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Por Antônio Oliveira

Nesta entrevista, concedida a nós no dia 3 deste mês, o secretário de Desenvolvimento Rural de Palmas (Seder), é abordado sobre os resultados das quatro edições do programa “Agosto Verde” (extensão rural de forma especial durante todo o mês) e o que espera da edição deste ano, lançado na semana passada.

– Se olharmos os números do IBGE, eles vão mostrar que produção e produtividade, em Palmas, tiveram um crescimento muito grande, a partir de 2013, e, principalmente, a partir de 2014, quando foi lançado o “Agosto Verde”.  A área plantada também cresceu. Nós saímos de uma faixa de produtividade, a exemplo do milho, de em torno de sessenta a setenta sacos, para cento e vinte sacos por hectare – disse ele.

Detentor de um curriculum muito rico nas areas de irrigação, piscicultura e extensão rural e a experiência de três mandatos de Secretário de Agricultura do Tocantins, dois de Palmas e da implantação de projetos pioneiros em Tocantins, desde os tempos em que este era o “Nortão” de Goiás, Sahium falou ainda de outros assuntos: criticou a atuação do Incra por assentar colonos sem a devida assistência, deixando isto às custas das prefeituras e criticou, pesadamente, a forma como o Governo do Estado do Tocantins trata a piscicultura no Estado.

Abaixo, a íntegra da entrevista.

Roberto Sahium, secretário de Desenvolvimento Rural de Palmas (Foto: Antônio Oliveira/Cerrado Rural Agronegócios)
Roberto Sahium, secretário de Desenvolvimento Rural de Palmas (Foto: Antônio Oliveira/Cerrado Rural Agronegócios)

Cerrado Rural Agronegócios (CRA) –  Dr Roberto Sahium, ao iniciar mais um “Agosto Verde” qual é o balanço que você faz das edições anteriores?

Roberto Sahium – O balanço que a gente faz é a marca estar registrada, todo mundo aguardando este momento para podermos trabalhar em conjunto. Hoje, se você olhar na configuração das medidas instigadoras no meio rural e aquelas que somos obrigados a fazer pelo ICMS Ecológico, 80% das medidas são realizadas pela Secretaria do Desenvolvimento Rural, ou seja, pelos clientes desta Secretaria, que são os produtores e, é logico, pelos parceiros. Essa é a avaliação que eu faço e que, apesar da gente vê tantas coisas erradas, como queimadas, gente assoreando córregos e rios, por trás disso (do “Agosto Verde”) também tem uma medida que eu acredito que diminui até esse impacto. Então, eu acredito que o “Agosto Verde” tem esse objetivo, ou seja, trabalhar, fazer produção, mas com sustentabilidade.

CRA –  Em termos de produção e produtividade, o que essas edições significaram? 

“A área plantada cresceu, mas também nós saímos de uma faixa de produtividade, a exemplo do milho, de em torno de sessenta a setenta sacos, para cento e vinte sacos por hectare”

Roberto Sahium – Quem mede isto são os veículos externos. Por exemplo, se olharmos os números do IBGE eles vão mostrar que produção e produtividade, em Palmas, tiveram um crescimento muito grande, a partir de 2013, e, principalmente, a partir de 2014, quando foi lançado o “Agosto Verde”.  A área plantada cresceu, mas também nós saímos de uma faixa de produtividade, a exemplo do milho, de em torno de sessenta a setenta sacos, para cento e vinte sacos por hectare. Isso tudo vem sendo agregado por meio de práticas conservacionistas, sustentáveis e de tecnologia, lógico.

CRA – Ainda sobre o “Agosto Verde”: Nessas quatro edições, foi possível colocar na mente do agricultor familiar que ele também tem que se profissionalizar, ter acesso a tecnologias e que ele também faz agronegócio?

A "Horta Empreendedora" é uma das ações de Sahium na Seder. Ela dá emprego para 100 pessoas em região socialmente carente de Palmas (Foto: Antônio Oliveira/Cerrado Rural Agronegócios)
A “Horta Empreendedora” é uma das ações de Sahium na Seder. Ela dá emprego para 100 pessoas em região socialmente carente de Palmas (Foto: Antônio Oliveira/Cerrado Rural Agronegócios)

Roberto Sahium – Essa é uma luta constante do extensionista. E o “Agosto Verde”, neste ano, veio com o tema “Tecnologia Solidária”, porque muitas vezes os técnicos levam uma tecnologia ao campo, mas o produtor não a aceita e diz assim: “Eu aprendi desse jeito, meu pai me ensinou desse jeito, meu avô fazia assim.” Então, a tecnologia, às vezes, não é aceita. Nós temos a consciência disto, por isto que escolhemos as unidades demonstrativas (espécie de centros de apoio). Nós escolhemos alguns produtores destaques e que esses produtores não sejam vaidosos, prepotentes, nem arrogantes, mas que sejam líderes naturais na sua comunidade e nós aparelhamos esses produtores. Daí, os outros verão que eles estão tendo sucesso, ganhando dinheiro – porque o principal é ver que eles estão ganhando dinheiro, que compraram carro, que melhoram suas casas. É esta a visão. É aquele velho ditado “Ver para crer”, ou seja, o teste de São Tomé. É dessa forma que nós estamos levando tecnologia solidária.

