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Da Embrapa Cerrados*

Se hoje o Brasil é uma potência na agricultura, isso se deve, em grande parte, ao melhoramento genético. Mais do que uma ciência, essa atividade de combinar características diferentes de várias plantas em uma só é considerada uma arte. Atualmente, a Embrapa possui em andamento cerca de 80 programas de melhoramento, dentre os quais estão os de soja, milho, algodão, além de espécies de fruteiras tropicais e temperadas, gramíneas e leguminosas forrageiras e oleaginosas.

"Para se chegar ao lançamento de uma cultivar são realizados vários ciclos de seleção e recombinação" (Foto: Divulgação)
“Para se chegar ao lançamento de uma cultivar são realizados vários ciclos de seleção e recombinação” (Foto: Divulgação)

E os novos rumos do melhoramento genético de plantas foi tema de um Simpósio que reuniu nos dias 6 e 7 de dezembro, na Universidade de Brasília, especialistas da área e estudantes. O evento foi realizado pela Sociedade Brasileira de Melhoramento de Plantas (Regional DF) e contou com a organização da Embrapa Cerrados e da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da UnB. Na ocasião, o pesquisador da Embrapa Hortaliças Jairo Vidal Vieira foi homenageado pela condução das pesquisas que deram origem à cultivar de cenoura Brasília.

A primeira mesa redonda do Simpósio tratou das novas ferramentas no melhoramento de plantas. Coube ao pesquisador da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, Dario Grattapaglia, abordar a questão da seleção genômica, ou seja, a capacidade de predizer fenótipos complexos utilizando a análise de marcadores moleculares. Segundo ele, essa metodologia tem sido utilizada em grande escala na área animal (especialmente em bovinos e suínos) e, nos últimos anos, vem crescento na parte de plantas.

– Trata-se de um nova vertente do melhoramento. Estamos saindo da ideia de se fazer inferências para a predição, incluindo aqui a quantificação da incerteza associada a esse processo – explicou.

Grattapaglia repassou informações sobre a tecnologia, seu estágio atual de maturação, os impactos esperados e a importância de se poder contar com uma plataforma de genotipagem barata, eficiente e de alta reprodutibilidade, como essa.

– Vários programas de melhoramento de plantas no mundo estão utilizando a seleção genômica. Na Embrapa, estamos usando em culturas como caju, maracujá, mangaba e goiaba – contou.

O pesquisador Orzenil Silva Júnior, também da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, abordou questões relacionadas à ciência genômica e suas ferramentas. Traçou um histórico do caminho percorrido pelos cientistas até se chegar ao cenário atual de estabelecimento da genômica e apresentou resultados de trabalhos específicos ligados ao tema publicados nos últimos anos.

Já a fenômica, fenotipagem automatizada em larga escala, foi o tema tratado pelo pesquisador da Embrapa Cerrados Walter Quadros. Ele contou como está sendo a experiência pelo qual está passando ao substituir a fenotipagem tradicional do seu experimento de culturas tolerantes à seca pela fenômica. O trabalho está sendo conduzido em parceria com uma instituição alemã de pesquisa e com a Universidade de Brasília e já apresenta resultados de destaque.

Simpósio reuniu, no dia 7 de dezembro, na Universidade de Brasília, especialistas da área e estudantes (Foto: Embrapa)
Simpósio reuniu, no dia 7 de dezembro, na Universidade de Brasília, especialistas da área e estudantes (Foto: Embrapa)

A segunda mesa redonda do Simpósio tratou do melhorameto convencional. Ficou a cargo do pesquisador da Embrapa Agroenergia, Bruno Laviola, abordar a questão dos modelos mistos aplicados ao melhoramento genético de plantas. Modelos mistos são aqueles que apresentam tanto efeitos fixos quanto aleatórios. O pesquisador apresentou as vantagens desses modelos, suas aplicações gerais utilizando como exemplo a experiência com o pinhão-manso e, ainda, como os dados devem ser interpretados para que as melhores estratégias de trabalho possam ser adotadas.

– Cada espécie tem sua particularidade genética e o caminho a ser seguido varia muito – explicou.

