Os armazéns da Coapa são os mais modernos do Tocantins (Foto: Antônio Oliveira/Cerrado Rural Agronegócios)
Os armazéns da Coapa são os mais modernos do Tocantins (Foto: Antônio Oliveira/Cerrado Rural Agronegócios)

Por Antônio Oliveira

“A era do romantismo das cooperativas já passou. Agora é a hora de unirmos profissionalismo, compromisso e intercooperação em parcerias que trazem resultados efetivos para os associados”.

A oração acima, do ex-ministro e uma das maiores lideranças cooperativistas do Brasil, Roberto Rodrigues, se enquadra muito bem na evolução e perfil da Cooperativa Agroindustrial do Tocantins (Coapa), que neste 27 de junho completa seus 20 anos de fundação e atuação da região centro-norte do Tocantins. Conforme o presidente da instituição, Ricardo Khouri (na foto abaixo), a Coapa já “surfou” por duas ondas, num processo de muita luta, disciplina, profissionalismo e pés no chão. Na próxima década, ela vai “surfar” numa terceira onda, conforme ele.

– Nós temos como meta continuar aperfeiçoando o trabalho. Mas temos, também, uma meta de crescer. Eu acho que todo o trabalho feito nessas duas décadas foi o de montar uma estrutura, um legado que não é simplesmente construções, armazéns, estrutura física. É uma filosofia de trabalho, é uma forma de organizar produtores rurais do ponto de vista social e econômico e que deu certo – diz Khouri ao ser questionado sobre quais são as metas da Coapa para os próximos anos.

Conforme ele, que presidente a Cooperativa desde a sua fundação, com a boa gestão e eficácia, conseguidos nos últimos 20 anos, agregou-se melhoria para o produtor.

36305868_2052208394852579_5250266046668996608_n– A partir de agora, deste 2018, nós temos muito claro em mente que precisamos crescer, porque com a estrutura que a Coapa tem hoje – inclusive em torno de 42 mil hectares em cultivo – a gente consegue partir para mais 100 mil hectares, agregando muito pouco em termos de custo – enfatiza ele.

Esses novos 100 mil hectares – dispersos em regiões vizinhas -, ele explica, podem acrescentar mais entre 250 mil e 280 mil toneladas de grãos até o ano de 2025.

A terceira onda

E é justamente com essa produção que a Coapa, segundo Khouri, estará apta a assumir uma “terceira onda”.

– A partir daí, nós estaremos aptos, muito bem preparados, para pensar na transformação desses grãos por nós mesmos. Aí eu estou falando em transformar a soja em farelo e óleo. E essa proteína, que compõe o farelo de soja, vamos convertê-la em proteína animal, com projetos de suinocultura e avicultura – anuncia.

Um projeto ousado, convenhamos. Mas ele é cauteloso e planejado, não tenhamos dúvidas.

– Dá para antecipar isto? Até acho que sim. Mas o mercado é altamente competitivo. As forças do mercado, as grandes tradings, ao perceberem esta movimentação da Coapa, vão entrar no mercado querendo os grãos e nós vamos vender os nossos grãos, assim os cooperados pensam. Mas tão logo nós tenhamos um volume robusto, a gente vai partir para esta terceira onda – aponta.

Na metáfora do Presidente da Coapa, a primeira onda da Coapa foi a sua implantação e a segunda a de sua solidificação, “com todos os erros e vários acertos”.

– E, hoje, nós temos um modelo. E eu não tenho receio de dizer: hoje nós temos um modelo que funciona, e funciona bem. A terceira fase agora,  depois destas duas décadas, é transformar nossos grãos em proteína animal. Eu acredito que a próxima década vai ser de muito crescimento, não só da Coapa, mas do Estado todo e a Coapa está aí para ser um instrumento de agroindustrialização – expressa.

Ou seja, o Tocantins poderá ter a primeira usina de esmagamento e beneficiamento de soja genuinamente de capital genuinamente tocantinense.

Na entrevista concedida a Cerrado Rural Agronegócios, Khouri fala também das principais conquistas da Coapa, atualmente, a maior de todo o Tocantins e do Norte do Brasil.

