SHARE
Thiago Dourado, secretário do Desenvolvimento da Agricultura e Pecuária do Tocantins (Foto: Manoel Junior)
Thiago Dourado, secretário do Desenvolvimento da Agricultura e Pecuária do Tocantins (Foto: Manoel Junior)

Por Antônio Oliveira

A versão on line da revista Cerrado Rural Agronegócios, abre, com esta entrevista uma série de outras com titulares de todas as secretárias e outros órgãos ligados – porteira a dentro e porteira a fora – aos agronegócios empresarial e familiar e as autarquias. O primeiro entrevistado é o competente jovem Thiago Dourado, secretário do Desenvolvimento da Agricultura e Pecuária do Tocantins (Seagro), profissional já com uma larga folha de serviços prestados ao desenvolvimento do Tocantins, por meio desta Pasta.

Thiago nos recebeu na última segunda-feira, 16, em seu gabinete para um bate-papo amplo sobre suas experiências e metas para o desenvolvimento dos setores de produção de alimentos, fibras e biomassa no estado do Tocantins.

Na conversa, a evidência de que, com sua ampla visão de futuro, está imbuído de bons propósitos e projetos para o Tocantins, principalmente nas áreas de agricultura, pecuária, piscicultura, avicultura e suinocultura.

Abaixo, a íntegra da entrevista:

Cerrado Rural Agronegócios (CRA) – A Secretaria de Agricultura do Tocantins teve, desde a sua implantação, a ventura de bons secretários, técnicos que ocuparam a Pasta. E o senhor, com que bagagem os sucede?

“No período em que fui professor, acabei vocacionando muito para essa área do agronegócio”

Thiago Dourado – Eu nasci em Goiânia, mas me considero tocantinense. Minha família é de Novo Acordo, família Dourado. Meu avô está nesta região – antigo norte goiano – desde 1927.  Ele sempre trabalhou com pecuária, a gente teve laticínio. Então, é uma família muita ligada ao agronegócio. Desde menino sou vinculado à roça, mas tive a oportunidade de estudar em boas escolas, até fazer o vestibular para Administração de Empresas pela Universidade de Brasília. Ainda nesta Capital, tive a oportunidade de trabalhar na antiga TCO (Tele Centro Oeste Celular); participei do processo de fusão desta empresa à Portugal Telecom, para a formação da Vivo Telefonia. Nisso, fui uma das pessoas selecionadas para morar em São Paulo.  Trabalhava na gestão do mercado corporativo da empresa. Lá fiz minha pós-graduação na FGV (Fundação Getúlio Vargas). Foi um período intenso, de muito aprendizado, trabalhar em uma multinacional na área de tecnologia. Mas sempre tive vontade de voltar para o Tocantins, por causa de minhas raízes familiares estarem aqui. Voltei, fui professor na UFT (Universidade Federal do Tocantins) e na CELP-ULBRA (Universidade Luterana do Brasil). Durante 8 anos, lecionei nas duas universidades, compartilhando esse conhecimento que adquiri dentro do mercado de telefonia e de alta tecnologia. No período em que fui professor, acabei vocacionando muito para essa área do agronegócio. Então, tenho muitos orientados, muita pesquisa publicada em toda essa área do Agronegócio, muita coisa feita nesse tempo todo. Um desses projetos foi o “Microcrédito Orientado”, que desenvolvi na Universidade, inclusive recebi uma premiação em cima do projeto e quando o ex-governador Siqueira Campos assumiu o governo pela última vez, um líder político do Jalapão, que é o “Mazinho”, (ex-prefeito de São Félix do Jalapão), tornou-se presidente do Pró-Divino (banco popular de fomento do Governo do Tocantins) e me convidou pra ser vice-presidente e implantar o meu projeto feito na Universidade. Então, eu fui vice-presidente do Pró-Divino no primeiro ano do referido governo, implantei o projeto chamado “Nano Crédito” que acabou virando o “Nossa Oportunidade”, por envolvimento do Omar Hannemann, que hoje é superintendente do Sebrae do Tocantins e, naquela época, secretário de Oportunidades, do Governo.  Ao sair deste, fui convidado pelo então prefeito eleito de Porto Nacional (Otoniel Andrade), para modernizar um pouco a gestão daquele Município. Ele havia sido prefeito 2 vezes e queria fazer uma gestão diferente, mais moderna, com mais inovações, um planejamento mais profissional. Fui seu secretário de Planejamento durante 2 anos, quando pude elaborar toda instrumentalização da parte de modernização da gestão do Município, inclusive com desenho dos distritos agroindústrias,  com outras plataformas que fizemos, que hoje estão respaldando a própria criação do curso de Relações Internacionais, quando fiz parte do comitê da Universidade Federal para a criação deste curso tão importante para o mercado de commodities, por fazer entender as relações internacionais para trabalhar nesse mercado. E nós criamos isso captando cada vez mais empresas para o município de Porto. Estive também como diretor de projetos na Secretaria (Seagro) quando captamos muitos recursos, transformamos a Secretaria numa plataforma, captando esses recursos; viabilizamos a aquisição de patrulhas mecanizadas, em 2016; gerenciamos um projeto junto ao Banco Mundial para a construção dos frigoríficos públicos (no interior do Estado), e efetivando esse projeto que, hoje, é um dos maiores projetos do Estado. Hoje estou como Secretário.

