Por Antônio Oliveira

– Caso fosse uma matéria de opinião seria menos mal, porém não é o caso.  O Jornal de grande circulação apresenta informações na qual induz o leitor a interpretações totalmente equivocadas sobre o comportamento das tilápias, atribuindo a elas características totalmente improváveis – a reação é do Professor Doutor Ricardo Pereira Ribeiro, professor associado da Universidade Estadual de Maringá/Piscicultura (UEM), à matéria veiculada nesta quarta-feira, 29, pelo jornal paulista Folha de São Paulo.

Sob o título “Tilápia avança na Amazônia e gera preocupação sobre impacto ambiental”, o autor da matéria anuncia que “No Peru, a espécie de origem africana dizimou a fauna de uma lagoa”, ouve duas fontes do Tocantins e ainda publicou opiniões de leigos ao assunto sem ouvir técnicos e pesquisadores no tema.

A tilápia é tratada com viés ideológico por alguns formadores de opinião (Foto: Antônio Oliveira/Cerrado Rural Agronegócios)
A tilápia é tratada com viés ideológico por alguns formadores de opinião (Foto: Antônio Oliveira/Cerrado Rural Agronegócios)

Um desses leigos foi o governador de San Martín (Peru), Pedro Bogarin, que debocha da espécie tilápia. Conforme ele, “é impossível controlar. A tilápia é tão maldita que não sei se voa ou se vai por debaixo da terra, mas é encontrada fora dos tanques. Encontramos tilápias grandes nos rios e, para chegar a este tamanho, comeram ovas de outros peixes. É um erro gravíssimo que estão cometendo”, disse ao repórter.

O profissional da Folha narra também o sumiço de peixes nativos da Lagoa Azul, na região de Sauce, no Peru, insinuando e ouvindo opiniões de que foram as tilápias quem deram fim nas espécies regionais.

– Porém,  é importante informar a todos que essa Lagoa é, hoje, uma lagoa urbana. Localiza-se em suas margens o distrito de Sauce, a qual pelo que consta, apesar de ser um pequeno distrito, não possui sistema de tratamento de esgoto – relata Ricardo Pereira Ribeiro.

Ainda conforme o Prof. Doutor, “a Lagoa Azul trata-se, portanto de uma lagoa urbana. No meio científico, já consta plenamente comprovado que em ambientes aquáticos impactados por resíduos urbanos, ou como este ambiente que estamos tratando, lagoas urbanizadas, há uma alteração significativa das condições limnológicas dos seus parâmetros de qualidade de água, especialmente quanto ao volume de nutrientes disponíveis na coluna d´água destes ambientes, consequentemente, provocando alterações nas relações e biovolumes e diversidade em todas a comunidades aquáticas que compõem este ambiente. A tilápia do Nilo se adapta bem nestes ambientes já impactados.”

– Também a literatura especializada apresenta vários casos de reservatórios onde a tilápia do Nilo apresentou um crescimento populacional exponencial (Minte-Veras, Petrere Jr. 2002; Agostinho et al. 2007). Minte-Veras  trabalhou na Represa Billings em São Paulo e afirmou o seguinte sobre a tilápia: “Neste reservatório a Tilápia do Nilo está em processo de naturalização”. “No Nordeste do Brasil as tilápias são dominantes em pequenos reservatórios. Porém, na bacia do Paraná, as tilápias não são comuns (Agostinho e Petrere, 1993)”. Segue afirmando que em reservatórios urbanos há altas incidências de tilápias e isto se deve a uma combinação de fatores como: alto potencial reprodutivo, capacidade de consumir o plâncton do reservatório, alta resistência a baixa concentração de oxigênio dissolvido, tolerância a contaminantes químicos e baixa pressão de predação, características comuns nestes tipos de reservatórios urbanos altamente impactados e praticamente vazios do ponto de vista ictiológico – explana Ricaro Pereira Ribeiro.

– Mais uma vez a informação tem duas vertentes, é importante conhecê-la de maneira completa e não parcialmente – expõe Ricardo Ribeiro.