CRA –  Quantas famílias o “Agosto Verde” atende todo ano?

Roberto Sahium – Palmas tem, hoje, quase três mil produtores, mas nossa carteira tem apenas novecentos e sessenta e, desses, mais de 50% o “Agosto Verde” alcança.

CRA – O Município, por meio da Secretaria que o senhor administra, tem trabalhado muito com projetos de assentamento do Incra. Este tem dado alguma contrapartida ao Município nesse trabalho?

Resposta – Se o Incra, ao menos titulasse as terras dessas pessoas já ajudaria muito. Eles estão se esforçando, mas nós não temos ajuda nenhuma dos governos federal e estadual, em algumas frentes de trabalho, como estradas. Muito pelo contrário, diminuíram os repasses de ICMS para os municípios e estados. Ou seja, o Governo Federal, que é o maior arrecadador, fica com grande parte do “bolo” e não o reparte com equilíbrio. Não é só para Palmas, para município nenhum. Então, eles jogam essa “bomba”, criam assentamentos e depois ficam assim,  essa bomba relógio,  para todas as prefeituras administrarem.

CRA –  É de conhecimento público a crise que o município de Palmas vem enfrentando – e não só este ano -, com cortes de orçamento nas secretarias, inclusive na sua. Como é que o senhor tem trabalhado para garantir a missão dessa Pasta junto a agricultura familiar?

“Se o Incra, ao menos titulasse as terras dessas pessoas já ajudaria muito. Eles estão se esforçando, mas nós não temos ajuda nenhuma dos governos federal, estadual”

Sahium diz que não, mas produtores veem abatedouro com reserva (Foto: Secom/Palmas)
Sahium diz que não, mas produtores veem abatedouro com reserva (Foto: Secom/Palmas)

Roberto Sahium  – Criatividade. O “Agosto Verde” é fruto de criatividade, uma simbologia. Não é concreto, ele é abstrato. Você tem de vender sonhos, e para isso não adianta pensar em sonhar sozinho, então por isso é criatividade, fazer do mínimo o máximo, “espichar” os recursos que temos, trabalhar o necessário para atender as necessidades. Por exemplo, nós somos responsáveis pela cobertura de 4.132 km de estradas vicinais. Imagine: você vai daqui a Araguaína – é longe prá caramba, são 410 km. Agora imagina você cuidar de 4.132 km de estradas vicinais, consertando bueiros, pontes, fazendo desvios de água, tirando enxurradas. Eu tenho uma equipe de conservação de solo e de estradas excelente. Os caras vestem e suam a camisa. Essa é a diferença. E, também aqui dentro, nós temos técnicos que trabalham para que possamos estar deixando cada vez melhor o campo.

Anúncio_Mais Conhecimento_Nova Data-001CRA – Um dos grandes gargalos da agricultura familiar está na área da avicultura e da piscicultura: é o abate de animais. A Prefeitura, em parceria com uma associação rural familiar, construiu e equipou um abatedouro para os dois setores. Entretanto, ele teve vários problemas, inclusive o ambiental, que o impediram de funcionar imediatamente. Agora está funcionando, mas os produtores alegam altos custos, já que a unidade está operando pela iniciativa privada.  O que, na verdade, está acontecendo?

Roberto Sahium –Não, na realidade, o frigorífico nunca teve problemas, ele está sempre abatendo e nunca teve problema ambiental. O problema foi que nós precisávamos ter uma pessoa para ser uma âncora. Nós não temos, ainda, aqui em Palmas uma unidade de abate de duas mil aves e isso fica difícil para o gestor do frigorífico, de ter uma equipe constante de funcionários, porque se for abater cem aves, seria necessário seis funcionários; se se vai abater mil aves, seis funcionários, porque essa é a linha de produção. Não pode haver cruzamento e isso dificulta. Ninguém vai trabalhar de graça. A Associação não consegue produzir isso. Então, nós estamos trabalhando com duras condições, fazendo um agendamento de abate, para não ficarmos com o frigorífico aberto todos os dias e por meio desses agendamentos a gente tem abatido tranquilamente. Questão ambiental, nós não temos este problema. Mas ele foi criado porque falaram que o frigorífico estava na rota de aviões. Este é o problema que muita gente, sem conhecimento, fala. O que o frigorífico tem a ver com a rota de avião? A rota de avião passa por cima do aterro sanitário de Palmas e tem algum problema? Teve algum problema até hoje? Não. Na realidade, são esses ambientalistas imbecis, criando dificuldades para quem quer produzir, quem quer trabalhar.