É isto. Vim de uma família de agrônomos, meu pai é Engenheiro Agrônomo, auditor do Ministério da Agricultura; estou a vida inteira envolvido com o Agronegócio, dentro de casa, na fazenda, então é uma área que tenho conhecimento intenso desde menino. Meu tio foi Pró-reitor, é Doutor na área de Agronomia, a vida inteira trabalhando nessa área, inclusive na área de eucalipto, de água e energia e outras potencialidades. Então, hoje, nós acabamos consolidando um conhecimento muito forte no setor do Agronegócio no Brasil.

CRA –  Secretário, este é um mandato tampão, de 6 meses. Quais são os seus desafios, ou os desafios da Secretaria para este curto mandato, o que é passível fazer neste curto tempo?

Thiago Dourado – Antônio, muita coisa que eu particularmente (no setor que dirigia na Pasta) havia planejado para acontecer, teria que acontecer nesse período. Então, já temos muita coisa em andamento nesse período, no que já vai transformar muito, principalmente a pecuária do Estado. Porque, hoje, um dos grandes problemas (no Estado) é o abate irregular e clandestino de animais e com o recurso que captamos junto ao Banco Mundial vamos mudar essa realidade de uma maneira efetiva dentro dessa estruturação. Mais algumas políticas de alinhamento à comunidade e agregar valores às cadeias das indústrias que estão em andamento. Estamos trabalhando em cadeias específicas, no beneficiamento da agricultura para que possamos agregar valor, seja na avicultura, na piscicultura, entre outras. Na piscicultura, hoje, é onde temos uma visão muito intensa, por isto estamos trabalhando para resolver, criar efetivamente uma política pública nessa área. Neste período, o desdobramento dessa política, os fatos vão ocorrer daqui a um longo tempo, mas alguém precisa cria-la para que possamos, realmente, ter um patamar, a exemplo do próprio Conselho de Pesca e Aquicultura que temos que criar. Temos que ter o setor privado e o poder público envolvidos na própria política de piscicultura dentro do Estado, uma política própria, com personalidade própria para que ela possa ser fortalecida e desenvolvida.  Isso é um exemplo de política pública que nós vamos criar. Outro projeto importante na área da pecuária: estamos criando a política pública de melhoramento genético, com 4 projetos muito forte que vão impactar até no sistema de crédito para os pequenos pecuaristas, que passa pelo sêmen, o embrião, o tourinho e as matrizes. Então, tem uma série de políticas focadas nesses patamares de melhoramento genético que precisamos tratar, isto porque um dos grandes desafios do Estado é a diferença de padrão genético da carcaça do bovino que temos no Estado. Então, temos que melhorar, colocar isto em alto nível e é nesse sentido que estamos trabalhando, criando plataformas das políticas públicas para efetivamente concretizá-las no futuro.

