Embrapa
O estudo também descobriu que as médias registradas das temperaturas mínimas são bons indicadores de risco. (Fotos: Embrapa)

Criações de frangos poderão ser fortemente afetadas pelas mudanças climáticas. Pesquisas mostram que animais adultos são sensíveis a altas temperaturas e apresentam elevada mortalidade acima de 38°C de temperatura ambiente. O estresse por calor é responsável por grandes perdas no rendimento de frangos, provocando diminuição do peso corporal e aumento de mortalidade. Essas aves têm seu máximo desenvolvimento entre 18 e 20°C, apresentando temperatura média da superfície da pele ao redor de 33ºC e temperatura interna de 41ºC. Cientistas pesquisam soluções como aclimatação, melhoramento genético e tecnologias relacionadas à infraestrutura das granjas.

Conforme a pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente (SP) Magda Lima, há  necessidade de mais estudos e levantamentos sobre as localidades sujeitas a temperaturas diárias extremas cujas condições sejam críticas para a atividade avícola. Um trabalho desse tipo foi realizado por pesquisadores da Faculdade de Engenharia Agrícola da Universidade Estadual de Campinas (Feagri/Unicamp) no Estado de São Paulo. No estudo, temperaturas diárias acima de 32ºC foram consideradas extremas. O estudo também descobriu que as médias registradas das temperaturas mínimas são bons indicadores de risco. Com esses números, é possível prever aumento ou redução de risco para a atividade caso as médias subam ou desçam, ao longo do tempo.
– Algumas reações aos efeitos da mudança do clima na avicultura incluem a redução do consumo de alimento, na performance de poedeiras, nos níveis de fertilidade; atividade reduzida; aumento da mortalidade e surgimento de doenças, detalha a pesquisadora da Embrapa, que lembra outro efeito indireto importante: um cenário de aquecimento global afetaria também as lavouras de grãos, componente majoritário da dieta das aves.
Os pesquisadores apostam em novas tecnologias para mitigar esses problemas.
– A termotolerância tem sido pesquisada, como, por exemplo, a aclimatação com exposição de aves recém-nascidas ao estresse por calor ou aves com genes que conferem redução no empenamento [aves com menos penas], que são tentativas para se conseguir melhor comportamento nessas condições, diz a pesquisadora.
Pesquisas buscam características avícolas visando a maior adaptação ao aumento de calor. Um dos alvos desse trabalho são as galinhas-africanas de pescoço pelado que poderiam participar de cruzamentos para aprimoramento de linhagens.
Outra solução eficaz estaria no investimento em instalações que amenizem os efeitos de altas temperaturas.
– Acredito que o setor avícola tem acompanhado de perto as necessidades e demandas de adaptação que as mudanças do clima impõem a animais de criação, e, como toda atividade econômica, os produtores já devem prever a importância de se investir em novas tecnologias e infraestrutura para manter a produção, sob risco de sofrerem eventuais perdas, ressalta Magda.
Avicultura e GEEs
Há também linhas de investigação que tentam fazer com que a própria avicultura emita menos gases de efeito estufa (GEEs). Trabalhos com avaliação do ciclo de vida têm mostrado que a produção avícola tem emissões menores que sistemas de produção de carne de bovinos. Na criação de aves, os maiores emissores de GEEs seriam decorrentes da produção de grãos e uso de combustível fóssil para aquecimento das instalações de criação.
A redução dessas emissões poderia ser obtida com  adoção de medidas de conservação que minimizem as necessidades de aquecimento e pela substituição de combustível fóssil por outras fontes de energia, como combustíveis renováveis.
A pesquisadora da Embrapa lembra que a destinação de resíduos e dejetos das aves é outro aspecto importante a ser levado em conta, já que as emissões de metano decorrentes de dejetos animais dependem muito do sistema de manejo de esterco utilizado, bem como das condições e a forma como o sistema é operado.
– Sabemos que o confinamento de animais tende a provocar maior produção e concentração de dejetos que, tratados de forma anaeróbia [sem oxigênio], irão produzir metano. No caso da avicultura, entretanto, boa parte do esterco é seca e precisa da adição de água para as operações de conversão a biogás. Os altos níveis de amônia e as necessidades de água para diluição são alguns dos desafios para a digestão de esterco de aves, informa Magda.
Biogás
A produção de biogás a partir de dejetos animais constitui uma boa prática na produção agropecuária, pois promove um conjunto de benefícios ambientais, sociais e econômicos. Com diversas oportunidades de aplicação, e muitos desafios para garantir uma boa performance, o esterco de animais confinados tem sido cada vez mais utilizado para produção de biogás no País. A mitigação de gases ocorre, sobretudo, quando o biogás é utilizado como substituto do combustível fóssil ou madeira. Mesmo assim, é preciso uma boa gestão dos sistemas de tratamento de dejetos, frisa a pesquisadora, que também defende a difusão de conhecimentos  e maiores investimentos em capacitação e pesquisa.
Embrapa 3
Pesquisas buscam características avícolas visando a maior adaptação ao aumento de calor.

No agronegócio brasileiro, os principais responsáveis pelas emissões brasileiras de GEEs são os setores de agropecuária (37%) e energia (37%). Dessas emissões, 55,9% devem-se à fermentação entérica dos ruminantes; 35,9% têm origem nos solos agrícolas; 4,8% são atribuídas ao manejo de dejetos de animais; 1,9%, ao cultivo de arroz inundado e 1,5%, à queima da cana-de-açúcar.

Só o rebanho bovino brasileiro, que representa a maior população de ruminantes no País, com mais de 200 milhões de cabeças, segundo as estatísticas do Sistema IBGE de Recuperação Automática (Sidra) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), contribuiu, em 2012, com a emissão de 11,5 mil toneladas de metano por fermentação entérica. O metano é um importante gás de efeito estufa cujo potencial de ação para o aquecimento global é 25 vezes maior que a mesma quantidade de dióxido de carbono.
De acordo com Magda, a pecuária é uma atividade vulnerável à mudança do clima, tendo em vista que depende da disponibilidade de água e faixas climáticas ótimas para o seu desenvolvimento. Pode ser afetada de vários modos: o impacto de mudanças na disponibilidade e preço de grãos; impactos em pastagens e forrageiras; efeitos diretos do clima e eventos extremos sobre a saúde, crescimento e reprodução animal, além de mudanças na distribuição de doenças zoológicas. Os impactos podem ser menores para sistemas de produção intensiva, já que esses controlam a exposição de animais aos efeitos diretos do clima e fornecem oportunidade para outros controles, como, por exemplo, sombreamento, aumento da circulação e condicionamento do ar e alterações de celeiros e abrigos.
A pesquisadora também explica que embora se tenha uma percepção de que a pecuária é mais resistente às mudanças do clima, há muitos estudos que mostram a influência negativa de condições climáticas adversas também nessa atividade. Foram registrados maiores índices de mortalidade animal, deslocamentos de rebanhos para outras regiões geográficas além de outras consequências.
(Fonte: Agência Embrapa)