O babaçu é uma forte geradora de emprego e rendas no sul do Maranhão, Pará e Piauí  e no norte do Tocantins (Foto: Divulgação)
O babaçu é uma forte geradora de emprego e rendas no sul do Maranhão, Pará e Piauí e no norte do Tocantins (Foto: Divulgação)

*Da Agência Embrapa de Notícias

Adoção de máquina para desflocular o coco de babaçu, destinação do óleo de acordo com a acidez e modernização de equipamentos fabris. Essas foram algumas recomendações feitas por pesquisadores da Embrapa que elaboraram um diagnóstico analítico para a cadeia do babaçu. O trabalho contribui para a conservação da biodiversidade do Médio Mearim, na região dos Cocais, no Maranhão, e para a melhoria da qualidade de vida de comunidades tradicionais que lá habitam.

O Babaçu é uma palmeira de grande importância comercial, pois de seu coco se extrai óleo, farinha de mesocarpo e sabonete, produtos cujos processos de industrialização foram analisados pelos cientistas.

– É cada vez mais necessário avançarmos em pesquisa, validação e adoção de tecnologias para a conservação da biodiversidade, gerando renda para as populações vulneráveis com sustentabilidade. Por isso, estamos trabalhando para agregar valor a um produto do extrativismo, como o babaçu – conta Sérgio Cenci, pesquisador da Embrapa Agroindústria de Alimentos (RJ), ressaltando que as unidades de processamento são ligadas à Associação em Áreas de Assentamento no Estado do Maranhão (Assema).

O trabalho é desenvolvido em conjunto com órgãos governamentais e da sociedade civil. As ações integram o projeto Bem Diverso, liderado pelo pesquisador Aldicir Scariot, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia (DF), voltado ao manejo sustentável da biodiversidade brasileira, com financiamento do Fundo Mundial para o Meio Ambiente (GEF) e gestão pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

Sabonete de babaçu deve ter menos acidez

Em análise realizada no Laboratório de Óleos Graxos da Embrapa Agroindústria de Alimentos, sob a responsabilidade da pesquisadora Rosemar Antoniassi, as amostras de óleo de babaçu coletadas no Médio Mearim apresentaram até 1% de acidez, índice elevado para esse tipo de óleo, apesar de aceito pelas normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

– A acidez se origina do fracionamento das amêndoas após a colheita e quebra do coco, aliada à alta umidade do clima da região, ativando enzimas que liberam ácidos graxos no óleo – explica a pesquisadora.

Para minimizar esse dano, ela recomenda que após a colheita, os cocos sejam quebrados o mais rápido possível e as amêndoas, secas rapidamente. Caso isso não seja possível, que pelo menos sejam separadas as amêndoas quebradas daquelas intactas para a extração de óleo.

Controle da acidez é importante

– O óleo de babaçu é muito similar ao óleo de coco, e há uma grande demanda de mercado. Para isso, é preciso seguir as boas práticas de fabricação para que o produto possa ser direcionado para a alimentação de forma segura – diz Rosemar.

Por enquanto, os óleos com elevada acidez são recomendados para fabricação de sabões e sabonetes.

A pesquisadora também realizou análises no sabonete com óleo de babaçu, produzido de forma artesanal pela Associação de Mulheres Trabalhadoras Rurais de Lago do Junco e Lago dos Rodrigues (AMTR). A análise laboratorial indicou variação no nível de saponificação do óleo e na concentração de soda utilizada. Apesar de também estar próximo do valor indicado pela Anvisa, ela sugere um controle maior na determinação do pH do sabonete, para que não provoque irritação na pele de pessoas sensíveis, como bebês e idosos. Por isso, é recomendável pesar o óleo, determinar a concentração da soda a ser utilizada e calcular a quantidade necessária do ingrediente para a solução.

Modernização de equipamentos

Em relação às instalações da fábrica de sabonete, verificou-se que os equipamentos atuais são antiquados, de manutenção difícil e pouco eficientes. Além disso, comprometem a segurança das operadoras. A recomendação da equipe da Embrapa passa pela modernização da linha de processamento, o que deve gerar impactos positivos na qualidade do produto e na segurança das operações.