Na piscicultura é onde temos uma visão muito intensa, por isto estamos trabalhando para resolver, criar efetivamente uma política pública nessa área”

Tocantins tem um imenso potencial para a aquicultura (Foto: Antônio Oliveira/Cerrado Rural Agronegócios)
Tocantins tem um imenso potencial para a aquicultura (Foto: Antônio Oliveira/Cerrado Rural Agronegócios)

CRA –  Thiago, você falou em piscicultura e eu lembro dos grandes gargalos para o desenvolvimento deste setor no Tocantins, que tem um imenso potencial para se desenvolver: a questão ambiental, – demora no licenciamento -, e os entraves para o cultivo da tilápia em tanques-rede no Estado. Qual seria a sua participação, a participação desta Secretaria para destravar esse segmento da nossa economia, da nossa vocação?

Thiago Dourado –  A própria criação do Conselho é um exemplo disso. A atividade privada está hoje de maneira individual pontuando os problemas, o Governo tenta entender o que é pontuado, porém não consegue entender a individualidade de todo mundo. Claro que é importante respeitar a individualidade, porém esta deve ser compartilhada e apresentada por um coletivo, onde esse coletivo apresente as demandas de uma maneira geral para que possamos trabalhar em uma política para todos, para que a sociedade organizada seja atendida. Neste sentido, a estruturação do Conselho é muito importante para alinhar esses desafios. Quanto ao licenciamento, na parte da construção, liberação, em todas as partes necessárias (para a criação de projetos de piscicultura) o Estado terá de atuar, junto com o privado para que isso seja fortalecido. Já temos conhecimento de algumas demandas pontuais e estamos trabalhando para resolver, mas a política pública em relação ao Estado e ao setor privado é uma evolução constante. Resolvemos um problema, surge outro, e assim evoluindo sempre. Para isso precisamos ter as portas abertas o tempo inteiro, convivendo de maneira harmônica para que possamos ter esse diálogo e superar os desafios em conjunto.

CRA – Nessa relação entre esta Pasta e o Governador Mauro Carlesse, qual a determinação, qual a prioridade para este curto período? 

Thiago Dourado – O Governador tem um foco de desenvolvimento de Estado, é um foco muito progressista. Ele quer atrair investimentos. Tanto que, antes, tínhamos uma diretoria de atração de investimentos dentro da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, para receber os empresários, os investidores do Estado. O Governador não quer se afastar de nenhum investidor, ele entende que qualquer pessoa que invista, seja pequeno ou grande, que coloque seus sonhos, ele tem que receber estas pessoas, tem que criar plataforma para quem acredita no Estado.  Então, esse investidor terá uma sala de investidores dentro do próprio Palácio, onde serão acolhidos pelo Governo, para que a partir de lá, do Palácio, para os problemas que os investidores apontarem o Governador vai chamar a Secretaria correspondente ao problema para buscar a solução, buscar o diálogo. Então, o Governador está criando outro patamar de visão para os investidores, para os empresários que acreditarem no Estado. E essa visão precisa gerar plataformas para que as pessoas possam se desenvolver, possam Investir no Estado, tenham credibilidade, agilidade e possam ter seu dinheiro rendendo aqui. É Neste sentido que trabalhamos, para gerar desenvolvimento, empreendedorismo e criação de novas iniciativas no setor privado dentro do agronegócio.

CRA – Em recente entrevista que fiz com o governador Mauro Carlesse ele disse nas entrelinhas que não é necessário que o Estado ofereça incentivos fiscais e financeiros à investidores, mas que desburocratize a vida de quem deseja investir no Estado. Você concorda com esta tese?

