Facsimile do artigo publicada na edição deste sábado, 4, da versão impressa do jornal O Hoje

Por Antônio Oliveira

Reproduzimos aqui o original do artigo “História do Cel. Abílio Wolney”, publicado de forma resumida, devido a falta de espaço – compreensível -, pelo jornal goiano O Hoje.  

Solicitamos a cortesia da publicação naquele diário goiano, pois tem sido  aquela capital, sua imprensa e sua literatura tribuna de alguns equívocos cometidos com a história do então norte de Goiás e hoje Tocantins e quase sempre não corrigidos – não é o caso de O Hoje. Assim o fizemos para corrigir mais este erro em relação a trágica história de minha cidade natal, Dianópolis, seus líderes e povo do presente e do passado.

Abaixo, a íntegra do artigo:

Em “Tu és Pedro”, Hélio Rocha nega a história do Cel. Abílio Wolney

Por Antônio Oliveira

Bom ver o resgate da história por meio do jornalismo e da literatura. Já disse, com muita propriedade Emília Viotti da Costa: “Um povo sem memória é um povo sem história. E um povo sem história está fadado a cometer, no presente e no futuro, os mesmos erros do passado.”

Tu és Pedro é um excelente livro, mas peca com a história do antigo norte de Goiás, hoje Tocantins (Foto: divulgação)

Hélio Rocha, um dos maiores talentos do jornalismo político em Goiás, com base nesta sua experiência escreveu e publicou o livro “Tu és Pedro – Uma biografia de Pedro Ludovico Teixeira”. Pedro Ludovico, para quem não sabe, foi interventor da então província de Goiás, depois governador,  quando este foi guinado à condição política de Estado; fundador e construtor de Goiânia, capital deste estado. Foi um produtivo e democrático coronel daquele tempo, sendo um dos grandes responsáveis por desembarcar o caiadismo do poder absoluto em Goiás.

Estou lendo este livro, que tem 572 páginas de textos bem construídos, leves em sua leitura e de um enriquecimento muito grande nos conhecimentos de quem o lê. Hélio Rocha revela o grande estadista que foi Pedro Ludovico Teixeira, pai de outro grande estadista, o ex-governador e ex-senador goiano, Mauro Borges Teixeira.

Estou adorando esta leitura, mas discordo de uma colocação feita por Hélio Rocha na parte “Coronéis goianos”, com início à página 319. O texto, elaborado com base numa reportagem do jornal Diário da Manhã,  aponta os principais coronéis da política goiana nos séculos dezoito e dezenove e lá na página 325 incluí na lista o lendário Cel Abílio Wolney, homem da mesma cepa moral e política de Pedro Ludovico. Está lá, finalizando este capítulo do livro:

Em Dianópolis, no povoado chamado de São José do Duro, Abílio Wolney se destacou por comandar a resistência, em defesa dos lavradores, ao ato de violência e de jaguncismo praticado pelos soldados que teriam sido enviados pelo grupo do senador Totó Caiado”.

Não entendi o que moveu Hélio Rocha fazer tal colocação nesta sua importante obra de resgate de uma parte importante da história de Goiás. A informação é duas vezes equivocada: primeiro ao escrever “Em Dianópolis, no povoado chamado São José do Duro”. Naquela época não existia o município de Dianópolis, mas a Vila do São José do Ouro, do Duro (de D´ouro); segundo, na sua expressão “praticado pelos soldados que teriam sido enviados pelo grupo do senador Totó Caiado”.

Esta narrativa sobre um importante e trágico momento da história do antigo nordeste goiano e de um dos maiores líderes políticos que Goiás já teve está muito distante da verdade. Desconhecimento de causa ou tendência, como tendencioso foi o grande escritor Bernardo Elis, ao romancear este episódio (O Tronco) – mesmo assim, não omitindo a ação tresloucada de Totó Caiado e do então governador João Alves de Castro?

O episódio a que me refiro e citado equivocadamente pelo grande jornalista goiano ficou conhecido em Goiás e em todo o Brasil como “Barulho” ou “Chacina dos Nove”.

Permitam-me, com todo o respeito a envergadura moral e profissional de Rocha, corrigir sua informação.

