Home Entretenimento FOLHETIM – Os animais também amam, são felizes ou infelizes

FOLHETIM – Os animais também amam, são felizes ou infelizes

Por Antônio Oliveira

Muito se questiona sobre a vida dos animais: se eles têm alma ou espírito, inteligência, sentimentos. O grande pesquisador Italiano, Ernesto Bozzano, no seu livro “Os animais têm alma?”, evidencia que alma ou espírito, como os seres humanos, não! Mas há, movendo a vida deles, uma energia, um princípio vital, como se fosse a alma. Eles sentem, sofrem, amam, são felizes ou infelizes, e até têm aparições post-mortem, e comunicações, tipo telepática, com seus donos. Entre todos os animais, os mais sensíveis são os gatos, o cães e os equinos. São pesquisas científicas e este livro pode ser encontrado para venda – em versões impressa e virtual – na Internet.

Quando Marina*, nos seus 21 anos, recém saída da adolescência, entrou na vida de João Ricardo*, um quarentão, de uma forma que só a Espiritualidade – ou Deus – explica, ele tinha uma cadelinha Cocker Spaniel Inglês, de cor mel – este o seu nome -, e que logo ganhou todo o amor e os carinhos de Marina.

O tempo (não muito entre o casal de amigos) foi passando e os laços de amizade e afeição entre os três foram crescendo. Numa suave noite de lua cheia, com seus raios iluminando o quarto, Marina e Ricardo se amaram ao som do Bolero, de Ravel, clássico que, para os mais sensíveis e observadores, reflete, em seus acordes, o antes, o durante, e depois no legítimo ato de fazer amor. Tornou-se uma espécie de hino de amor para os dois. Nasceu, deste entrelaçar de corpos, um namoro e uma semente de amor, a ser cultivada.

Tempos depois, num passeio pela cidade com Ricardo, Marina se encantou por outro Cocker Spaniel preto, ainda juvenil, de linhagem americana, que lhe foi presenteado pelos seus antigos donos. Deram-lhe o nome de Russo, em homenagem ao então crooner da banda Legião Urbana, Renato Russo, que tanto curtiam.

O namoro evoluiu para um noivado e já moravam juntos, formando uma família de dois seres humanos e de dois animaizinhos travessos, fofos e queridos. Mais tarde, encontrararam, numa rua, um filhote de um cãozinho vira-latas. Por insistência de Marina, os levaram para casa e lhe deram um lar, amor.

(Fotos: divulgação. Montagem: Antônio Oliveira)

Num sábado à noite, após uma pamonharia e um cinema, chegaram em casa e encontraram o pequeno vira-latas passando mal, à beira da morte. Marina, aos prantos, quase desfalecida de dor, abraçou o animalzinho, rogando a Deus que ele não morresse. Ricardo a levou para o quarto e a fez dormir para não sofrer mais. Sabia ele que o animal não duraria muitas horas. E foi o que ocorreu: acordou bem mais cedo do que era normal aos domingos para fazer o que a sua então doce menina-mulher não poderia ver para não sofrer mais: procurar um destino para o corpinho do animal.

– Russo…., Mel… –  Era manhã de mais um sábado, dia de darem banho nos dois animais. Treiteiros, eles já sabiam que era dia de banho e se escondiam por algum canto de casa ou quintal. Mas não escapavam do banho. Adoravam fazer caminhadas conosco.

***

“De tudo, ao meu amor serei atento antes
E com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa lhe dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure” (Vinicius de Moraes)

***

O de Marina e Ricardo durou apenas pouco mnais de três anos. Num momento de bobeira, Marina jogou tudo para ar e tentou aparar depois, quando já não adiantava mais, o vento levou. Coração despedaçado, Ricardo rompeu os laços de amizade, companheirismo e amor. Marina sumiu no tempo e no vento, não podendo levar consigo o Russo, pois para onde voltaria não havia espaço para criação sequer de um gato, dirá de uma raça cheia de energia e peraltices.

Sofrendo pelo amor rompindo, Ricardo caiu em depressão. Para não ficar em casa isolado, agravando seu estado psicológico e físico, foi para a casa dos pais. Voltava à sua casa, antigo ninho de muito amor e ternura, uma vez por semana para ver os animais. Neste período, Mel e Russa deram uma ninhada de belos filhotes. O cruzamento das duas variedades produziram uma bela linhagem de Cocker Spaniel.

Um vizinho se encarregou de cuidar da Mel e do Russo, enquanto Ricardo não pudesse voltar para casa e devolver aos amimais os carinhos e amor de antes. Mas não bastava para eles apenas a sua atenção. Na verdade, eles sentiam mais falta de Marina.

– Seu Ricardo, é este o único momento em que vejo esses cachorros com um pouco de alegria. É o tempo todo tristes, não comem. Eles vão morrer. Recomendo que o senhor os dê para uma família que lhes devolva a alegria, a felicidade – disse-me esse vizinho.

E assim foi feito. Deu o casal para uma família, conhecida da minha.

Dois anos depois, recuperado do choque emocional, procurou notícias da Mel e do Russo.

– Seu Ricardo, meses depois que levamos a Mel e o Russo, ela emprenhou-se do Russo e matou todos os seus filhotes. Continuam cruzando, mas ela não se emprenha mais. Eles ainda entram em estado de tristeza – disse-me um membro da família que ganhou de mim os cachorros.

– Nós levamos o casal para um veterinário e após contarmos toda a sua história, o profissional nos disse que o rompimento dos laços entre ele e seus antigos donos foi um baque psicológico muito difícil, talvez impossível de ser superado por ambos, ao ponto de tornar a fêmea estérea e cruel para com seus filhotes. Só seus antigos donos podem devolver a felicidade aos dois animais – disse o veterinário.

– O passado não volta mais – respondeu para o rapaz a quem deu os animais.

***

18 anos depois, Ricardo lê no privado de seu perfil numa rede social:

“Me adicione se quiser. Há anos busco coragem de te falar. Entrei apenas para lhe pedir perdão e dizer que eu era feliz e não sabia. Tarde demais eu descobri que você foi o único homem que me amou de verdade e você o único homem a quem amei verdadeiramente”

Era Marina, já mulher quase quarentona, linda, mãe, expressando no rosto muito sofrimento.

Depois disto, Marina e Ricardo já se encontraram duas vezes; se perdoaram; tornaram-se amigos, apesar de cicatrizes ainda existentes e das más línguas e mentes que dizem que ex não podem ser mais amigos.

Notícias da Mel e do Russo, nunca mais.

*Nomes fictícios