“O investidor terá uma sala dentro do próprio Palácio, para que a partir de lá, os problemas que os investidores apontarem o Governador vai chamar a Secretaria correspondente ao problema para buscar a solução”

Thiago Dourado –  Concordo plenamente. Nós já conversamos muito sobre isso, sobre a visão dele de investidores escolher o Estado para investir. Precisamos gerar plataformas para desburocratizar.  A exemplo, agora, Antônio, eu recebi alguns grupos do mercado indiano e do mercado caribenho e eles têm muito interesse na carne de ovino e caprino, que é, ainda, um mercado novo que o Estado precisa fundamentar. Acabamos de fazer uma consultoria junto ao Banco Mundial, inclusive com a produção de um livro sobre o diagnóstico da oferta de ovino e caprino, com a produção de carne, leite e pele. Neste cenário, temos um potencial muito grande nessa cadeia para estruturar e para isso precisamos rever a lógica de licenciamento e a lógica de tributação para agregar valor, porque não podemos enviar nosso produto somente processado primariamente, temos que agregar valor com novas indústrias que vão, realmente, beneficiar e vender um produto de alto valor agregado para o mercado externo. Então nós temos potencial para isso e estamos alinhados com essa visão.

CRA – Dentro do Agronegócio, ou seja, da Agricultura Empresarial e da Agricultura Familiar, o Estado tem essa Pasta, ou seja, a do Desenvolvimento da Agricultura e Pecuária, a ADAPEC (Agência de Defesa Agropecuária do Tocantins)  e o Ruraltins (Instituto de Desenvolvimento Rural do Tocantins). Para o Estado, o que é prioridade, o que é mais importante: a Agricultura Familiar ou a Agricultura Empresarial, o chamado Agronegócio – lembrando que por Agronegócio nós entendemos estes dois setores de produção -?

Thiago Dourado –  O Tocantins tem uma vocação única porque é um estado abençoado por Deus nas suas condições edafoclimáticas. Então, se tem condição de solo, que é altamente mecanizável, isso propicia que o agronegócio tenha uma estrutura muito forte. Temos a maior região de várzea contínua do planeta (para irrigação por inundação), com um potencial de produção de sementes muito grande. Tudo isto é foco do Agronegócio empresarial. Nós temos discutido muito, agora, até essa denominação de Agricultor Familiar, do Agronegócio Familiar, porque os pequenos produtores têm que entender que a pequena propriedade também precisa de gestão, precisa fazer conta, de resultado, de lucro, para que eles tenham realmente dignidade no seu trabalho. E essa é uma visão que todos têm quando vai fazer uma visita ao Sul do Brasil e vê uma cooperativa funcionando. Por que que não podemos fazer e ter os mesmos resultados? Então nós temos que trabalhar nesse sentido. O Agronegócio tem o seu papel e é muito forte no Estado, tem uma vocação e vai ser fortalecido para que isso possa ser potencializado e liderarmos esse processo, principalmente na produção de sementes, na produção de grãos, na pecuária e na agroenergia.  Mas a Agricultura Familiar tem um papel crucial, não só na produção como na estrutura social de forma demográfica da sociedade mesmo, então o pequeno produtor rural precisa encontrar a maneira para que ele conquiste a dignidade para a família dele, para que seus filhos possam prosperar naquele ambiente rural. E é nesse sentido que nós temos que visar as políticas públicas, dentro da Agricultura Familiar. Como que vamos gerar dignidade e plataforma para que essas pessoas possam se desenvolver, acreditar nelas? É nesse sentido que temos trabalhado.

“Os pequenos produtores têm que entender que a pequena propriedade também precisa de gestão, precisa fazer conta, de resultado, de lucro, para que eles tenham realmente dignidade no seu trabalho”

CRA –  Thiago, você falou em dois assuntos que são alvos de críticas, dentro e fora do Tocantins, que é, primeiro, a questão do potencial do Estado. Fala-se muito que o Tocantins tem potencial para isso e para aquilo, entretanto as políticas públicas para a agregação de valor ao seu potencial, à sua produção primária, pouco existem. Por exemplo, na produção de grãos, algumas agroindustriais que estão no Estado, ou que pretende investir aqui, têm dificuldades, como a Granol, uma das maiores do país – que, aliás, ninguém sabe o que aconteceu, o porquê dela ter ficado com sua parte de produção de óleo comestível e farelo parada há varias safras e nem a empresa informa à imprensa. Outra coisa é a questão do cooperativismo, do associativismo. Falta essa mentalidade no Estado para fazer o Agronegócio, a Agricultura Familiar, a Agroindústria prosperarem. Qual a sua opinião sobre isso?