Corrijo-a com base na história pesquisa e escrita por vários historiadores brasileiros, imprensa nacional, familiares e amigos do Cel. Abílio Wolney e até pelo Exército brasileiro.

O Cel. Abílio Wolney, no início dos anos 1900, era um líder político que incomodava muito o caiadismo liderado por Totó Caiado. Este fazia de tudo para barrar a ascensão política daquele. E um dos estopins de um conflito que vitimou a sociedade da então São José do Duro – naquele tempo, próspera vila do então nordeste goiano, hoje, também próspera cidade do sudeste do Tocantins -, foi uma sessão da Assembleia Legislativa de Goiás, naquela época ainda funcionando na Cidade de Goiás, onde se discutia e votava uma lei revolucionária para época, de autoria do deputado e presidente do Legislativo goiano, Abílio Wolney. O Projeto de Lei reconhecia os direitos de camponeses, com mais de dez anos de posse na terra, fosse onde fosse o estado. Uma espécie de Reforma Agrária. A matéria feria sobremaneira os latifundiários goianos, ou, mais  precisamente, a oligarquia Caiado, cujo líder, Totó Caiado, adentrara o recinto daquela Casa de Leis, acompanhado por, possivelmente, um capanga, proferindo algumas palavras ameaçadoras.

A cena vivida naquele cenário é descrita pelo neto de Abílio Wolney e um de seus quase dez biógrafos, o atual Juiz de Direito da Comarca de Goiânia, Abílio Wolney Neto,  em “O Diário de Abílio Wolney”:

O lendário Cel. Abílio Wolney quase sempre tem sua história distorcida (Foto: Acervo da família Wolney)

“Mas Abílio foi firme e, tomando as rédeas na direção dos trabalhos, bradou que os Deputados Federais tinham voz no Congresso Nacional. No parlatório do Congresso Estadual, a palavra era concedida pelo presidente tão-somente aos Deputados Estaduais com assento no Plenário, e concluiu decisivo e austero:

– Deputado Ramos Caiado, nenhuma palavra mais! Em nome da ordem, retire-se desta Casa!

Totó deu passos para o desforço, mas refluiu ao gesto de Abílio que levou a mão na gaveta da mesa simulando sacar de uma pistola, embora não a tivesse ali.

Caiado saiu, mas deixou claro:

– Isso não vai ficar assim!

Neste mesmo período, tramitava na Coletoria da Vila de São José do Duro o processo de inventário de um dos amigos de Abílio Wolney, cuja viúva era assistida, nos seus direitos, pelo Cel. Abílio, que também era advogado. Tal processo, por um viés político, era tumultuado, com exigências sem cabimento pelo coletor e primo de Abílio, Francisco de Brito, sobrinho do saudoso jornalista Chico de Brito, e pelo juiz da Comarca, Manuel José de Almeida. Coletor e Juiz eram aliados de Totó Caiado.

Certo dia, o Cel Abílio Wolney e seu pai, o também Cel. Joaquim Wolney, se precipitaram e obrigaram o juiz e o coletor a concluírem e assinarem o inventário. Isto foi o bastante para que as duas autoridades comunicassem o fato a Totó Caiado, em Goiás Velho.

Caiado, por sua vez, com forte influência sobre o governador da época, João Alves de Castro, exigiu a este severas providências contra os Wolney e atuou nos bastidores para que isto ocorresse, inclusive escolhendo a dedo o Juiz que comandaria uma missão oficial, composta de algumas dezenas de policiais despreparados – no arsenal de armas e no preparo para garantir a segurança pública. Fora escolhido Celson Calmon Nogueira da Gama, da Comarca de Pouso Alto (GO), conforme Decreto do governador João Alves, abaixo:

“O Presidente do Estado, tendo em vista as informações que lhe foram ministradas por diversas autoridades da vila de São José do Duro, e: Considerando que aí se perpetraram crimes contra o livre exercício das autoridades constituídas; Considerando que são autores desses crimes justamente as pessoas mais poderosas dessa localidade; Considerando que as autoridades locais se acham coactas e impossibilitadas de aplicarem a lei aos culpados; Considerando que esses crimes são dos que exigem investigação mais acurada e pronta repressão: Resolve determinar que, temporariamente, se passe para essa Vila, atualmente termo da comarca de Natividade, o Juiz de Direito da comarca de Pouso Alto, Dr. Celso Calmon Nogueira da Gama e que proceda a rigoroso inquérito, formação de culpa e pronúncia dos culpados, com recurso para o Superior Tribunal de Justiça, tudo nos termos do art. 115 da Constituição do Estado.

