Vista de um vagão de passageiros dos trens da Vale, trecho Marabá a São Luis (foto: Vale)
Vista de um vagão de passageiros dos trens da Vale, trecho Marabá a São Luis (foto: Vale)

Há certas coisas que vêm de agentes públicos, de quem se espera um mínimo de visão de mundo e de Estado, que me deixa encafifado e, neste estado de espírito, vontade de procurar essa autoridade para um tête-à-tête para troca de ideias, ou lhes dizer umas poucas e boas. Nesta semana, tive vontade de procurar o ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas. Ele disse ao jornal O Estado de São Paulo que a Ferrovia Norte-Sul não deve servir para o transporte ferroviário de passageiros, mas somente cargas, porque não se trata de um projeto europeu, como o de Londres a Paris. Ele respondia a um pedido do Ministério Público, junto ao Tribunal de Contas da União (TCU), Júlio Marcelo de Oliveira, pleito que o ministro considerou como “meio quixotesca” e sem cabimento.

Ora, ministro, venha cá, disfarça, caiu um botão no chão. A Ferrovia, por enquanto, está com o trecho Açailândia, no Maranhão, a Anápolis, a 60 quilômetros de Goiânia, talvez o maior fornecedor de produtos diversos para o norte de Goiás, todo o Tocantins, Maranhão, Piauí e até o Amazonas, em operação. De Porto Nacional/Açailândia – quando se encontra com a estrada de ferro Carajás/São Luís, a Norte-Sul transporta combustíveis e grãos. Há muita demanda para isto, principalmente em grãos, uma vez que este trecho serve o Corredor Centro-Norte de Exportação, grande produtora de soja e milho nos cerrados do Tocantins, Maranhão, Piauí, além de uma parte do estado do Pará, que, naturalmente, logicamente, demandam demandam para o Porto de Itaqui, em São Luís.

Já trecho entre Porto Nacional e Anápolis não terá toda esta movimentação, isto porque, em termos de grãos, é impraticável levar a produção das regiões supracitadas para os portos do Sudeste do país – Santos e Paranaguá, principalmente.

Para o Vosso conhecimento, ministro, a demanda de passageiros por transporte rodoviário da região central do Tocantins para Brasília e Goiânia é muito grande, só de Palmas, com destino a capital do estado de Goiás, parte mais ou menos dez linhas de ônibus todos os dias, e os bagageiros destes sempre voltam sobrecarregados de mercadorias. Passagens e frete muito caros.

Ministro, a Vale, que é uma das interessadas em explorar o trecho Porto Nacional/                  Anápolis/Estrela do Oeste (SP), tanto explora o trecho da Ferrovia Carajás entre Marabá e São Luís para o transporte de minérios, quanto para o de passageiros, em uma região menos populosa e menos comercial que o trecho entre o centro do Tocantins a Anápolis. Naquele trecho, além de necessidade de transporte de passageiros com conforto, segurança e custo inferior ao transporte rodoviário, há a exploração turística.

É uma viagem surpreendente (Foto: Vale)
É uma viagem surpreendente (Foto: Vale)

Não é difícil imaginar, senhor ministro, o quanto o trecho da Norte-Sul, entre região central do Tocantins a Anápolis e, mais no futuro, até São Paulo, será social e economicamente viável em uso múltiplo – cargas pesadas e de passageiros com suas encomendas comerciais.

Isto posto, Excelência, grande abraço e reveja sua visão a respeito deste tema, o Centro-Norte do Tocantins lhe agradece.

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Agora somente com meus leitores:

Na entrevista ao “Estadão”, o ministro Tarcísio de Freitas chegou a debochar da possibilidade de exploração do trecho sul da Norte-Sul, via de regra de duas cidades na região de influência deste trechi:

– O Júlio Marcelo queria trem de passageiro lá, mas não tem demanda para isso. Ele imagina uma pessoa viajando, trabalhando em seu notebook e seu Wi-Fi, mas não estamos fazendo o trajeto de Londres a Paris. Na verdade, a gente está indo de Uruaçu (GO) a Porto Nacional (TO). Você já marcou uma festa com a sua família em Porto Nacional? Não? Eu também não. O que vai passar lá é carga, grão, líquido, fertilizante. É isso que temos de resolver, essa é a vocação da ferrovia.

O trecho Porto Nacional a Estrela do Oeste vai a leilão no próximo dia 28 de março. O Ministério Público vê que  “o edital dessa licitação, tal como está desenhada, favorece amplamente a empresa VLI e não acrescenta nada ao País”. A VLI é controlada pela Vale, em sociedade com as empresas Mitsui e Brookfield, com participação do fundo FI-FGTS.

O governo nega irregularidades no edital e atribui a acusação a uma posição pessoal do procurador. A VLI declarou que o processo tem ocorrido com toda a transparência e nega ter qualquer tipo de vantagem numa eventual disputa pelo empreendimento.

Antônio Oliveira

*Com informações do “Estadão”.