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O Brasil tem programas e projetos de produção sustentável, como Integração Lavoura Pecuária que garante o respeito do país no mercado externo (Foto: Embrapa)
O Brasil tem programas e projetos de produção sustentável, como Integração Lavoura Pecuária que garante o respeito do país no mercado externo (Foto: Embrapa)

Declarações feitas pelo candidato do PSL a Presidência da República, Jair Bolsonaro, e por seus assessores, alguns desses já indicados para a sua equipe de governo assustam a União Europeia, um dos maiores compradores dos agronegócios brasileiros e muito atentos ao comportamento de países produtores em relação a sustentabilidade social e ambiental. Bolsonaro já afirmou que, caso chegue a Presidência da República, índios e quilombolas terão seus direitos à terra restritos e, de certa forma, ele tem defendido o confronto armado entre sem-terra e fazendeiros, ao invés de acenar com um programa de Reforma Agrária, séria e eficiente, e a segurança do Estado às propriedades rurais. O general do Exército, Oswaldo Ferreira que pode vir a ser ministro da área de infraestrutura de um suposto governo bolsonarista, declarou na semana passada, ao jornal O Estado de S. Paulo, que “não se pode derrubar uma árvore no Brasil sem que alguém venha encher o saco”. Conforme ele, nos anos 1970, quando ele era um tenente ‘feliz da vida’ trabalhando na BR-163,  derrubou “todas as árvores que tinha à frente, sem ninguém encher o saco. Hoje, o cara, para derrubar uma árvore, vem um punhado de gente encher o saco”. E, para preocupar ainda mais os ambientalistas e os países compradores que pautam para a sustentabilidade, Bolsonaro disse que vai fundir o Ministério do Meio Ambiente com o Ministério da Agricultura. Uma mistura que não dá certo, seria o mesmo que entregar o galinheiro para uma raposa administrar.

À jornalista Miriam Leitão, de O Globo (artigo publicado no dia 13 deste mês), um dirigente da instituição financeira internacional, com quem ele disse ter conversado, que o que o preocupa, caso Jair Bolsonaro seja presidente da República brasileira, é o absoluto desprezo que ele dispensa pela questão ambiental e climática.

Na visão dele, conforme Miriam Leitão, “é obvio que a competitividade e a capacidade de financiamento do agronegócio serão maiores quanto mais pacificada for a relação com o meio ambiente.

A jornalista explica o raciocínio do banqueiro: “se o produtor do Cerrado, por exemplo, quer ter água para produzir, precisará cumprir rigorosamente os limites das áreas de preservação em suas terras. Se cumprir esses limites, ele poderá ser financiado por capital externo que não aceitaria, a esta altura, emprestar para desmatadores. Esse financiamento pode ser feito a juros baixos, sem depender do subsídio estatal”.

O banqueiro teria dito, também, que o mais lógico seria que o diálogo que começava a existir entre o agronegócio e o ambientalismo fosse estimulado. “Mas, na eventualidade de um governo Jair Bolsonaro, ficará mais difícil”.

Em seu artigo, Miriam Leitão, embasando a preocupação de sua fonte, observa que o Brasil tem que cumprir objetivos internacionais de desmatamento líquido zero em 2023.

– Mesmo que o país, num governo Bolsonaro, saia do Acordo de Paris, os grandes bancos internacionais e multilaterais continuarão tendo que seguir regras de não financiar produtores vistos como desmatadores – disse.

Na Alemanha

Em entrevista à Rádio DW, da Alemanha, a presidente do Grupo Parlamentar Teuto-Brasileiro, deputada Yasmin Fahimi,  manifestou sua preocupação no futuro da cooperação entre Brasil e Alemanha após o segundo turno da eleição e avalia situação da democracia brasileira. Segundo a DW, apesar de os dois países cultivarem laços há décadas, a relação entre Brasil e Alemanha esfriou nos últimos dois anos. As eleições geraram uma expectativa de mudança nesse cenário, mas, para a presidente do Grupo Parlamentar Teuto-Brasileiro no Bundestag (Parlamento alemão), uma possível eleição do candidato à Presidência Jair Bolsonaro (PSL) pode impedir uma retomada da parceria estratégica.

