Por Antônio Oliveira

A partir desta edição a versão on line de Cerrado Rural Agronegócios passa a publicar uma série de matérias sobre a introdução e evolução da cultura no algodão no Brasil. Temas como o desta edição;  migração para os cerrados do Centro-Oeste e da Bahia; história da cultura arbórea e  da introdução da cultura herbácea; agroindustrialização; pioneiros como Delmiro Gouveia e Olacyr de Moraes, entre outros temas, culminando com a cultura no Oeste e Sudoeste da Bahia.

Primórdios do algodão em São Paulo. (Foto: Divulgação)
Primórdios do algodão em São Paulo. (Foto: Divulgação)

Quinto maior produtor mundial de algodão, terceiro maior exportador e o primeiro em produtividade, superando os Estados Unidos, neste quesito, em 60%, o Brasil tem uma bonita história de pioneirismo, empreendedorismo, sofrimentos e pesquisas tecnológicas para chegar a estas posições no panorama internacional da cotonicultura.

A produção comercial do algodão no Brasil começou nos estados do Nordeste do Brasil, sendo que o primeiro grande produtor foi o Maranhão que, em 1760, exportou para a Europa as primeiras sacas do produto, oriundo da espécie arbórea – perene, de fibras mais longas.

A cultura do algodão herbáceo, de fibras mais curtas e de ciclo anual, no Brasil teve início em meados do século XVIII, em São Paulo,  com a revolução industrial na Europa. Depois, com a expansão de culturas como o café e a laranja no Estado e o crescimento de sua cadeia produtiva no Paraná, para onde foi deslocada  parte de seu parque industrial, perdeu terreno – literalmente. Mas, por volta do ano de 1918, com a devastação dos cafezais por uma forte geada, ela recobrou sua força, voltando a cair décadas mais tarde, fortalecendo a cotonicultura paranaense.

No Paraná,  a cultura começou pelo município de Sengés. Em 1931, ainda no chamado “Norte Pioneiro”, imigrantes japoneses iniciaram o plantio de algodão e ajudaram  na formação dos municípios de Assaí e Uraí, que tinham como base econômica a cotonicultura.

Carga de algodão produzido no Nordeste do Brasil. (Foto: Divulgação)
Carga de algodão produzido no Nordeste do Brasil. (Foto: Divulgação)

O Estado chegou a plantar 709 mil hectares na safra 1991/1992, projetando-se em primeiro produtor nacional da fibra. A partir da safra seguinte a área plantada foi reduzindo vertiginosamente, quase desaparecendo do cenário agrícola paranaense.

De acordo com a Associação dos Cotonicultores Paranaenses (ACOPAR), os principais motivos do declínio do algodão no Estado se deveram ao excesso de chuva na colheita de março de 1992 levando a germinação das sementes dentro dos capuchos e grande perda de produtividade; deterioração da qualidade da colheita manual, que na época era efetuada por trabalhadores terceirizados oriundos das lavouras de café, que colhiam algodão extremamente contaminado,  conhecido como colheita “no rapa” resultando em deságios elevados na comercialização e por fim dificuldades de convivência com o bicudo por parte desses pequenos produtores.

Ainda de acordo com a ACOPAR, estes fatores além de contribuírem para a perda de rentabilidade  e competitividade do algodão, resultaram em grandes prejuízos aos produtores e a substituição desta lavoura principalmente pela soja.

O declínio da cultura do algodão neste Estado do Sudeste brasileiro resultou na perda de 300.000 empregos na zona rural, migração de pequenos produtores para a periferia das grandes cidades e mesmo fortalecimentos de movimentos sociais reivindicatórios de reforma agrária e demanda por programas assistencialistas dos governos dos três entes federados, mostram vários estudos.

Na outra ponta da cadeia produtiva, ainda de acordo com a ACOPAR, as cooperativas que descaroçavam o algodão e o industrializavam o caroço, partiram para segmentos têxteis mais complexos e, neste ano, a estimativa é que no Paraná o parque têxtil consuma 60 mil toneladas de pluma/ano, maior parte trazida dos cerrados.

Existem, no Estado, ainda conforme a entidade de representação dos cotonicultores paranaenses, ao menos 10 fiações e 7 tecelagens. Para suprir este consumo o Paraná precisaria plantar pelo menos 50 mil hectares de algodão. Entre cooperativas e empresas individuais há mais ou menos 7 algodoeiras totalmente inativas, as quais, segundo a ACOPAR, poderiam ser rapidamente reativadas, “desde que houvesse algodão para ser beneficiado no Estado”.

A ACOPAR informa ainda que os produtores de culturas como milho e trigo estão preocupados com a perda de rentabilidade destes produtos e da inexistência de lavouras que possam a substituir.  Eles levantam a hipótese de voltar a experimentar o plantio do algodão de safra normal ou safrinha, como uma busca de alternativas às grandes áreas de milho e trigo safrinha no Paraná.

Todavia, ainda conforme a associação paranaense, a demonstração de novas tecnologias para a cotonicultura e mesmo de um novo modelo de produção de algodão safrinha deve ser precedida de avaliações técnicas, econômicas e climatológicas para se evitar a repetição dos problemas e prejuízos do passado.

Desta forma, continua a ACOPAR, a retomada do algodão no Paraná só ocorrerá quando se ajustar os fatores identificação de produtores inovadores; uso de cultivares transgênicas modernas para permitir uma fácil convivência com a Helicoverpa armigera; controle eficiente do bicudo; custo de produção baixo para possibilitar boa rentabilidade; plantio em safrinha para fugir dos problemas de chuvas na colheita e esta mecanizada para suprir a escassez de mão-de-obra no campo.

Resumo da ópera: no passado, maior produtor nacional de algodão, hoje a produção paranaense,  praticada por pequenos produtores e sem muitos recursos tecnológicos, representa pouco menos de 2% da produção nacional.

Na próxima edição: a expansão do algodão para os cerrados do Centro-Oeste brasileiro.

(Fontes desta primeira matéria da série: ACOPAR, EMBRAPA , MAPA e Secretaria de Agricultura de São Paulo)