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Junior Mazzola, secretário de Desenvolvimento Econômico, Turismo e Meio Ambiente de Araguaína (Foto: Antônio Oliveira/Cerrado Rural Agronegócios)
Junior Marzola, secretário de Desenvolvimento Econômico, Turismo e Meio Ambiente de Araguaína (Foto: Antônio Oliveira/Cerrado Rural Agronegócios)

Por Antônio Oliveira

Uma entrevista que foi sugerida por este repórter para falar sobre o desenvolvimento dos agronegócios da segunda maior cidade do estado do Tocantins – Araguaína, no norte do Tocantins -, acabou por ser um completo “raio x” de uma região que está caminhando para ser um dos maiores polos econômicos da região Norte e Nordeste do Brasil.

O entrevistado é o atual secretário de Desenvolvimento Econômico, Turismo e Meio Ambiente de Araguaína, Junior Marzola. Eu o havia solicitado este encontro há meses e, nesta quarta-feira, 5, após a reunião do Conselho Estadual do Meio Ambiente, para votar, entre outras pautas, a liberação da tilápia no Tocantins, nos encontramos em um dos hotéis de Palmas.

Marzola tem ampla experiência no que relata nesta entrevista. Calejado que é em funções que exerceu nos setores políticos e produtivos do Tocantins, como secretário de Agricultura deste estado; presidente do Conselho Deliberativo do Sebrae no Tocantins; presidente do Sindicato Rural de Araguaína, presidente da Federação da Agricultura do Tocantins (Faet), além de ter sido deputado federal.

A sinergia entre entrevistador e entrevistado foi tão grande que a entrevista, que foi mais um bate-papo, extrapolou as fronteiras de controle de Marzola e abrangeu toda a macro região econômica de Araguaína, da qual esta cidade tornou-se polo.

Muita informação que nos dá a dimensão das potencialidades da região, as oportunidades e os investimentos já feitos e a serem feitos em setores primários, indústrias e agroindústrias.

Difícil não ser atraído, também, após a leitura desta, para investir na região norte do Tocantins.

Abaixo a íntegra da entrevista:

Cerrado Rural Agronegócios (CRA) – Secretário, Araguaína já foi conhecida interna e externamente como a “capital do boi branco”, ou seja, do nelore. Qual é a hoje a realidade econômica, baseada nos agronegócios do município?

Junior Marzola – Araguaína, por ter localização estratégica, assumiu um caráter de vanguarda não só na pecuária. Hoje nós temos grandes plantios de florestas de eucalipto e seringueira na região e um grande polo de agricultura, que vai desde Campos Lindos, passando pela região de Santa Fé do Araguaia, Colinas, até ao Bico do Papagaio, fazendo de Araguaína um grande polo, em função também de sua localização, polo de educação e de universidades, que atraem as pessoas para morarem na cidade e, ainda,  pela gama ofertas de serviços e comércio de maquinários pesado e leve,  vendas de insumos (adubo, sementes, entre outros), implementos  agrícolas, que dão suporte para esses produtores rurais. Além disto, uma linha aérea que liga a cidade à Palmas e desta para o resto do Brasil por meio de suas conexões.

 CRA – Qual é o impacto social e econômico desta nova realidade econômica no município?

Junior Marzola – Muito grande. Desde a educação básica e média, no comércio como um todo. Nosso comércio, hoje, é muito mais dinâmico, muito mais consolidado, empregando muito mais gente, com mais receitas e com novidades. Na área industrial, nós estamos recebendo investimentos de uma indústria que se chama Polli Fertilizantes Especiais, uma indústria com mais de 50 anos de existência, lá no Paraná, que vai construir uma planta industrial em Araguaína. Ela fabrica dois tipos de adubos: o convencional – NPK – e, também, um adubo que vai nos trazer uma revolução como, por exemplo, dispensar o calcário na correção do solo. Nós já estamos tendo este adubo aqui, é bastante vendido no estado, e agora eles vão produzir este adubo em Araguaína, em função de que parte da matéria prima desse adubo nós temos lá na região de Riachão, no Maranhão; em Carolina (MA), o gesso agrícola, e o calcário em Xambioá (no extremo norte do Tocantins), e em Bandeirantes (norte do estado). Então, em função disto, nós vamos ter uma nova agregação de valor que é esta grande indústria.