– Desejo obviamente uma retomada da parceria estratégica com o Brasil – afirmou a deputada do Partido Social-Democrata (SPD), Mas, “do lado alemão, não vejo nenhuma base para uma parceria estratégica com um (sic) presidente Bolsonaro –  acrescentou.

A presidente do grupo parlamentar que é responsável por cultivar as relações com o Congresso disse ver o Brasil “à beira de uma grande ruptura” e avaliou que o país pode ficar isolado internacionalmente com Bolsonaro.

– Ele deixa claro que é contra qualquer forma de multilateralismo – comentou.

As colocações da parlamentar alemã, claro, devem ser vistas com reservas, por ela se mostrar tendenciosa à esquerda brasileira. Mas sua preocupação tem lá um “bocado” de razão.

Yasmin Fahimi,presidente do Grupo Parlamentar Teuto-Brasileiro no Bundestag (Parlamento alemão) (Foto: Divulgação)
Yasmin Fahimi,presidente do Grupo Parlamentar Teuto-Brasileiro no Bundestag (Parlamento alemão) (Foto: Divulgação)

Transcrevemos a entrevista abaixo

DW: Como a senhora avalia o resultado do primeiro turno e a situação política do Brasil?

Yasmin Fahimi – O Brasil está à beira de uma grande ruptura. Ficamos chocados como o fato de que, com Jair Bolsonaro, uma pessoa que tornou socialmente aceitável um discurso de ódio tenha chegado à liderança. Isso nos enche de preocupação sobre o futuro do Brasil.

DW – Há dois candidatos no segundo turno. Como seria o futuro das relações bilaterais entre a Alemanha e o Brasil nesses dois cenários?

Yasmin Fahimi – Em princípio, desejo obviamente uma retomada da parceria estratégica com o Brasil. O Brasil é para a Alemanha e para toda a Europa um parceiro muito importante, econômica e politicamente. O Brasil é a economia mais forte da América Latina. O futuro de toda a América Latina é importante, também para termos um parceiro político no mundo que defenda uma economia de mercado socialmente equilibrada e democraticamente controlada. Na atual situação, não vejo isso. Um (sic) presidente Bolsonaro representaria uma privatização radical, um sangramento sociopolítico do país e o rompimento com acordos internacionais.

DW – A relação bilateral também não funcionaria bem com Fernando Haddad?

Yasmin Fahimi  – Haddad seria um presidente completamente diferente, a quem atribuo um rumo muito mais moderado. Ele já deixou claro que quer impulsionar não somente o desenvolvimento social, como também econômico do país, e defendeu ainda o diálogo com todos os grupos. Um rumo político assim é naturalmente apoiado pelo lado alemão.

DW – E com Jair Bolsonaro?

Yasmin Fahimi  – Não vejo nenhuma base para uma cooperação internacional diante do que ele declarou. Ele deixa claro que é contra qualquer forma de multilateralismo: deixar a ONU, a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, o Acordo de Paris. Isso isolaria o Brasil totalmente no contexto internacional. Assim, do lado alemão, não vejo nenhuma base para uma parceria estratégica com um presidente Bolsonaro.

DW – O Brasil e a Alemanha têm há décadas uma relação muito próxima, mas nos últimos anos a cooperação esfriou. Por quê?

Yasmin Fahimi  – Porque a situação no Brasil há muito tempo está muito incerta e inconstante. Não conseguimos prever o rumo que o país irá tomar. As decisões orçamentárias e político-econômicas dos últimos dois anos também contribuíram para desestabilizar o país. Assim, não foi um encerramento da nossa parte, mas, na verdade, uma interrupção, na esperança de que se possa retomar o rumo das conversações.

DW – Como essa relação pode ser novamente aquecida?

Yasmin Fahimi – Independentemente do resultado da eleição, seria desejável ter um diálogo sobre os temas democracia e Estado de Direito. Seria importante conversar sobre o desenvolvimento sustentável de nossas economias e também poderíamos aprofundar nossos planos nacionais para a aplicação da convenção de direitos humanos. Também na Alemanha há uma discussão de como podemos implementar nosso plano de ação Economia e Direitos Humanos nas cadeias produtivas. A responsabilidade de nossas empresas que atuam globalmente não acaba na fronteira da Alemanha, mas precisa incluir, por exemplo, o Brasil. Isso é importante para nós porque fortalece as empresas alemãs na competição global sem custar empregos alemães.