O poder da seleção e da recombinação como método de melhoramento foi o tema tratado pela professora da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da UnB, Nara Oliveira. Segundo ela, o melhorista exerce o papel de gerente, já que toma decisões constantemente.

“O principal destaque é que o produtor não precisa mexer no sistema produtivo, as informações estão todas na semente, isso agrega muito valor a ela”

– Ele define quais populações escolher para iniciar o programa, onde buscar germoplasma, quantas linhagens selecionar. E é a partir dessa variação que se consegue fazer uma boa seleção – explicou.

Para se chegar ao lançamento de uma cultivar são realizados vários ciclos de seleção e recombinação, muitas vezes centenas a milhares deles.

– Por conta disso, a variabilidade genética é considerada de extrema importância.

O pesquisador da Embrapa Hortaliças Leonardo Boiteux abordou a questão do melhoramento genético de plantas visando resistência a doenças. Segundo ele, apesar do desenvolvimento de vários produtos, as doenças ainda são um grande entrave para a agricultura mundial com perdas que chegam a 15% – quando não se leva em consideração a ocorrência de epidemias regionais e nacionais, ocasião em o problema se agrava.

– Na minha avaliação, a resistência genética não possui nenhuma característica desvantajosa. O principal destaque é que o produtor não precisa mexer no sistema produtivo, as informações estão todas na semente, isso agrega muito valor a ela.

Ele explicou que quando são desenvolvidas plantas resistentes a determinadas doenças está se permitindo que o cultivo delas seja expandido geográfica e sazonalmente. Segundo o especialista, salvo raras exceções, a maioria das hortaliças são de origem temperada.

– São plantas adaptadas a climas amenos e a resistência a doenças é um dos fatores que permite produzir nas nossas condições.

Ele deu o exemplo da cenoura Brasília.

– Antes dela, contávamos com materiais europeus e japoneses, tínhamos que aplicar até 15 pulverizações por ciclo. O plantio era limitado em condições de inverno ou de clima ameno. Agora, as pulverizações passaram de 0 a 2 e a cenoura pode ser plantada em todas as regiões do país – contou.

O pesquisador abordou ainda a importância das ferramentas modernas que tem sido usadas no melhoramento de nova geração especialmente quando se trata de resistência a doenças. Tratou da tecnologia de sequenciamento de DNA que tem aumentado em escala e baixado em custo, das técnicas de genotipagem de alto desempenho, do advento dos genomas completos, ou de referência, e das aplicações que podem ser feitas com esses dados genômicos cada vez mais disponíveis.

Coube à pesquisadora Marília Burle, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, tratar do tema conservação e intercâmbio no melhoramento genético. Ela explicou como funciona a gestão dos recursos genéticos no âmbito da Embrapa, como são formados os bancos ativos de germoplasma – hoje a empresa possui cerca de 130 deles espalhados pelo país – e falou da importância do intercâmbio com outros países, já que muito do material que o Brasil possui hoje veio de fora.

– Temos que estar abertos, no entanto, para prover material por meio de acordos de transferência e, também, para atender outras demandas da sociedade e, assim, justificar a utilização do recurso público que utilizamos para conservar esses acervos –  pontuou.

A pesquisadora destacou a criação, em 2014, do Sistema de Informação de Recursos Genéticos Alelo (https://www.embrapa.br/alelo). Trata-se de uma plataforma criada para abrigar informações sobre as coleções de germoplasma e, assim, auxiliar a gestão dos recursos genéticos e a divulgação do acervo. Com isso, segundo ela, busca-se facilitar o intercâmbio de germoplasma com a sociedade e com instituições nacionais e internacionais. Cerca de 90% das informações dos bancos brasileiros já podem ser acessadas via Alelo cujos dados são migrados de forma automática para o Sistema Genesys, portal mundial de informações sobre recursos genéticos vegetais.

“Somente no século XX, o Brasil passou a mobilizar mais esforços para domesticar e selecionar espécies nativas como feijão, cacau, goiaba, seringueira, maracujá, mandioca e algumas forrageiras”

Pós melhoramento

Coube ao pesquisador da Embrapa Cerrados Nilton Junqueira abordar questões relacionadas especialmente à domesticação de plantas. Segundo ele, apesar da alta diversidade mundial de vegetais superiores, a humanidade é bastante seletiva e depende de reduzido número de espécies em sua alimentação.