 CRA – Voltando à antiga vocação econômica de Araguaína. Como é, hoje, a cadeia produtiva do boi no município e na região?

Junior Marzola – Totalmente diferente daquela que era antigamente. Quando minha família foi para Araguaína, por exemplo, na década de 1960, nós tínhamos um grande lema nacional, que era o de ocupar para não entregar a Amazônia.  Por que? Porque isto aqui era um ermo. Nós não tínhamos mão-de-obra, tratores e máquinas; nós tínhamos a população regional nativa que não tinha capacidade de investimentos. Com a chegada de empresários de fora, principalmente do Sul e Sudeste do Brasil, e a mão-de-obra que veio do Nordeste, nós criamos um polo, alicerçado pelo Banco da Amazônia e pela Sudam (Superintendência da Amazônia), que, na época, financiaram muitos projetos de pecuária de corte de grandes extensões. De lá para cá, nós começamos a fazer a mecanização dessas áreas. Com isto, ganhamos produtividade, qualidade de pastagens, de alimentação, de proteína, produzidos para este animal e a qualidade da carne, porque o rebanho também melhorou muito. Hoje, nós temos uma grade base de rebanho com inseminação artificial, seja para bos taurus e  ou bós índicus – gado europeu ou gado zebu -, e  grandes frigoríficos. Nós temos  plantas em Colinas, em Nova Olinda, vários em Araguaína. 70% dos frigoríficos do estado estão concentrados num raio de 100 quilômetros no entorno de Araguaína. E, também, frigoríficos vocacionados à exportação. Para exportação nós temos em Gurupi e em Araguaína. Então, hoje, nós temos uma pecuária muito diferente do que era antes; um grande número de confinamentos, bois precoces e estamos cada vez mais em constante melhoria. Por que? Porque os grãos (soja e milho) vêm tomando área da pecuária. Nós não podemos deixar diminuir o rebanho e para não diminuir o rebanho, nós temos que ganhar em produtividade; ganhando produtividade temos que  aplicar  tecnologias;  aplicando tecnologias você tem que ter resultados compatíveis com os custos para cobrirem  investimentos, ou então o prejuízo é real.

“A Eco Florestas vai ser a primeira indústria de celulose do estado do Tocantins. Esta Eco Brasil tem aproximadamente 104 mil hectares de terra, com 36 mil hectares plantados com eucalipto”

CRA – Na área de corte, além do nelore, quais são as outras raças presentes na região de Araguaína?

Junior Marzola – A maioria de nossas matrizes e dos nossos bezerros, ainda são de Nelore. Mas nós temos um grande volume, hoje, de Aberdeen Angus. Não existe Red Angus e Black Angus. Existe é Aberdeen Angus, que é a raça que mais tem no mundo – mais do que o Nelore. Mas, no Brasil, por causa das nossas condições climáticas, nós temos mais nelores do que o Angus. Mas esse cruzamento industrial, que é o meio sangue, é o ideal. Se ganha em qualidade de carne e em rapidez de produtividade. Temos, hoje, também, um incremento muito grande na pecuária leiteira. Nós temos laticínios em Bernardo Sayão, Colinas, Arapoema, Araguaína, no Bico do Papagaio, como um todo. Então, nós temos um rebanho leiteiro significativo, que nos ajuda muito, porque é uma alternativa de renda, principalmente para o pequeno produtor rural.

A cadeia produtivo dos grãos é crescente na região de Araguaína (Foto: Ascom/Araguaína)
A cadeia produtivo dos grãos é crescente na região de Araguaína (Foto: Ascom/Araguaína)

CRA – Secretário, a região também se destaca pela produção de grãos, recebendo a influência da região de Campos Lindos (mais a leste do município, divisa com Maranhão) e do sul do Maranhão. O que isto significa para o município?

