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ESPECIAL PEDRO AFONSO – Pioneira na produção de grãos no Tocantins, não pára de crescer

Por Antônio Oliveira

Desbravada pelo Prodecer III, região teve seus altos e baixos, mas se consolidou por meio da produção de grãos e a indústria sucroalcooleira. Ainda vai crescer muito mais graças a sua disponibilidade de terras, tecnologias e produtores mais experientes. Neste contexto, está a Cooperativa Agroindustrial do Tocantins (Coapa), criada para substituir outra que fora criada para congregar os produtores do nascente Prodecer III e hoje uma das melhores e mais premiadas no estado do Tocantins. Cerrado Rural voltou a região para reportar seu atual estágio de desenvolvimento. Nesta volta,  encontrou e entrevistou um dos seus pioneiros, o presidente da instituição, Ricardo Khouri. Por mais de meia hora falamos sobre o desenvolvimento desta região.

Ricardo Khouri: "O futuro promete muito para o agro em Pedro Afonso (foto: Jornal Centro Norte)
Ricardo Khouri: “O futuro promete muito para o agro em Pedro Afonso (foto: Jornal Centro Norte)

A Cooperativa Agroindustrial do Tocantins (Coapa) completou, no dia 27 de julho, seus 17 anos de criação. Na definição de sua atual administração, a entidade surgiu de “um momento de profunda união entre homens e mulheres determinados e orientandos por um mesmo ideal de lealdade ao cooperativismo e, sobretudo, de um forte sentimento de unidade entre companheiros”.

Esta união se deu diante da necessidade de organização e desenvolvimento dos produtores rurais integrantes do Prodecer III – Programa de Cooperação Nipo-Brasileiro para o Desenvolvimento do Cerrado -, e, ainda, em consequência da falência da cooperativa criada anteriormente para agregar os colonos  desta etapa do Prodecer, com a Coapa assumindo suas funções.

“Estes dezessete anos de vida da nossa Cooperativa nos levam a uma série de reflexões. Foram muitas conquistas nas áreas social, econômica e ambiental – de integração entre elas. Mas também tivemos momentos em que nos fragilizamos, principalmente nos momentos em que a recessão econômica, com os preços de commodities, como a soja, lá em baixo e alguns problemas de infraestrutura”, reflete o presidente da Coapa, Ricardo Khouri, em entrevista exclusiva à Cerrado Rural – site e impresso. Continuando sua reflexão, Khouri diz que, num balanço geral, “houveram muito mais conquistas do que decepções e hoje somos uma cooperativa consolidada”.

Perspectivas de futuro neste novo contexto em que Tocantins se tornou o principal polo de agronegócio na região do Matopiba? O Presidente da Coapa diz ver com bastante otimismo o futuro deste território agrícola. De acordo com ele, “nenhuma outra região do país reúne condições tão favoráveis para a expansão das lavouras de grãos como a região do Matopiba”, analisou.

Ainda conforme o dirigente cooperativista, este novo contexto regional beneficia muito a Cooperativa que dirige, isto porque, explica, haverá considerável aumento da produção, abrindo espaço para mais uma esmagadora para transformar o grão em óleo e em farelo. Farelo que é transformado em proteína animal. “Eu vejo um horizonte daqui entre cinco e dez anos de muito avanço na agroindústria do Tocantins e do Matopiba como um todo”, acredita.

Mas ainda haverá gargalos a serem resolvidos, ressalva Ricardo Khouri. E entre esses gargalos, segundo ele, está o acesso às tecnologias, falta de atuação prática das unidades de pesquisa da Embrapa em cada um dos nichos de produção da região.  Entretanto, emenda, “nós temos produtores tão bons e tão competentes quanto os produtores do Sul e Sudeste do Brasil. Com mais apoio, daremos um salto na produção primária com reflexos na agroindústria, colocando o Tocantins em posição de destaque no cenário do Matopiba e do Brasil”, apontou.

Pedro Afonso hoje

Nesta entrevista, Ricardo Khouri falou também sobre o atual contexto o agronegócio no Tocantins e no Matopiba.