Conforme ele, a Cooperativa teve algumas conquistas que o corpo diretivo da instituição refuta como muito importante para os produtores que são filiados a Coapa.

– Mas é um conjunto. É como diz no jargão futebolístico: é o conjunto da obra que demonstra os nossos pontos fortes. Quando eu falo conjunto da obra é, numa ponta, a comercialização dos insumos, porque a Coapa, hoje, é totalmente profissionalizada. Ela fornece insumos a preços altamente competitivos; ela consegue originar soja, ela consegue financiar, ainda que parcialmente, a lavoura de seus cooperados e ela tem um armazém dotado de uma infraestrutura que é que há de mais moderno no estado do Tocantins – discorre.

Khouri diz ainda que a atuação da Coapa é muito forte, também, na comercialização dos grãos produzidos por seus cooperados.

Recepção do milho safrinha (Foto: Antônio Oliveira/Cerrado Rural Agronegócios)
Recepção do milho safrinha (Foto: Antônio Oliveira/Cerrado Rural Agronegócios)

– Isto vale para a soja, milho, sorgo, que são nosso carro-chefe. Então, quando eu falo sobre o conjunto da obra, é isto. Hoje ela está absolutamente preparada para dar todo e qualquer atendimento que o cooperado precisar, em condições até mesmo mais favoráveis que o mercado lá fora oferece para um produtor que está solto, livre no mercado. A Coapa, hoje, está muito próxima de conquistar a excelência no atendimento ao cooperado. Esta é a nossa grande vitória, nestas duas décadas – aponta.

E como é fazer cooperativismo numa região, ou num Estado, sem tradição de cooperativismo? Indagou este repórter.

– Muito se fala nisto e é uma verdade, é um fato, e contra fatos fica difícil contestar. Mas não nos damos por vencidos. Não só eu, não é um mérito meu, como presidente da Coapa, é mérito de toda uma coletividade, que fomos até as regiões onde se pratica um cooperativismo socialmente e economicamente viáveis e tentamos transportar aqui para o Tocantins, mais precisamente para nossa região de produção, um cooperativismo com as mesmas bases filosóficas das que atuam perfeitamente em outras partes do Brasil – diz.

Neste contexto, Ricardo Khouri destacou a profissionalização de uma equipe.

– Ou seja, não são os cooperados que fazem, é um corpo diretivo contratado, altamente eficaz, que faz as operações. É um modus operandis, é um estatuto moderno que privilegia o cooperado que trabalha para a cooperativa e muita educação cooperativista – esclarece.

Complexo recebido do Governo do Tocantins foi todo reformado e ampliado (Foto: Antônio Oliveira)
Complexo recebido do Governo do Tocantins foi todo reformado e ampliado (Foto: Antônio Oliveira)

Resiliência e perseverança

O Presidente destacou dois termos nesta sua linha de raciocínio:

– O primeiro dele é resiliência e o segundo perseverança. Resiliência e perseverança, apesar de a linha que sapara uma da outra, muitas vezes não ser tão nítida para algumas pessoas, mas nós tivemos essas duas, vamos colocar assim, essas duas virtudes, se assim podemos chamar. E, hoje, não há aquela necessidade, não tem mais aquela sensação de estar dando murro em ponta de faca, porque os próprios produtores rurais, ao observarem o trabalho da Coapa e acreditarem no trabalho dela, que tem credibilidade envolvida nisto ai, eles chegam, se associam e já passam a jogar junto – comenta.

Mas o começo, comenta ainda o Presidente, na primeira década foi de muita perseverança.

– Mas eu acredito que a gente tem que buscar o modelo nosso. Nós temos um modelo a ser implantado na região Norte também, acho que a gente descobriu a metade dele, e acho que a gente está aí para quem quiser ver e compartilhar a experiência da Coapa – comemora.

