora para outra, isto eu quero assegurar. As mudanças virão aos poucos, mas virão.

 

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