O Secretário do Interior e Justiça assim o entenda e faça executar.

Palácio da Presidência do Estado de Goiás, 15 de julho de 1918, 30º da República.

Ass.:

  1. Alves de Castro

Dr. Americano do Brasil”

Veja bem que este Decreto derruba o “teria” de  Hélio Rocha.

Já em Dianópolis, após um encontro com os Wolney, ficando acertado que se eles entregassem o tal inventário para Celson Calmon este não os denunciaria. Entretanto, quando foi visitar os Wolney, na fazenda da família, o  Juiz traiu o acordo feito, que era de pai e filho entregarem para ele, na fazenda,  o processo do inventário. Um policial assassinou, covardemente o pai de Abílio Wolney, Joaquim Wolney, saqueando-lhe os bolsos, e, com outros “cabras”, saíram a procura de Abílio para eliminá-lo também.

“A História de um povo não pode ser distorcida” (Antônio Oliveira)

Abílio conseguira fugir para os lados da Bahia e Piauí, onde contratou quase 200 jagunços comandados pelo lendário Abílio Batata para tomar a Vila de São José do Duro das mãos da “força pública”.

Calmon, covarde, após o assassinato do velho Wolney caiu fora da Vila; os policiais, diante da ameaça da invasão de São José do Duro pelos jagunços nordestinos, com os quais não teriam condições de confrontar, mataram 9 filhos de famílias tradicionais da Vila, alguns deles presos ao um tronco, e fugiram. Era 18 de janeiro de 1919.

Vários historiadores goianos, tocantinenses e de outras partes do Brasil, além da imprensa da então capital federal, Rio de Janeiro, e de outros estados, escreveram e reportaram sobre este fato. Aliás, foi a imprensa que pressionou o então governador Alves de Castro a tomar providências drásticas.

No Rio de Janeiro, o então ex-senador Leopoldo de Bulhões, procurou o presidente da República da época,  Delfim Moreira, comunicando a este os fatos graves ocorridos em Goiás, solicitando a Sua Excelência providências. Bulhões relatou ao presidente que as informações enviadas pelo governo de Goiás à ele, eram informações distorcidas da realidade. Este encontro foi reportado pela Gazeta de Notícias do dia 2 de fevereiro de 1919.

Delfim Moreira agiu rápido: chamou ao seu gabinete o ministro da Guerra, general Cardoso de Aguiar, determinando a este intervenção na Vila do Duro, com o objetivo de apurar o caso. Cardoso de Aguiar expediu ordem ao Comandante da 3ª Região Militar, na Bahia, para que tropas desta se apresentassem com urgência, a fim de seguirem para Barreiras, no oeste baiano. Essas tropas foram formadas pelo 42º Batalhão de Caçadores, com sede em Sergipe, e o 11º Regimento de Infantaria, estacionado na Bahia. Outras tropas, de São Paulo e Aracajú se juntaram as outras supracitadas. Elas foram chefiadas pelo Major Álvaro Mariante.

Após quase dois meses de minuciosa investigação em Barreiras, São José do Duro e região, ouvindo familiares, amigos e inimigos dos Wolney, o Major Mariante redigiu seu Relatório ao Ministro da Guerra, narrando a verdade dos fatos, a índole moral do Cel. Abílio Wolney e apontando irresponsabilidade política do Governo de Goiás.

Tal Relatório, feito em Barreiras, é datado de 28 de abril de 1919.

Mais uma vez, o “teria”, do Hélio Rocha não procede.

(Palmas, 10/11/2019)

*Antônio Oliveira é jornalista, radialista e escritor. É autor do livro “O Homem Abílio Wolney –a Verdade sobre sua história  seu caráter”, lançado na Bahia e Tocantins entre abril e maio deste ano.