Bremm (centro da foto) participa de Fórum de agroenergia em Palmas, capital do Tocanins (Foto: Assessoria)
Bremm (centro da foto) participa de Fórum de agroenergia em Palmas, capital do Tocantins (Foto: Assessoria)

Por Antônio Oliveira

Até 2011 produzir cana-de-açúcar de forma intensiva no Tocantins, com variedades validadas às condições edafoclimáticas do estado, era um grande quebra-cabeça. Tentativas não faltaram, principalmente de um grupo de São Paulo que investiu pesado em áreas experimentais na trifurcação Tocantins, Bahia e Piauí, com vistas a construção da primeira planta sucroalcooleira no estado. Desistiu e focou sua atuação na produção de soja e milho. Até 2011, a produção da gramínea em terras tocantinenses era de pouco mais que 715 mil toneladas, oriundas, geralmente, de pequenas lavouras. Em 2017, essa produção chegou a quase 3 milhões de toneladas. Resultado da entrada da Bunge Açúcar e Bioenergia em Pedro Afonso, região centro-norte do Tocantins, que, entre cultivo próprio e de fornecedores, é a responsável por uma área plantada de 35 mil hectares.

No início, desde a aquisição das terras para plantio até a construção de sua planta agroindustrial, esta divisão da multinacional de origem holandesa e de presença global, gerou polêmicas entre produtores de soja e sociedades urbanas da cidade de Pedro Afonso e região: medo da soja e a pecuária perderem espaço para a cana-de-açúcar; questões agrárias, ambientais, etc.

Construída de uma greenfield, a usina fazia parte de uma joint venture com o Grupo Itochu, que, na época da aquisição, detinha 20% da usina. Posteriormente, em 2014, a Bunge adquiriu a ações de sua sócia.

Hoje a Bunge Açúcar e Bioenergia é uma realidade na região de Pedro Afonso, gerando empregos e renda e produtos para o Brasil e o mundo, numa boa convivência entre moradores e produtores de grãos. Gera, precisamente, 1.300 empregos diretos e investe na capacitação de seus recursos humanos e na mão-de-obra regional, a título de contrapartida social.

Nesta semana Cerrado Rural Agronegócios recebeu a visita de Daiana Bein Endruweit, da Comunicação Corporativa desta divisão. Ela veio conhecer o trabalho desta editora e mostrar os novos rumos da Bunge no Tocantins e no Brasil. Também com ela, em outra missão, o diretor agrícola da Bunge Açúcar e Bioenergia, Rogério Bremm, um nome já bastante conhecido na região Centro-Oeste, por meio de uma larga folha de serviços prestados à Usina Jalles Machado, em Goianésia, Goiás. Ele veio participar, como palestrante, do Fórum de Desenvolvimento Estratégico da Agroenergia, promovido pela Secretaria de Desenvolvimento da Agricultura e Pecuária do Tocantins, Universidade Federal do Tocantins e demais parceiros, oportunidade em que o entrevistamos.

A pauta girou em torno do pioneirismo da unidade na cultura de cana-de-açúcar no Tocantins, relacionamento com os produtores de soja da região em que a Bunge está instalada e o impacto social da empresa na região.

Abaixo, a integra da entrevista:

Cerrado Rural Agronegócios – Qual foi o principal atrativo para que a Bunge Açúcar e Bioenergia se instalasse na região de Pedro Afonso (centro-norte do Tocantins), a partir do zero (Greenfield),  e o que  significa o estado para a Bunge, ele é estratégico?

"O potencial de resposta de cana- de-açúcar no Tocantins, com o uso da irrigação é espetacular"
“O potencial de resposta de cana- de-açúcar no Tocantins, com o uso da irrigação é espetacular”

Rogério Bremm – Com certeza. O ponto que a Bunge analisou no passado foi, primeiro, uma região que fosse apta para produzir cana-de-de açúcar e esta região o é, desde que se utilize a irrigação. A visão foi produzir etanol anidro, que é aquele que a gente mistura na gasolina, e o hidratado, que é aquele que a gente abastece direto, para atender a uma região que tem necessidade de importação de combustíveis de outros estados produtores, principalmente Goiás, Minas e São Paulo. Então,  o nosso foco é produção de etanol para atender a demanda da região e fornecer esse produto para o Norte e Nordeste do Brasil, que tem uma demanda e que normalmente importa de outros estados. Assim, o estado do Tocantins e a usina de Pedro Afonso para a Bunge tem uma posição estratégica pela sua localização e poder atender centros que demandam etanol e que hoje têm carência deste tipo de produto.