Khouri foi convidado por nós a fazer um paralelo entre o desenvolvimento do agronegócio do Tocantins e o desenvolvimento da Coapa nestes últimos 20 anos

– Eu acho que eles estão intimamente ligados e eu explico porquê: em 1996, com a implantação do Prodecer aqui, nós tínhamos alguma coisa de cultivo de soja no Estado, mas um cultivo ainda incipiente. Com a implantação do Prodecer, de cara nós incorporamos 20 mil hectares à área plantada já existente no Estado, mas bem menor que a que abrimos. A partir daí, da safra 1996/1997, a cada safra que vinha se sucedendo, havia um aumento da área plantada e dos níveis de produtividade –  muito mais de área plantada, pois o nível de produtividade oscilava muito em função de áreas novas sendo incorporadas – afirma.

Ele lembra também que o índice de crescimento de novas áreas cultivadas no Tocantins era muito superior a média nacional de crescimento.

– Então, eu acho que a implantação das lavouras de soja aqui no município de Pedro Afonso, que começou com o Prodecer e depois continuou com o trabalho da Coapa,  serviu por dois aspectos: mostrar aos produtores de outras regiões do país, que tinham a intenção de migrar de seu local de origem, do Sul e Sudeste do país, Mato Grosso, Centro-Oeste, para cá, que o Tocantins é viável, que eles não iriam aventurar, que aqui tinham um grupo que  já  plantava soja com produtividade competitiva e  a logística que existia era razoável  e estava chegando a Ferrovia Norte-Sul, a logística iria melhorar – aponta.

Toda esta epopeia, conforme Khouri, serviu para que o Tocantins fosse promovido Brasil a fora.

– Então, a gente acredita que fizemos muito o papel de promover o Estado. No início, talvez até de forma inconsciente, mas hoje temos a certeza que nós o ajudamos a se promover. Eu acho que o pontapé inicial foi dado em 1996 com a incorporação ao processo produtivo desses 20 mil hectares de soja, dos sócios fundadores da Coapa e do Prodecer – diz ele.

Em seguida Ricardo Khouri faz um diferencial entre as vantagens dos produtores que permanecem ou decidem ficar na individualidade, em termos de produção e de comércio, e os que trabalham à luz do cooperativismo.

– Eu acredito que tem aí dois aspectos que eu gostaria de destacar. O primeiro dele é que um produtor abrigado por uma cooperativa, minimiza os seus riscos, porque uma cooperativa nada mais é que uma protetora.  As boas cooperativas fazem uma blindagem do produtor rural, com assessoramento técnico, boa capacidade de articulação e negociação junto a bancos, governo do Estado – não que o Governo o Estado influa diretamente no processo produtivo, mas dele você sempre está precisando de uma energia elétrica, de uma estrada, enfim. Então, um aspecto é este de abrigar melhor o produtor e a diminuir riscos, porque a atividade por si só é muito arriscado – explica.

Já o outro aspecto, continua Khouri, é o ganho de escala.

– Seguramente, hoje podemos afirmar que a gente consegue níveis de preços nas nossas commodities,  em média algo entre 5% e 7% a mais do que em outras regiões produtoras no estado do Tocantins. E nós, por atuarmos no ciclo todo, do fornecimento de insumos ao recebimento da produção e comercialização, conseguimos deixar o nosso produtor destravado. Ou seja, ele deposita a sua produção num armazém em que ele é um dos proprietários. Então, no momento de se efetuar a venda, ele joga com o mercado porque o departamento comercial da Coapa, que também já é profissionalizado, vai procurar uma melhor performance, vai conseguir precificar melhor a soja. E isto vale também para os outros produtos – acrescenta.

Descarregamento de milho no armazém da Coapa (Foto: Antônio Oliveira/Cerrado Rural)
Descarregamento de milho no armazém da Coapa (Foto: Antônio Oliveira/Cerrado Rural)

Khouri diz ainda acreditar que, hoje, o produtor abrigado na cooperativa tem condições de competir em situação de igualdade com quaisquer outros produtores do país.

Para nós que acompanhamos o crescimento da Coapa desde 2003, reportando safra boa, safra ruim; preços bons, preços ruins; governos sensíveis, governos alheios ao processo produtivo rural, só podemos é acreditar nos bons acordes desta orquestra chamada Coapa, regida pelo maestro Khouri.