Junior Marzola – Muito. Há uma grande cadeia produtiva no entorno do município, por exemplo, de logística de transporte. O fornecimento de calcário – a maior parte do calcário que é absorvido pelo sul do Maranhão, Mato Grosso – de Vila Rica para cá -,  e para o Pará, vem das jazidas de Bandeirantes ou de Xambioá. Então, eles (produtores rurais) levam esse calcário para suas regiões, nos meses de setembro e outubro, e trazem de lá para cá os grãos. Isto dá para nós um cluster de logística, de pneus, de manutenção, de máquinas, que não existia em Araguaína antes. Então, nós, hoje, além de ter, por exemplo, a pecuária, os grãos, agora a gente passa a ter uma nova indústria num raio de 100 quilômetros no entorno Araguaína, que é a ADM, por exemplo, que comprou a estrutura da Algar na região – foi feita esta transição nesta semana. A ADM recebeu os silos e a indústria, a única indústria que nós temos na nossa região, além do Fazendão, em Gurupi. Então, nós temos a opção de transformar a soja em óleo, ou mandar para a exportação, via Porto de Itaqui. E hoje, percebe-se, que nós temos grande quantidade de empresas de avicultura: um abatedouro muito grande em Aguiarnópolis e exportação do frango em pé. Além disto, temos as granjas de postura. Hoje nós temos, em Darcinópolis, a 80 quilômetros de Araguaína, a antiga Josidith, que foi vendida para uma empresa de Santa Catarina. Em Angico, nós temos uma granja, que é de postura, que é também a maior do Brasil e é de um japonês de São Paulo. Então, é um novo segmento que se desenvolve muito. Hoje, a região Norte e Nordeste é abastecida com ovos da região de Araguaína, macro região norte do estado do Tocantins. Isto é importante. Por que? A ração fornecida a essas aves tem sua matéria prima produzida na região, que são a soja e o milho. Não se produz apenas para exportar. E, agora, apareceu um novo investimento, a Eco Brasil Florestas, que é um fundo de investimentos capitaneado pelo Banco Safras. Ela está em Araguaína há oito anos e tinha uma parceria com a Suzano, que não evoluiu, mas agora ela fechou um compromisso com uma indústria indiana, um fundo de investimento indiano, e vai montar uma indústria de celulose, vai investir nos próximos seis anos em torno de R$ 4 bilhões – um bilhão de dólares -, na nova indústria,  que deve ser construída na beira do Rio Tocantins – entre Palmeirante e Babaçulândia-, por causa do volume de água que a indústria precisa. Vai ser a primeira indústria de celulose do estado do Tocantins. Esta Eco Brasil tem aproximadamente 104 mil hectares de terra, com 36 mil hectares plantados com eucalipto.

CRA – Dentro desta linha de proteína animal, de pequenos animais, nós temos, também, a suinocultura e a piscicultura que, no estado, têm um grande potencial para se desenvolverem. Como estão essas duas cadeias na região de Araguaína?

Junior Marzola – A suinocultura, eu ainda a vejo muito incipiente, por vários motivos. Primeiro, principalmente, por causa das características dessa cultura. Os suínos que nós temos no Tocantins são raças que não se dão muito bem com o calor. Então, nós não temos a produtividade que eles precisam ter e que têm no Sul do país. Assim, as grandes granjas de suinocultura, no Brasil, ainda não se interessaram em vir para a nossa região. Mas a piscicultura – eu particularmente, sou piscicultor -, está de vento em popa. Nós temos, hoje, como você viu no COEMA (Conselho Estadual do Meio Ambiente do Tocantins), – eu sou membro efetivo do COEMA, represento os municípios -, tivemos a oportunidade de colocar o nosso estado alinhado com o que tem de mais produtivo na piscicultura brasileira, a tilápia. (Até agora) nós estamos em desvantagens, por um motivo ou por outro, e não cabe mais discursão, porque já foi aprovado. Mas tínhamos uma resistência muito grande à tilápia, por problemas legais e ambientais, enquanto a espécie é liberada para o Maranhão, Goiás e Mato Grosso e tem presença (livre) nos rios Tocantins e Araguaia. Foi uma reunião importantíssima no qual nós decidimos, e você viu,  que tivemos um alinhamento quase que 100% – só o MPE que não concordou -, não propriamente pela tilápia. Nós não concordamos com os argumentos deles (do MPE). Hoje nós tivemos notícias de que está vindo um grupo de Portugal para montar uma grande indústria aqui no Tocantins (na cadeia da tilápia); nós temos as duas indústrias (produção e abate) de Almas; nós temos a indústria de Porto Nacional, de Aliança, que estão todas trabalhando com um índice de produção muito baixa por falta de peixe. Nós temos projetos muito grande, por exemplo, em Sítio Novo, o projeto do Gilvan Barros, que tem quatro milhões de peixes, mas não tem indústria. Hoje nós vamos começar a escrever uma nova história da piscicultura no estado.