 – Está em conclusão, no município de Porto Nacional, região central do Tocantins, a primeira esmagadora de soja do Estado para a extração de óleo e farelo. Esta unidade deve absorver a produção das regiões central e sul do Tocantins. Haveria possibilidade da região entre Pedro Afonso e Campos lindos atender a demanda de outra esmagadora que poderia ser construída neste circuito? – questionou  Cerrado Rural.

A soja ainda é o grande carro-chefe da região de Pedro Afonso (Foto: divulgação)
A soja ainda é o grande carro-chefe da região de Pedro Afonso (Foto: divulgação)

Khouri disse acreditar que sim. De acordo com ele, a produção da região entre Pedro Afonso e Campos Lindos está em torno de 250 mil toneladas de soja, havendo espaço para produzir ainda mais, de forma que tanto teremos produção para atender a demanda interna, quanto para exportar in natura  aos mercados externos. Ele lembra que o mercado não culmina apenas na agroindustrialização regional. “Não! Há países que preferem comprar o grão para ser beneficiado em seu pais, gerando empregos e renda para sua população. Mas, enfim, se exportamos 125 mil toneladas de soja, ainda teremos, 125 mil toneladas para serem processadas na própria região”, observou.

No contexto geral, lembra anda Ricardo Khouri, “o Tocantins produz 4 milhões de toneladas de graos. Em tese, não contando com a quantidade a ser exportada, digamos 50% da produção, ainda teremos 2 milhões de toneladas, o suficiente para abastecer quatro esmagadoras. Isto é questão de oportunidade e de contexto logístico”, apontou.

Instado a fazer uma análise do atual momento do agronegócio da região de Pedro Afonso diante da nova realidade do Tocantins e do Matopiba, Ricardo Khouri comentou que a região de Pedro Afonso não pode errar mais, “pois já saiu da fase infantil, de engatinhar. Já está saindo da adolescência para a fase adulta. Claro que ainda tem muito o que caminhar, mas já somos uma região de muitas conquistas, de muitas produtividades, muitas vezes superando a média de regiões tradicionais, com maturidade. Temos ainda, em relação há anos atrás, melhor desenvolvimento regional, melhor mão-de-obra e uma melhor logística para escoar a nossa produção”, pontuou.

Contudo, ainda de acordo com ele, anda há gargalos a serem resolvidos, principalmente na área da logística. “Mas são problemas que, num impulso, num curto espaço de tempo, a gente, conjuntamente com o poder público resolve”, apontou.

Pedro Afonso e o Matopiba

Khouri diz ainda que Pedro Afonso e região, dentro do contexto do Matopiba, têm um agronegócio “pujante, com consciência socioambiental e, mais importante, capaz de andar com suas próprias pernas, sem precisar de nenhum intervencionismo governamental, nem por parte do governo federal, do estadual e do  municipal. Ao contrário, o agronegócio que praticamos aqui tem mais condições de oferecer do que pedir. Claro que o poder público tem que fazer a parte que lhe cabe”, considera.

– Com sua experiência de produtor rural pioneiro nesta região, como o senhor ver a inserção dela no Matopiba? – questionamos.

“Eu acredito que Pedro Afonso e região tem uma importância muito grande e eu fundamento essa crença na sua agricultura altamente tecnológica, em termos de equipamentos e sistema de produção. Se é que, juntamente com as regiões de Lagoa da Confusão e Formoso do Araguaia, já praticávamos uma agricultura de ponta, abrindo o Estado para o agronegócio. Isto não era divulgado. No Projeto Rio Formoso (Lagoa e Formoso do Araguaia), se tinha a tecnologia para o cultivo do arroz e aqui em Pedro Afonso, com o Prodecer III, o plantio da soja”, assegurou o líder cooperativista.