CRA – Cada vez mais o mundo busca energias renováveis e a chamada agroenergia está neste contexto. Qual é a política da Bunge para este setor no Brasil?

Rogério Bremm – A Bunge tem uma divisão dentro da companhia que trabalha com a produção de bioenergia, com oito usinas de cana-de-açúcar com foco na produção de açúcar, etanol e agroenergia. Uma parte dessa agroenergia ela usa para o seu consumo, para mover suas unidades industriais, e o excedente é fornecido para as linhas de transmissão, oferecendo energia para a população.

“Nós temos,  aproximadamente, mil funcionários numa região que, se não tivesse a usina,  o foco estaria apenas na agricultura e na pecuária, que não geram tanto empregos, quanto gera uma agroindústria”

CRA – Quantos empregos diretos e indiretos esta divisão gera nas regiões onde estão incluídas, para que se tenha noção do papel social desta divisão da Bunge?

Rogério Bremm – Hoje, na parte de açúcar e bioenergia, a Bunge tem aproximadamente 7 mil funcionários de forma direta. O setor sucroalcooleiro – como um todo no Brasil -, entre empregos diretos e indiretos gera aproximadamente 1 milhão de empregos. Ou seja, é um setor que gera muito emprego dentro do Brasil. E um ponto importante é que esta geração de empregos é descentralizada. Nós temos, hoje, cerca de 400 unidades agroindustriais no país que estão localizadas no interior. Então, as indústrias do setor sucroalcooleiro geram mais empregos no interior do país e em regiões que, talvez, não teriam outras oportunidades de empregos, se não fosse essas usinas. Vamos citar, como exemplo, a usina de Pedro Afonso, aqui no Tocantins. Nós temos,  aproximadamente,  mil funcionários numa região que, se não tivesse a usina,  o foco (de geração de empregos) estaria apenas na agricultura e na pecuária, que não geram tanto empregos, quanto gera uma agroindústria. Então, o ponto extremamente positivo do nosso setor é a geração de empregos e renda em locais mais distantes dos grandes centros.

CRA – Quais os principais mercados abastecidos por este setor da Bunge?

Rogério Bremm – A energia gerada (por resíduos da cana) é colocada nas redes de distribuição, que é toda consumida dentro do país; uma boa parte do açúcar é exportada,  nós temos pouca participação no mercado interno deste produto.  E o etanol é praticamente usado dentro do Brasil. Este combustível é muito importante para a matriz energética brasileira. Se a gente comparar, hoje, gasolina e etanol, mais ou menos 40% do consumo no Brasil é de etanol. Então, o etanol tem uma importância muito grande, primeiro pela geração de empregos e renda no Brasil. É uma tecnologia 100% nacional e a gente atende um mercado de combustível, que se tivesse dependendo de importação de gasolina –  o Brasil tem limitações na produção de gasolina -, a gente teria que estar importando este combustível e, aí, causando problemas para a nossa balança comercial. Então, o etanol é muito importante, inclusive, para a nossa balança comercial, porque ele evita a importação de gasolina.

CRA – Veja bem: a Bunge Açúcar e Bioenergia, no Tocantins, é pioneira no cultivo de cana-de-açúcar com variedades validadas para a região. Quando a empresa se instalou aqui, a cana já era motivo de desânimo, fracasso para muitos que tentaram a cultura por meio de experimentos aliados a institutos de pesquisas. Vocês já iniciaram a agroindústria com variedades validadas para a região. Como foi este processo?