– Apenas de 15 a 20 espécies alimentam a humanidade. Isso representa um grande risco. Se aparecer uma doença de difícil controle, as consequências podem ser muito sérias – alertou.

De acordo com o especialista, embora o Brasil detenha a maior diversidade de espécies de plantas do planeta, o país continua dependente de germoplasma externo.

– Somente no século XX, o Brasil passou a mobilizar mais esforços para domesticar e selecionar espécies nativas de interesse econômico como feijão, cacau, goiaba, seringueira, maracujá, mandioca e algumas forrageiras.

O pesquisador repassou informações a respeito do processo de domesticação das espécies, o que é necessário considerar e conhecer, e falou mais especificamente sobre como se deu o processo de domesticação e melhoramento da seringueira.

– Atualmente contamos com 11 espécies, sendo a Hevea brasiliense a mais importante.

Ele também repassou informações sobre o andamento de processos de domesticação de espécies do Cerrado.

– Com o maracujá fizemos várias seleções. Já lançamos duas cultivares desenvolvidas a partir de material nativo, o BRS Pérola do Cerrado e o BRS Sertão Forte e mais três passam por testes finais e deverão ser lançados nos próximos anos.

Junqueira destacou, nesse contexto, a importância especialmente econômica do bio-extrativismo, mas que necessita seguir um plano de manejo.

– A atividade extrativista deve ser fiscalizada para que boas práticas sejam aplicadas com o objetivo de garantir a perpetuação da espécie explorada e, também, da fauna e flora associada a ela.

Segundo ele, como o mercado dita as normas em relação à qualidade dos produtos, somente os melhores são colhidos.

– Isso provoca uma erosão genética e, com isso, são selecionados indivíduos inferiores. Como consequência, a população não se renova e a fauna foge do local por falta de alimentos.

Ele pontuou algumas medidas que podem ser adotadas para minimizar esse problema. Uma delas seria o desenvolvimento de sistemas de produção para inserir espécies de maior potencial nos mercados consumidores.

– Quando na gôndola do supermercado tem um fruto melhorado, as pessoas não buscam na natureza. Então, dá mais chance para o material da natureza evoluir naturalmente e ser preservado – explicou.

“A Embrapa vai só até a produção inicial das sementes. A partir daí, a gente precisa dos parceiros habilitados encarregados de fazer a multiplicação e a venda”

O pós-melhoramento e o processo de transferência de tecnologia também foram temas abordados durante o II Simpósio de Melhoramento de Plantas. Na fase do pós-melhoramento são realizados os ensaios de avaliação das cultivares, por exemplo.

– É nesse momento que elas são testadas em diferentes ambientes. Também é nessa fase que se fazem as avaliações técnicas junto ao mercado produtivo e se executa todo o trabalho de produção, regulamentação, lançamento e pós-venda – explicou a analista Aline Zacharias, da Secretaria de Inovação e Negócios da Embrapa.

Ela destacou que uma das importantes etapas do pós-melhoramento é o planejamento da produção de material propagativo.

– A Embrapa vai só até a produção inicial das sementes. A partir daí, a gente precisa dos parceiros habilitados encarregados de fazer a multiplicação e a venda.

Interessados em obter informações sobre como adquirir as cultivares desenvolvidas pela Embrapa podem acessar o endereço www.embrapa.br/cultivares 

Por fim, o professor da UnB na área de melhoramento genético ambiental, José Ricardo Peixoto, abordou a questão do empreendedorismo no âmbito do melhoramento genético de plantas. Num cenário em que a qualidade das sementes tornou-se fator tão decisivo para se conseguir altas produtividade nas lavouras, por carregarem tanta tecnologia, é natural que seu valor também aumentasse.

– Isso, acabou estimulando o setor do melhoramento genético, que passou a desenvolver cultivares em escala industrial. E esse ciclo virtuoso abre espaço para diferentes atores da cadeia do agronegócio, tanto pequenos, quanto grandes empreendedores.

*Com edição de Cerrado Rural Agronegócios

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