Hidrovia Tocantins

Ainda de acordo com ele, as tradings entraram no Tocantins por meio de Pedro Afonso. “Enfim, esta região tem uma importância estratégica muito grande porque foi o embrião do desenvolvimento do agronegócio no Tocantins. E digo mais: Pedro Afonso terá uma importância muito grande no processo da implantação da Hidrovia do Rio Tocantins”, disse, explicando em seguida: “Por que? Porque boa parte da produção de grãos no Estado está aqui – região compreendida entre Pedro Afonso e Campos Lindos – e pode acessar as barcaças pela unidade armazenadora da nossa Cooperativa”, enfatizou.

hidrovia do Rio Tocantins dará sua grande contribuição ao agro na região de Pedro Afonso (Foto: Arquivo)
hidrovia do Rio Tocantins dará sua grande contribuição ao agro na região de Pedro Afonso (Foto: Arquivo)

Para Ricardo Khouri, cada vez mais essa hidrovia se aproxima da realidade. “A ministra da Agricultura, Kátia Abreu, tem uma estratégia de viabilização desse modal e, com isto, vejo muitas lideranças nacionais defendendo essa hidrovia”, apontou.

Porém, asseverou Khouri, para que se tenha este projeto funcionando é necessário resolver alguns gargalos em seu caminho. “Caminho que nos leva ao Porto de Vila do Conde. É a falta de uma eclusa. Mas acredito que isto, a médio e longo prazos, deve ser resolvido, basta que haja vontade política para isto. Enfim, voltando a sua pergunta, a região de Pedro Afonso é estratégica para o Tocantins  e o Matopiba”, enfatizou.

Diversificação de culturas

– Outrora com o monopólio da soja e, de alguns anos para cá, com a cana-de-açúcar e seu processamento aqui mesmo em Pedro Afonso. Como está hoje o processo de diversificação de culturas na região de Pedro Afonso? – voltamos a questionar o Presidente da Coapa.

Silvicultura é outra matriz produtiva que vai bem na região de Pedro Afonso (Foto: Antônio Oliveira)
Silvicultura é outra matriz produtiva que vai bem na região de Pedro Afonso (Foto: Antônio Oliveira)

De acordo com Ricardo Khouri, há, hoje, na região algumas realidades consolidadas, que são a dobradinha safra/safrinha, onde se deram maior ênfase para a soja e o milho. “Nós temos ainda uma produção significativa de sorgo que pode atender aos projetos de confinamento e aos projetos granjeiros e industriais de frango e suíno na região Norte do país e ao próprio norte do Tocantins. Temos também a produção bem avançada de gado confinado, uma cultura que vai avançar muito na região. E essa diversificação não pára por aqui. Temos ainda  a integração lavoura-pecuária, naquele processo clássico, ou partindo para cria, recria e engorda de bovinos, e, ainda, a Silvicultura. Enfim, nós temos de grãos ao bovino”, informou.

Ricardo Khouri aposta ainda em outras culturas na região: a suinocultura e a avicultura. “Temos matéria-prima para estas culturas, que é o farelo da soja, o sorgo e o milho”, acrescentou. “Temos ainda a fruticultura, ainda embrionária, mas que promete muito nas culturas de abacaxi e melancia. Então, não só em Pedro Afonso, mas em todo o Tocantins, o futuro é a diversificação de produtos: grãos, frutas, carnes bovina, suína e de frango, etc.”, apontou, emendando que não se pode esquecer que o Tocantins tem um dos maiores potenciais para irrigação no Brasil.

Agricultura empresarial e agricultura familiar

– E a relação institucional e comercial entre agricultura empresarial e agricultura familiar, como estar no âmbito do cooperativismo praticado pela Coapa? – perguntamos.

“Eu diria a você, Antônio Oliveira, que nós não temos este trauma, esta batalha ideológica. Existe um entendimento dentro da Coapa de que tanto são necessárias políticas agrícolas mais adequadas para o agricultor empresarial, quanto para o familiar”, justificou.

Ainda sob este prisma, Khouri enfatizou que o agronegócio, a agricultura empresarial também é familiar. “Todos nós que a fazemos temos família e, muitas vezes, trabalhando na nossa propriedade”. Khouri observa que claro que os negócios de uma e de outra devem ser tratados de forma diferente. “Uma comercializam commodities, a outra produtos do dia a dia, como o frango, a fruta, etc.”

