*Por Daniela Oliveira

 Mulheres do Mumbuca desfilam as peças produzidas na comunidade durante a Festa da Colheita de 2015. (Fotos: Secom-TO)
Mulheres do Mumbuca desfilam as peças produzidas na comunidade durante a Festa da Colheita de 2015. (Fotos: Secom-TO)

O Dia Internacional da Mulher marca lutas históricas, conquistas e realizações, além de reafirmar a importante contribuição da mulher para a sociedade. No Tocantins, um grupo especial de mulheres transformou a haste de uma sempre-viva em um dos símbolos da cultura do Estado, pelo artesanato em capim dourado. Bolsas, pulseiras, potes, brincos, chapéus, mandalas e enfeites de todos os tipos feitos com esta matéria-prima podem ser encontrados em aeroportos e lojas em diversas cidades do País e até do exterior.

A cor, naturalmente dourada, foi uma das características que fizeram com que o “ouro do cerrado”, como também é conhecido o capim dourado, ganhasse notoriedade e o gosto do público. Mais que uma peça de artesanato, esta arte foi a maneira que mulheres, que vivem numa das regiões mais isoladas do Estado, o Jalapão, encontraram de garantir a subsistência de suas famílias. A técnica, aprendida com os índios da etnia Xerente, se iniciou há mais de um século e é passada de geração a geração. Hoje, o capim não só melhorou a renda das famílias, como também moldou a cultura local.

Uma dessas mulheres é Diomar Ribeiro Silva Gomes, de 71 anos, ou Dona Santinha, como é conhecida no Povoado Mumbuca, localizado na  zona rural de Mateiros. Ela mantém a tradição do artesanato em capim dourado, que aprendeu dos pais e avós quando jovem.

– O capim dourado é uma benção de Deus. Através do capim dourado pudemos melhorar de vida. Não só o Mumbuca, mas toda a região melhorou com o capim dourado – conta.

O Mumbuca foi a primeira das comunidades na região a fazer artesanato em capim dourado.

 Dona Santinha: “Não só o Mumbuca, mas toda a região melhorou com o capim dourado”
Dona Santinha: “Não só o Mumbuca, mas toda a região melhorou com o capim dourado”

Dona Santinha ainda fez um trabalho de resgate das cantigas que eram comuns no povoado, mas estavam sendo esquecidas. Ao todo 25 cantigas foram resgatadas por ela e o trabalho lhe rendeu o Prêmio Culturas Populares, em 2013, pelo Ministério da Cultura, como Mestre de Cantigas Antigas de Roda Chata.

– Foi na Mumbuca que iniciou esta linda arte, com muito amor – diz uma das cantigas que costumam ecoar nos campos de veredas durante a colheita do capim.

Dona Santinha se orgulha de que suas músicas destaquem o Cerrado e o capim dourado.

– Meu prazer é ensinar as crianças, os adolescentes e até os adultos. Porque a natureza é a segunda mãe – conta orgulhosa.

– Quando falo do Cerrado vem água nos olhos – continua.

Esse sentimento também é compartilhado pela nova geração de artesãs do Mumbuca que ainda se preocupa com a sustentabilidade na colheita dessa matéria-prima.

– O capim dourado é importante pra gente não só porque ele é uma fonte de renda, que leva comida para a mesa, mas pelo que ele representa para a comunidade. Por isso, nós nos preocupamos com a preservação do capim dourado – conta Léia Gomes, 21 anos, integrante do Povoado Mumbuca, atualmente morando em Palmas para estudar.

Léia lembra ainda de como a vida das famílias mudou à medida que o artesanato passou a ser conhecido.

– Lembro quando era criança e não tínhamos cama e nem colchão. Dormíamos em rede. Depois do capim dourado isso mudou, hoje temos mais conforto em casa – destaca.

Léia Gomes tem 21 anos e destaca sua preocupação com a  preservação do capim dourado.
Léia Gomes tem 21 anos e destaca sua preocupação com a preservação do capim dourado.

O superintendente de Desenvolvimento da Cultura da Secretaria do Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia, Turismo e Cultura (Seden), Melck Aquino, destaca o papel de Guilhermina Ribeiro da Silva, mais conhecida como Dona Miúda, ao repassar os ensinamentos das técnicas do artesanato à  comunidade do Jalapão.

– Não há como falar do capim dourado, essa riqueza natural que nos encanta, sem falar da Comunidade Quilombola do Mumbuca. E falar do Mumbuca, nos exige reverenciar com muito saudosismo a força da matriarca Dona Miúda. Mulher guerreira, líder nata, que ajudou a projetar a sua comunidade, a cultura de seu povo e as potencialidades de uma economia criativa que se perpetua pelas mãos de outras tantas mulheres que aprenderam o ofício de transformar ‘fios de ouro’ que teimaram em brotar em forma de capim – disse.

Cada peça que sai da comunidade está adornada com as histórias e sonhos de mulheres que desejam um futuro ainda melhor.

– O capim dourado me deixa feliz. Mas ainda tem muita coisa que precisa melhorar na comunidade – destaca Dona Santinha. O artesanato, por sua história e origem, se tornou um dos símbolos do Estado.

Atração turística

Foto 4 - Festa da Colheita - Maradona - Governo do TocantinsHoje, além do artesanato, a comunidade sobrevive do turismo na região. Os turistas visitam o Povoado Mumbuca para conhecerem a arte em capim dourado e comprar peças feitas exclusivamente pelos moradores. De acordo com o superintendente de Desenvolvimento Turístico da Seden, James Possapp, já é tradição em comunidades as mulheres assumirem a liderança em muitos aspectos do dia-a-dia da vida comunitária.

– São elas que produzem o artesanato em capim dourado, buriti e outros elementos do Cerrado. Este artesanato e seu modo de vida tradicional se tornaram importantes atrativos turísticos e despertam o interesse de turistas do Brasil e do mundo. São essas valorosas mulheres que, além de tudo isso, costumam receber e encantar os turistas com muita hospitalidade, cantorias e demonstrações de fé – reforça.

*É assessora de imprensa da Seden.