E continua explicado:

Ricardo Pereira Ribeiro
Ricardo Pereira Ribeiro

– Os autores citam o trabalho de Bittencourt et al.(2014) como caso de sucesso da tilápia como invasora e colonizadora em um igarapé na região amazônica.  Porém este trabalho foi conduzido em uma lagoa deste igarapé, dentro do município de Macapá-AM, Brasil.  Portanto um igarapé urbano, rico em material orgânico de origem humana, e sem a presença dos grandes predadores nativos. Mais uma vez, ambientes impactados pela ação dos resíduos urbanos.  Desculpe a redundância.

– Indo na mão contrária ao que enaltece a tal matéria do Jornal, em um Seminário realizado no Perú, com o objetivo de discutir o Desenvolvimento da Aquicultura na Amazônia Continental, ainda em 2000, promovido pelo Instituto de Cooperación Interamericano para la Agricultura (IICA), uma de suas conclusões é a seguinte: “Deve-se autorizar novamente a criação da espécie tilápia nilótica, sendo necessário que se revogue a D.S. 002-91, por não ter sustentação técnica e já haver passado mais de nove anos de sua promulgação, já que a impossibilidade dos aquicultores de criarem a tilápia tenha causado um grande mal-estar social, por um lado e, por outro lado, os consumidores deixaram de ter acesso a um produto de alto valor nutritivo a um baixo custo.

“Ora bolas, elas devem fazer feitiçaria também.  Como se publica uma coisa dessas? Isso ao invés de informar, cria desinformação e controvérsia e repúdio sem direito de defesa”

– Assim mesmo, não há conhecimento de que o IICA, por encargo do Ministério da Indústria Pesqueira do Perú, tenha encontrado algum resultado de que a proibição da criação da tilápia tenha trazido algum benefício ambiental ou prevenido algum impacto, dando como resultado que esta espécie não tem causado impactos ambientais negativos no ecossistema da região.  Ao contrário disso, no caso da Selva Alta, esta espécie tem melhorado o ecossistema, já que nesta parte do país, com rios de baixo caudal e rápido fluxo, as populações de peixes são pobres, já como a variedade dos mesmos. Também outra razão para a suspensão, da proibição da criação da tilápia é o grande mercado de exportação … e continuam informando sobre a necessidade de introdução de novas linhas melhoradas.

– Desse modo a matéria publicada é tosca e desprovida de um mínimo de fundamentação técnico científica, vamos apresentar algumas pérolas da mesma, cita opiniões de ONG´s e não dão oportunidade de ouvir o outro lado e não se dão ao mínimo cuidado de verificar os dados científicos sobre o tema, o qual sem dúvidas gera controvérsias. Porém, é consenso entre cientistas sérios, precisa ser estudado apropriadamente e não apenas in vitro, pois aí as conclusões podem ser enviesadas para um lado ou para outro – aponta.

Segue Ricardo Pereira Ribeiro com sua opinião:

– A matéria pergunta a um leigo que diz: “É impossível controlar. A tilápia é tão maldita que não sei se voa ou vai por dentro da terra, mas é encontrada fora dos tanques. Encontramos tilápias grandes fora nos rios e, para chegar a esse tamanho, comeram ovas de outros peixes.  É um erro gravíssimo que estão cometendo”. Ora bolas, elas devem fazer feitiçaria também.  Como se publica uma coisa dessas? Isso ao invés de informar, cria desinformação e controvérsia e repúdio sem direito de defesa. Muito me choca um veículo de comunicação que se diz defensor da verdade de dos “direitos de todos – alfineta.

Após discorrer sobre estudos científicos, que o leitor pode ler na íntegra clicando aqui, Ricardo Pereira Ribeira, ataca:

– Gostaria de finalizar este texto demonstrando um descontentamento contra este tipo de abordagem unilateral da informação neste tempo em que se critica tanto aquilo que se denomina “Fake News” e muitos se intitulam defensores da verdade e muitas vezes não se preocupam em procurar fundamentar adequadamente as informações que divulgam e causam um grande mal a uma atividade e a um país inteiro que tenta se firmar no mercado internacional da produção de peixes.

Fontes da matéria contestam a matéria

Na sua reportagem, o repórter da Folha de São Paulo ouviu duas fontes do Tocantins, que estavam presentes ao evento. Um foi o presidente do Instituto Natureza do Tocantins (Naturatins), Marcelo Falcão. Na matéria consta que este disse que o Conselho Estadual do Meio Ambiente (Coema), só aprovou o cultivo de tilápia no estado, pressionado que foi por empresas estrangeiras.