Ricardo Khouri disse ainda acreditar que essa polaridade é mais coisa mais de “tecnocratas” do que de produtores rurais. Mentalidade que acaba prejudicando alguns nichos de produtores”.

Por fim, ainda dentro dessa questão, o Presidente da Coapa, informou que dentro da Coopa esta questão é tratada de uma forma muito clara: “tratamento adequado e respeitoso a cada uma destas duas categorias”.

Cana-de-açucar x grãos

A indústria sucroalcooleira deu grande impulso ao agro na região (Foto: Antônio Oliveira)
A indústria sucroalcooleira deu grande impulso ao agro na região (Foto: Antônio Oliveira)

– No início, maioria dos produtores de grãos da região de Pedro Afonso temia a implantação da cultura e indústrias canavieiras na região. Temia-se que o grão perderia espaço para a cana. A usina está aí, há quase dez anos, consolidada. E aí, o que mudou para os produtores de grãos? – procuramos saber.

“Muito boa sua pergunta, porque ela me dar a oportunidade de retornar um pouquinho mais atrás, quando você me falava de diversificação. Nós temos aí uma multinacional com uma usina de ponta, com grande capacidade de produção. Isto também contribuiu para a nossa diversificação, pois temos produtores de grãos plantando também cana para fornecer para à usina.”

Ricardo Khouri disse ainda que, com a implantação desta indústria sucroalcooleira ocorreu um fenômeno na região. “Em função dela,  uma área com 25 mil hectares que era de soja migrarou para a cana. Isto porque, ou a usina comprou áreas que era de soja ou os produtores desta passaram a dividir suas áreas entre soja e cana. E mais áreas foram se abrindo para a cana. Contudo, depois de algum tempo, a soja voltou a ganhar terreno, a aumentar a sua produção”, informou.

Isto se deu, segundo Ricardo Khouri, porque os produtores que arrendaram suas terras para a produção de cana ou a plantava para fornecer para a Bunge, trataram depois de abrir outras áreas para grãos. Isto se deu, também,  porque  depois da crise econômica que desceu o preço da soja, houve a recuperação com a grande demanda dos tigres asiáticos por grãos para alimentar a produção de frangos e suínos. Enfim, a usina só contribuiu, positivamente, com a cadeia produtiva dos grãos na nossa região,” pontuou.

Ferrovia Norte-Sul

Por fim, encerrando esta entrevista, Cerrado Rural abordou a questão da Ferrovia Norte-Sul que, praticamente, passa nos fundos das áreas de produção de Pedro Afonso, mas seus produtores têm que percorrer, por meio rodoviário, entre 180 e 200 quilômetros para tombar a soja no Pátio Multimodal de Palmeirante, no norte do Tocantins.

Ferrovia Norte-Sul passando "no funo do quintal", mas sem acesso aos produtores da região (Foto: Antônio Oliveira)
Ferrovia Norte-Sul passando “no funo do quintal”, mas sem acesso aos produtores da região (Foto: Antônio Oliveira)

Ricardo Khouri comentou que a Ferrovia Norte-Sul é de fundamental importância para o Tocantins. “Sem ela, não teríamos este crescimento das áreas plantadas com grãos no Estado. Claro que muitos produtores aqui estão atraídos por esta ferrovia”, disse ele.

Mas ainda há gargalos entre a porteira e o escoamento da produção via esta Ferrovia. Regiões de todo o Estado estão sendo ocupadas para a produção de grãos e todas elas deveriam ter um melhor acesso a este canal de escoamento, defende Khouri.

No caso de Pedro Afonso, ele informou que está sendo construído, às margens da Norte-Sul, em Tupirama, a poucos quilômetros de Pedro Afonso, uma plataforma de exportação de etanol produzido pela Bunge. Ainda conforme ele, a alegação para não se construir neste mesmo espaço uma plataforma para o embarque de grãos é a de que, por ser o etanol um produto inflamável, deve ter uma plataforma exclusiva.

“Por que, então, não construir outra plataforma para grão aqui, mas, obedecendo aqueles critérios de segurança,  afastando-o do terminal da Bungue?”, questionou concluindo a entrevista.