“Nós temos uma secretaria municipal do Meio Ambiente que é desburocratizada no licenciamento ambiental; nós  temos uma política, por exemplo,  de transformação desses produtos, que são os produtos primários, na agregação de valor”

CRA – É, hoje pode ser um divisor de água, com a liberação da tilápia no estado do Tocantins. Para Araguaína, o que isto significa?

Junior Marzola – Muito. Nós temos um potencial muito grande: dois rios, Araguaia e Tocantins, com menos de 100 quilômetros de distância do município, um a esquerda e outra a direita, e não tínhamos a oportunidade de explorar esses recursos para a produção de tilápia. E hoje o peixe redondo, em relação a tilápia, é como se você pegasse uma Ferrari e um Fusquinha, a nível de mercado, de comercialização. É muito melhor a tilápia. Eu acredito que nós vamos crescer muito. Nós temos uma política agrícola do município que será submetida a Câmara de Vereadores, que se chama Pro Agrara. Neste projeto, nós temos como primeira preconização a receita do produtor rural em curto, médio e longo prazo. O que deve a ser isto: que o produtor rural tem caixa a curto, médio e longo prazos:  são as receitas mensais que o produtor deve ter para ele pagar a energia, a água, o remédio, a roupa dele, a educação dos filhos. Enfim, as necessidades básicas. Nós temos que ter receita também de seis em seis meses. Para que? Para reforma de uma cerca, troca de pneus de um trator, troca de um automóvel, de uma moto.  E temos que ter uma receita para a terceira idade do produtor rural, quando ele vai estar perto de sua aposentadoria; ele não pode ficar dependendo do salário mínimo de miséria que é dado hoje para o produtor rural. Então,  nós dividimos as cadeias produtivas, para que o produtor tenha este fluxo de caixa. Por exemplo: nós precisamos da pecuária de leite, especialmente para o pequeno e médio produtor rural. Por que? Porque na pecuária de leite você tem a receita mensal que é o leite e tem a receita de seis em seis meses que é o bezerro. Então, você tem duas receitas. Vou dar outro exemplo, esta na piscicultura, com médio prazo, receita anual, que vai possibilitar ao produtor rural ter receita opcional sem deixar sua atividade da pecuária. E estamos conseguindo isto e temos, por exemplo, o laticínio que estamos construindo pela prefeitura, que vai ser colocada à disposição de uma cooperativa de produtores rurais da nossa região,  abrangendo 40 municípios com bacia leiteira; nós temos o Compra Direta; nós temos a compra para a Educação de produtos que são garantidos. Nós temos um cinturão verde muito importante.

Distrito Agroindustrial de Araguaína, berço do desenvolvimento regional (Foto: Ascom/Araguaína)
Distrito Agroindustrial de Araguaína, berço do desenvolvimento regional (Foto: Ascom/Araguaína)

CRA – Por fim, o senhor colocou nesta nossa conversa todo um leque de opções de exploração econômica em Araguaína e região. Investidores estão ai, no Brasil e no exterior, de olho no Tocantins, no MATOPIBA.  Quais são os atrativos do município, em termos de política de governo, para atrair esses investidores?

Junior Marzola – Neste sentido, nós temos, por exemplo, o Proagrara, pelo qual nós podemos ajudar com máquinas, com implementos e o produtor faz simplesmente a despesa e a manutenção do maquinário. Nós já estamos fazendo isto; nós temos um projeto piloto que já foi feito; nós temos mais três outros projetos com 15 produtores rurais em cada projeto – não são assentados de Reforma Agrária, não. São produtores rurais -, para os quais as gente fornece as máquinas, eles a manutenção, o óleo, a refeição dos operadores, etc. -, e já escavamos tanques, por exemplo. Do mesmo jeito, a gente faz doação de calcário. Agora mesmo nós estamos contemplando 400 pessoas, com a distribuição desse insumo. Nós temos uma secretaria municipal do Meio Ambiente que é desburocratizada no licenciamento ambiental; nós  temos uma política, por exemplo,  de transformação desses produtos, que são os produtos primários, na agregação de valor. Como eu acabei de dizer, por exemplo, o laticínio municipal, que é parceria com o governo federal, por meio do Ministério da Agricultura. Então nós temos uma gama de produtos que dá suporte ao produtor rural que quer investir na região de Araguaína.

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