DW – Como você avalia o desenvolvimento do Brasil no cenário internacional? O país perdeu importância?

Yasmin Fahimi – Infelizmente, sim. O Brasil já esteve muito mais no centro do interesse internacional, também por causa da intensificação das conversações entre os Brics. O país estava num bom caminho econômico, social e internacional. Não se poderia imaginar, então, que houvesse outra alternativa para o Brasil além da continuação do desenvolvimento, do fortalecimento da democracia e da estabilidade econômica. Mas ocorreu justamente o contrário. As reformas sociais regrediram, o país está dividido, a conjuntura está enfraquecida e os investimentos necessários não foram feitos.

Programas internacionais, como o Soja Responsável , o Algodão Responspavel, entre outros, incentivam a produção socioambiental responsável (Divugalçao)
Programas internacionais, como o Soja Responsável , o Algodão Responspavel, entre outros, incentivam a produção socioambiental responsável (Divugalçao)

DW – O Brasil pode recuperar essa importância?

Yasmin Fahimi  – Sim. O Brasil tem grandes problemas, mas também um potencial enorme devido aos seus recursos e devido ainda a uma cultura que se libertou da ditadura militar e que era marcada por fomentar o desenvolvimento e educação, se posicionar contra a pobreza social e oferecer mais oportunidades. Quem quer investir na América Latina não tem como desconsiderar o Brasil. Mas o Brasil não pode subestimar as alternativas, como o México.

“Sob essas condições, não há como a Europa negociar um acordo comercial”

DW – Somente o México seria uma alternativa?

Yasmin Fahimi  –Não, há também outros países menores, como Chile, Uruguai, Argentina e também Colômbia.

DW – Martin Schulz disse que, se Bolsonaro ganhar, um acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia ficaria mais distante. A senhora concorda?

Yasmin Fahimi  – Ficará difícil e talvez até impossível, começando por um motivo: todo acordo comercial internacional tem como base a confiança de que os compromissos alcançados serão respeitados. Um país não pode entrar ou sair de acordos internacionais ao bel-prazer do chefe de Estado. Além disso, um acordo pressupõe um Estado de Direito. Se há a impressão de que num país decisões políticas são arbitrárias, que há uma ameaça de politização do sistema judiciário, que a divisão de poderes não é mais seguida, que possa até mesmo ocorrer uma militarização da esfera pública, então, isso é por si só um golpe fatal para qualquer acordo comercial internacional. Sob essas condições, não há como a Europa negociar um acordo comercial. E eu não sei de nenhum outra região do mundo que teria interesse.

DW – Como a senhora avalia a situação da democracia brasileira?

Yasmin Fahimi  – Há uma pesquisa preocupante que mostra que apenas 46% dos brasileiros se pronunciaram positivamente sobre a democracia como forma de governo. E o clima antipolítico no país é fortalecido com acusações de corrupção contra juízes e políticos. Todas as instituições do Estado estão perdendo confiança. Isso é extremamente perigoso para o desenvolvimento social e econômico do país.

Como opção a isso, Bolsonaro adota um rumo fascista: exclusão, militarização e desdemocratização. Ele promete, por exemplo, pulso firme contra a criminalidade. O que se pode esperar disso é apenas um aumento da violência policial, que já um problema no Brasil. Na verdade, isso terá como consequência a criminalização dos mais pobres, sem combater as causas da criminalidade.

A melhor solução para a paz social e o desenvolvimento de um país continua sendo uma distribuição justa de oportunidades e riqueza. O desenvolvimento social do Brasil traria também o desenvolvimento econômico, como mostrou o governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O rumo fascista de Bolsonaro irá dividir ainda mais o país e não trará nenhuma melhora para os pobres. Por isso, vejo um grande problema para o Brasil e sua democracia, e também, porque investidores estrangeiros, incluindo empresas alemães, deverão evitar investir no Brasil. (DW)

….

Esquecem o candidato do PSL e seus assessores que o Brasil, embora muito criticado por ONGs ambientalistas e por alguns países de todo o mundo, tem uma das melhores legislações ambientais do planeta, é o que mais preserva e pode duplicar sua produção sem mais desmatamento. Isto garante mercados externos para o país. Desrespeitar a questão indígena, quilombola e o atual Código Florestal será engatar a marcha a ré das exportações brasileiras.

Antônio Oliveira

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