Na prerrogativa de quem acompanhou todo este processo e achou estranha e pesada para os técnicos do Coema esta declaração, eu procurei o presidente do Naturatins, por meio da Secretaria da Comunicação Social do Estado. O Instituto me enviou a seguinte nota:

Marcelo Falcão
Marcelo Falcão

“Sobre a solicitação da Cerrado Editora (Cerrado Rural Agronegócios), referente a reportagem publicada pela Folha de São Paulo, o Instituto Natureza do Tocantins (Naturatins) informa que o presidente do órgão, Marcelo Falcão Soares, relata que parte de sua fala foi erroneamente interpretada pelo repórter no que se refere a uma suposta pressão de empresas estrangeiras para liberar o licenciamento para a produção de tilápia, no Tocantins.
O presidente do Naturatins informa ter relatado que após o Conselho Estadual do Meio Ambiente (Coema) liberar a produção de tilápias no Tocantins, houve um grande interesse de empresas nacionais e internacionais em investir nesta área no Estado.”

Estranho, também, foi a declaração, segundo o repórter da Folha, do chefe adjunto de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Pesca e Aquicultura, Eric Routledge. Este teria dito ao repórter que esta unidade da Embrapa não tem uma posição sobre a tilápia na região amazônica.

Como não? Se em 2016, o então chefe geral da unidade, Carlos da Rocha Magno, entregou para o então governador do Tocantins, Marcelo Miranda, um documento, elaborado pela unidade de pesquisa no Tocantins,  com o seu posicionamento em relação a introdução da tilápia no Tocantins? Este estado está incluído na Amazônia, também.

Diz um trecho deste documento:

“…No que tange à questão ambiental, os reservatórios não são considerados ambientes ideais para preservação, pois o impacto sofrido pelas barragens já comprometeu profundamente todo o ecossistema, particularmente as populações de peixes existentes antes do enchimento. Apesar de o cultivo de tilápias em reservatórios ser uma questão polêmica, estudos citados neste documento evidenciam que a espécie seria incapaz de se estabelecer nesses ambientes. Caso ocorram escapes, os indivíduos permanecem próximos às estruturas de cultivo, e isso ocasiona um impacto local pontual, embora também possam ser alvo de pescadores. Não foi encontrada nenhuma comprovação científica quanto ao fato de o nível de impacto da tilápia nos corpos hídricos do estado vir a ser maior do que o das espécies alóctones já introduzidas, ou se realmente haverá algum impacto. Com base nas informações levantadas, aparentemente esse impacto eventual seria inferior ao que é preconizado por algumas instituições…”

E conclui:

“Diante do exposto, a Embrapa Pesca e Aquicultura se posiciona favoravelmente ao cultivo de tilápias também em sistemas de tanques-rede em reservatórios do Estado do Tocantins, caso seja de interesse do governo estadual articular a atualização da legislação estadual para tal fim, visando ao fomento da atividade, desde que sejam observados os pontos citados nesta nota técnica. (negrito do documento)

Palmas, TO, 15 de setembro de 2016.”

Eu também procurei o pesquisador Eric Routledge. Este, por telefone, nesta noite de quinta-feira, 29, explicou que o documento supracitado foi elaborado por doze técnicos da Embrapa Pesca e Aquicultura. Um destes foi ele. Conforme ele, o repórter lhe fez quatro perguntas e  “pinçou” apenas parte de uma resposta sua, distorcendo-a. “Eu não disse que a Embrapa não tem uma posição sobre o cultivo de tilápia na Amazônia”.

Eric Routledge
Eric Routledge

– Quando um profissional da Embrapa fala, num caso deste, não fala apenas por ele, fala pela empresa, com embasamento científico. Eu disse que a nota técnica apresentada pela Embrapa, foi feita com base no Tocantins, não na Amazônia como um todo,  mas que este estado também está na  Amazônia. Disse ainda que, assim como deve ocorrer com as espécies nativas, a Embrapa defende o tripé sustentabilidade ambiental, social e econômica.