O Tocantins precisa ultrapassar um milhão de hectares de área para cultivo de soja, para garantir o funcionamento pleno de usinas (Foto: Antônio Oliveira/Cerrado Rural Agronegócios)
O Tocantins precisa ultrapassar um milhão de hectares de área para cultivo de soja, para garantir o funcionamento pleno de usinas (Foto: Antônio Oliveira/Cerrado Rural Agronegócios)

Thiago Dourado –  Com relação a agroindustrialização, principalmente de grãos, houve uma super demanda do mercado internacional e as tradings vieram de uma maneira de forte concorrência. Então aumentou o número de compradores e o número de produtores não conseguiu acompanhar. Com isto, a Granol começou a concorrer entre compradores de um público produtor menor e acabou tendo dificuldades para poder, realmente, adquirir matéria-prima para rodar a sua usina. Agora ela está operando, já tem mais ou menos uns 4 meses que voltou a operar, inclusive está comprando cavaco de eucalipto lá no Brejinho (município de Brejinho de Nazaré) para poder utilizar na termoelétrica que têm lá dentro. A Granol é o maior “play” na produção de biocombustível, hoje, do Brasil. Ela tem 8 plantas industriais de beneficiamento em todo país, inclusive aqui no Tocantins. O Estado quer fazer com que ela funcione a todo vapor, essa é a determinação do próprio Governador. O que nós pudermos fazer para que essa empresa cresça cada vez mais, nós vamos trabalhar nesse sentido. Esse alinhamento que estamos tendo é para que ela possa efetivamente beneficiar e agregar valor ao produto que temos dentro do Estado. E, logicamente, ela produzindo, se criarmos plataforma de produção de ração, de outras integrações vinculadas a isso, nós vamos fazer para que isso possa gerar mais empregos e rendas por meio do fortalecimento de outras cadeias produtivas. Isso envolve, também, até a perspectiva de revisão do nosso Código Tributário de uma maneira que incentive a agroindustrialização e não a saída do produto em sua forma in natura para que possamos gerar uma plataforma de competitividade. Lógico que isto demanda tempo, mas é o nosso foco. Na questão da falta de tradição no cooperativismo, na Agricultura Familiar, isso é essencial. Nós temos uma experiência junto ao Banco Mundial, que financia em todos os estados do Brasil a Agricultura Familiar. Essencialmente que ela deveria ser conduzida em grupo, porque o individualismo não lhe dá sequência. Então, sempre tem que ter grupos, mesmo que sejam pequenos, mas que são suficiente para que o mercado consiga ter continuidade. Então nesse sentido, nós temos que trabalhar com uma política de associativismo dentro da área produtiva. Já temos alguns focos onde a ideia do cooperativismo têm começado a ser trabalhado. Mas esse é um dos nossos maiores desafios, principalmente porque uma enorme parcela dos nossos agricultores familiares vêm dos reassentamento do Incra, do crédito fundiário, de assentamentos de usinas hidroelétricas e o público dos assentamentos ainda não conseguiu visualizar o benefício do associativismo. Mas nisso temos que fazer um trabalho em conjunto com os poderes público, municipal, estadual e federal, dentro de cada plataforma dessa para que possamos transformar. Então, estaremos realmente gerando plataforma que começa com pequenas experiências que vão se amoldando e espalhando de maneira positiva.

“A Agricultura Familiar tem um papel crucial, não só na produção como na estrutura social de forma demográfica da sociedade mesmo”

CRA –  Segundo um levantamento feito por alguns pesquisadores da Embrapa Suínos e Aves, o Tocantins está dentro de uma região – o MATOPIBA – que tem um potencial para a produção de suínos e aves, talvez até maior que de regiões tradicionais como Santa Catarina, Paraná e o sul de Goiás (região de Rio Verde). Entretanto, o que nós temos aqui está passando por dificuldades. Frigorífico fechado, criadores, avicultores agregados passando por situações difíceis. Qual seria a ação do Governo do Estado para ajudar a sanar esses problemas, a desenvolver essas duas cadeias produtivas?