“Na realidade, o frigorífico nunca teve problema, ele está sempre abatendo e nunca teve problema ambiental. O problema foi que nós precisávamos ter uma pessoa para ser uma âncora”

CRA – O senhor tem batido muito na tecla do fortalecimento da piscicultura na agricultura familiar, exclusivamente na questão dos peixes nativos. Como está essa cadeia hoje entre os pequenos produtores? 

Roberto Sahium – Nós dependemos de uma política de governo estadual. Não adianta eu falar pra você que vou trabalhar nessa cadeia e dar todo suporte porque quando eu vou comprar ração – e nós ainda não temos uma fábrica de ração nas proximidades, em função de outras questões. Nós somos sobrecarregados com os impostos; a taxa de ICMS em cima da ração que adquirimos de Goiás ou até de São Paulo, ou qualquer outro lugar é alta. Quando ela chega aqui, chega bitributada. Olha, se eu tenho uma ração barata, se eu sou um criador de peixe lá em Goiás, lá eu tenho um incentivo, eu pago 2% e não sou bitributado. Quando eu botar esse peixe no mercado, no Goiás, eu paguei 2%. Aqui eu já entro com 7%, que eu tenho de pagar de lá pra cá e mais 12% quando eu chego no Talismã (divisa do Tocantins com Goiás). Assim, eu vou pra 19%. Qual a competitividade que eu tenho? Palmas e o Tocantins não são os grandes centros consumidores de pescados. A gente produz em grande quantidade e nós temos que mandar pra Goiânia, e outros mercados. E como eu vou competir com o pessoal de Goiás, ou até do Mato Grosso, sabendo que lá eles têm condições, mais facilidade em termos de impostos? Então esse é o grande gargalo. Por outro lado, nós estamos trabalhando muito a questão dos tanques suspensos, uma vez que temos a fragilidade do sistema de abastecimento de água no mundo. Quanto mais fazermos escavação de tanque, construírmos represas, estaremos degradando cada vez mais o meio ambiente. Portanto, nós optamos, em grande quantidade, utilizar o tanque suspenso e estamos com uma modalidade de tanque, onde a própria pessoa que vai construir, o próprio produtor, não precisa de trator prá furar buraco, nem pra comprar telas. Então, nós estamos fazendo uma coisa barata. Aí você poderia me perguntar:  Mas, e o Lago? E nós respondemos: Faltou no projeto (de ocupação do Lago da Usina do Lajeado para a piscicultura), áreas específicas (em terra) para as pessoas montarem suas infraestruturas. Isto não é problema do Município, é problema do Estado. Nós tentamos resolver isto da melhor forma, porém não conseguimos. Ou seja, desde 2010, quando nós deixamos a Secretaria de Agricultura do Estado, as políticas de desenvolvimento da piscicultura foram muito pífias. Então, nós estamos colhendo os frutos agora. Se você não fez uma coisa boa e não plantou uma semente boa, é lógico que vai colher bons frutos. Portanto, a piscicultura no Tocantins está em estado de dormência. Quem está resistindo, está fazendo alguma coisa que não está legal, está abatendo de forma irregular, está comprando essa ração não sei de que forma. Ou seja, essa é a situação da cadeia da piscicultura no Tocantins.  Falta de políticas do Governo de Estado, não é da Prefeitura. Nós não temos como avançar muito em função das políticas do próprio Estado que não tem incentivo e ainda tem uma carga tributária muito grande. Falta de compreensão, falta de entendimento, e falta de inteligência, porque eles acabaram com uma das cadeias mais promissoras do Estado. Mas pode ter certeza de que ela ainda vai ressuscitar e dará bons frutos.

CRA – A prefeita Cínthia tem sido sensível com as demandas desta Pasta?

Abertura oficial do "Agosto Verde" 2018 (Foto: Anahyny Aquino)
Abertura oficial do “Agosto Verde” 2018 (Foto: Anahyny Aquino)

Roberto Sahium –Tranquilo. Deixa-nos trabalhar com muita tranquilidade. Agora, é o que você falou no começo, é a questão da crise. Palmas é uma cidade cara, difícil de administrar. Nós temos muitos vazios públicos e todos eles exigem aparelhamento, exige asfalto, exige luz, esgoto, e qual é o benefício que esse espaçamento trás para a cidade? Nenhum, só especulação imobiliária. Então, esse é o grande mal de Palmas e os recursos que temos para fazer todas as políticas, você sabe que vêm do IPTU. Este é para fazer política na cidade, para pagar escola, para fazer Educação, Saúde, segurança; para fazer agricultura e para recuperar estradas. Nós temos 4.132 km de estradas e gastamos R$ 8 milhões só na manutenção dessas estradas. Não é brincadeira.

*Colaborou: Anahyny Aquino

Nota do editor, pós publicação: O entrevistador e redator desta entrevista errou ao não observar nesta entrevista que, embora o entrevistado tenha se referido a não existência de uma fábrica nas imediações de Palmas e não no Tocantins,  há, sim, no Estado, uma fábrica de ração para peixes. É a Agronorte, localizada em Tocantinópolis, no extremo norte do Tocantins, que abastece todo este e estados vizinhos,

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