Paralelamente, também está sendo desenvolvida uma ração animal com torta de babaçu, em ação liderada pelo pesquisador Joaquim Costa, da Embrapa Cocais, em parceria com o Instituto Federal do Maranhão (IFMS). Trata-se de uma iniciativa que agregará valor a um subproduto do processamento do óleo e contribuirá para gerar renda e diminuir a dependência de insumos de outras regiões na elaboração do produto.

Fábrica de farinha de babaçu

A fábrica de farinha de mesocarpo de babaçu analisada pela equipe da Embrapa pertence à Cooperativa dos Pequenos Produtores Agroextrativistas de Esperantinópolis (Coopaesp). A instituição reúne 80 cooperados e é associada à Assema. Todo o processamento, desde a extração à embalagem do produto, é feito por cooperados e seus parceiros. Atualmente, a Coopaesp produz e comercializa 8,5 toneladas de farinha de mesocarpo por ano.

Durante o trabalho, foram avaliadas instalações, equipamentos e o fluxo de entrada e saída de produto e pessoal. Foram observadas as etapas de recepção, seleção, peneiramento e embalagem e expedição, operação da fornalha e do equipamento de secagem, bem como a operação de higiene e limpeza das instalações e equipamentos. Também foram avaliados aspectos comportamentais que ocorrem durante o processamento.

Os especialistas da Embrapa fizeram uma série de recomendações, entre elas a necessidade da utilização de máquina para desflocular os cocos de babaçu, descascados manualmente.

– A utilização do equipamento contempla uma das etapas mais sacrificantes do ponto de vista do relato das mulheres da cooperativa. Para a retirada manual dos flocos é necessário esforço físico intenso, com consequências de dores musculares nos braços ao final do processo –  explica Roberto Machado, analista da área de Transferência de Tecnologia da Embrapa Agroindústria de Alimentos.

A recomendação da utilização de equipamento, em desenvolvimento na Embrapa Cocais, justifica-se, portanto, por questões ergonômicas, de eficiência do processo e da otimização do tempo para as operadoras se concentrarem tanto nas demais etapas já realizadas, como nas recomendadas como ações de melhoria na higienização das instalações.

– Não foram recomendados equipamentos para a atividade de descasque, por ser um momento importante para a convivência social das quebradeiras. Quando as trabalhadoras se reúnem para esse trabalho, elas trocam ideias e repassam seus conhecimentos – completa Roberto Machado.

Protótipo de máquina para desflocular

Já existe em operação um protótipo para desflocular o coco após o descascamento desenvolvido pelo pesquisador José Frazão, da Embrapa Cocais, em Itapecuru Mirim, no Maranhão.

Outra recomendação dos especialistas foi com relação aos rótulos das embalagens da farinha de mesocarpo, para atender as exigências dos órgãos de regulamentação, a partir de análises físico-químicas de composição nutricional realizadas na Embrapa Agroindústria de Alimentos.

– Essa farinha rica em amido é muito utilizada para a elaboração de mingaus e achocolatado. Há uma demanda de mercado em todo o território nacional que está começando a ser atendida – conta André Dutra, analista da área de Transferência de Tecnologia da Embrapa Agroindústria de Alimentos.

(Foto:  Embrapa)
(Foto: Embrapa)

O babaçu

O babaçu é utilizado há muito tempo por comunidades tradicionais na região da transição entre Amazônia, Cerrado e Nordeste Semiárido, sendo atualmente relevante fonte de renda para mais 300 mil famílias agroextrativistas nos estados do Maranhão, Piauí, Tocantins e Pará.

A quebra manual do coco, para retirada da amêndoa, é realizada principalmente pelas mulheres da região, que comercializam o produto em centenas de povoados, sendo destinado à produção de óleo em indústrias da região. Os frutos do babaçu são também aproveitados integralmente pelas comunidades locais que dele produzem azeite, sabão, farinha e carvão.

*Com edição de Cerrado Rural Agronegócios