Embora ainda pequena, a ovinocaprinocultura no Tocantins desperta muito interesse de investidores (Foto: Luciano Ribeiro)
Embora ainda pequena, a ovinocaprinocultura no Tocantins desperta muito interesse de investidores (Foto: Luciano Ribeiro)

Thiago Dourado –  Inclusive nós recebemos uma missão do Japão interessado em investir na cadeia da avicultura e da suinocultura dentro do Estado. A avicultura passa por dificuldades do próprio empreendedor da indústria que não conseguiu manter o seu capital de giro, a gestão para que pudesse fazer a integração. Estamos alinhados junto com os produtores, os integrados, para encontrar uma solução para eles. Eu tenho feito muitas articulações em busca de pessoas que queiram empreender nessa área, visualizando a estrutura que já está montada e pronta para fazer essa integração. Hoje já tem alguns parceiros que estão interessados em algumas fases. Estou até aproximando alguns empreendedores para ver se eles conseguem mudar este cenário e a partir disso evoluirmos. Esse é um ponto importante, dar resposta em cima disso, agora de uma maneira estrutural, geral. A primeira coisa para transformar essas cadeias, seria ter uma agricultura sólida, superando 1 milhão de hectares. Nós temos de melhorar a produção de milho ainda, para que tenhamos ração suficiente para produzir essas cadeias. A avicultura já tem uma viabilidade, já a suinocultura demanda mais tempo para implantação, demanda em torno de 4 a 5 anos de produção inicial de matrizes até chegar numa escala comercial de produção. Então, é uma cadeia a longo prazo. Já tivemos conversas com cooperativas, inclusive as grandes, como a Aurora e a Frízia, sobre essas cadeias. Elas têm interesse. O Estado tem outra vocação, que é a inicial que você falou. Ela é alvo de mais interesse ainda, que é a piscicultura. Então, até concorrente entre as cadeias, hoje vejo mais avicultura e a piscicultura com maior potencial e mais imediato que a suinocultura que demanda um pouco mais de tempo para estruturação. Mas que também vai ser planejado dentro desse cenário.

“Mas o básico disto é reestruturar os projetos de irrigação para que os produtores dos distritos irrigados possam produzir; ter segurança jurídica para que eles possam produzir”

CRA – Thiago, para finalizar: o Tocantins, que tem um dos maiores potenciais de irrigação do Brasil, ou seja, 4 ou 5 projetos de irrigação, por gravidade e aspersão e um por inundação, que é o Projeto Rio Formoso, entretanto, muitos deles emperrados. Qual seria sua proposta para alavancar de vez esses projetos e tornar o Tocantins um grande produtor de frutas? – condições e estrutura para isto esses projetos têm. Falta a coisa andar.

Thiago Dourado –  Um dos grandes problemas do Estado, neste campo, foi a má gestão efetiva dos projetos de irrigação. Então, nós temos que enfrentar o problema e reconhecer as dificuldades. A primeira coisa que temos que trabalhar é uma gestão efetiva desses distritos, porque dentro do processo de concessão, de licitação das áreas, estas foram adquiridas e ocupadas sem um acompanhamento da implantação das culturas constantes na licitação e daí esses projetos foram tocados à reboque, sem uma gestão efetiva do poder público para que isso pudesse ocorrer. Hoje, nós estamos revendo isso, “tomando pé”,  literalmente, de toda essa situação,  que é muito grande. São muitos operadores, muitos contratos, muitos lotes, muitos condicionantes dentro de toda essa legislação para que possamos saber no que teremos que intervir. Mas o básico disto é reestruturar os projetos para que os produtores dos distritos irrigados possam produzir; darmos segurança jurídica para que eles possam produzir e trabalharmos a infraestrutura para que eles possam ter acesso ao mercado. É nesse sentido que vamos consolidar, criando condições para que eles possam ter autonomia e tocar o projeto por si só, sem que o Estado participe ou interfira.

*Colaborou: Anahyny Aquino

 

NO COMMENTS

LEAVE A REPLY