Rogério Bremm – A Bunge tem investido bastante na adoção de tecnologias, nas melhores tecnologias que nós temos hoje no setor. E um dos pontos do sucesso em Pedro Afonso é, realmente, a adoção intensa das novas tecnologias que temos disponíveis no mercado – variedade mais adaptadas à região. A gente tem feito campos experimentais na usina para selecionar as melhores variedades e parceria com as instituições de pesquisas; nós temos usado as melhores práticas do manejo da cana-de-açúcar e uma oportunidade que temos, também, na região, que é a irrigação. Um dos pontos do fracasso, talvez, na produção de cana-de-açúcar no estado do Tocantins, é devido a questão climática e a não adoção de irrigação. O potencial de resposta de cana- de-açúcar no Tocantins, com o uso da irrigação é espetacular. Nós podemos produzir aqui, duas, três vezes mais do que o restante do Centro-Sul, por hectare, se se adotar a irrigação.

CRA – O conflito, digamos assim, que existiu, a partir da implantação desta planta da Bunge em Pedro Afonso até seus primeiros anos de operação industrial com produtores de soja é assunto do passado?

“Além disto, criamos um processo interno por meio de instrutores, multiplicadores, dentro da usina, para treinar as nossas equipes nas melhores práticas agronômicas que temos disponíveis no mercado”

Rogério Bremm – Nós estamos tendo um excelente relacionamento com os produtores de soja. Inclusive, a cana-de-açúcar é uma cultura de médio prazo. Normalmente, você planta cana e a produz (ciclo) por seis anos; depois faz a erradicação desta cana e entra com rotação de cultura, geralmente a soja. Então, nas áreas onde temos cana, nós utilizamos a prática de rotação de cultura com soja e oferecemos essas áreas de rotação para que produtores da região utilizem as nossas terras para produzir soja. A nossa relação com os produtores é muito positiva.

A planta da Bunge Açúcar e Bioenergia em Pedro Afonso foi construída do zero (Foto: Antônio Oliveira/CDI-Cerrado Rural Agronegócios)
A planta da Bunge Açúcar e Bioenergia em Pedro Afonso foi construída do zero (Foto: Antônio Oliveira/CDI-Cerrado Rural Agronegócios)

CRA – Atualmente, e para o futuro, qual é a proposta social da Bunge para o Tocantins, especialmente para a região de Pedro Afonso?

Rogério Bremm – Um dos focos da empresa, até pela experiência que ela tem em outras áreas em que trabalha, é a da geração de empregos, dando prioridade para as pessoas da região, onde ela tem unidade. Então,  nós temos dado prioridade, primeiro, à contratação e treinamento de pessoas da região. Nosso foco é contratar pessoas de Pedro Afonso, e quando não houver profissionais qualificados na cidade, engenheiros, por exemplo, a gente tem buscado dentro do estado do Tocantins. Somente se não conseguirmos no estado do Tocantins, aí, sim, a gente vai buscar em outros estados próximos. Mas o nosso foco é a contratação de pessoas da cidade e da região. Outro ponto que temos investido bastante é na qualificação da mão-de-obra da comunidade. Nós temos várias parcerias com o Senai, no tocante a desenvolvimento e qualificação de mão-de-obra. Além disto, criamos um processo interno por meio de instrutores, multiplicadores, dentro da usina, para treinar as nossas equipes nas melhores práticas agronômicas que temos disponíveis no mercado. Por exemplo: nós temos, hoje, todo o nosso processo de colheita mecanizado; nós temos, hoje, simuladores onde uma pessoa, na frente de uma tela de televisão, simula a operação de uma colheitadeira. Então você consegue treinar pessoas da região em operação de colheitadeiras de cana, que são equipamentos bastante sofisticados, que usam bastante tecnologias. Então, a gente tem investido bastante, primeiro na contratação de pessoas da região e em segundo na capacitação das pessoas que a gente tem dentro da usina. E além disto, um ponto bastante importante que eu volto, é a questão da   importância que o setor tem para com as comunidades um pouco mais afastadas dos centros econômicos do país, que é a geração de empregos, uma geração de empregos mais qualificados, o que permite um nível de salários melhor. Quer dizer,  não são todas as atividades econômicas que temos no interior do estado ou no interior do país que se consegue ter um profissional, por exemplo, um operador de colheitadeira de cana, ganhando razoavelmente bem. Quer dizer: empregos de melhor capacitação, ou que exige maior capacitação e também remuneram bem. Então, além de estar gerando empregos, você está gerando emprego de maior nível de capacitação e com salários com média superior que os pagos normalmente nestas regiões.