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Um dos maiores destaque da dupla é o canto (Foto: Divulgação)
Um dos maiores destaque da dupla é o canto (Foto: Divulgação)

Do Itau Cultural*

Uma das duplas legitimamente sertanejo que marcaram várias gerações no Brasil, é sem dúvida formada por Cascatinha e Inhana, nomes artísticos de Francisco dos Santos (1919-1996) e Ana Eufrosina da Silva Santos (1923-1981), respectivamente.

Cascatinha perdeu o pai muito cedo, aos 5 anos. Passa, então, a trabalhar como agricultor pelo interior do Estado de São Paulo. Aos 10 anos, vai morar na cidade de Marília, onde aprende a tocar caixa na banda da cidade. Com 18 anos, integra a trupe do Circo Nova Iorque, como baterista e torna-se intérprete formando uma dupla com o cantor Natalício Fermino dos Santos, o Chopp. Em 1941, em Araras, conhece Ana Eufrosina, que canta em apresentações na cidade. Ela se une à dupla, formando o Trio Esmeralda e, poucos meses depois, casa-se com Cascatinha. Mudam-se para o Rio de Janeiro, onde participam de programas de calouro. Após um desentendimento, Chopp abandona o trio e Cascatinha, então, inicia a dupla com a esposa, formando Cascatinha e Inhana, corruptela de Sinhá Ana.

Em 1947, assinam contrato com a Rádio Clube de Bauru, para apresentarem o programa Cirquinho do Benjamin na emissora e em circos itinerantes. No ano seguinte, mudam-se para São Paulo como contratados da Rádio América. Em 1949, apresentam-se na Feira Folclórica, festival de música popular no Rio de Janeiro e, durante a estada na cidade, participam de programas na Rádio Nacional.

Em 1950, de volta a São Paulo, são contratados pela Rádio Record. Neste o ano, Inhana participa da gravação do disco de Raul Torres (1906-1970) com Florêncio (1970), para cantar as modas “Rolinha Correio”, de Torres e Sebastião Teixeira e “Pomba do Mato”, de Torres.

No ano seguinte, a dupla assina contrato com a gravadora Todamérica para a gravação de um 78 rpm. O disco traz “La Paloma” de Iradier e Pedro Almeida, e a toada “Fonteiriça”, de José Fortuna (1923-1983). Em 1952, gravam a versão de José Fortuna da guarânia “Índia”, de Ortiz Guerrero (1894-1933) e José Assuncíon Flores (1904-1972). Do outro lado do disco, outra guarânia paraguaia “Lejania” (Meu primeiro Amor), de Hermínio Gimenez (1905-1991), versão de José Fortuna e Pinheirinho Jr. As duas canções ocupam o primeiro lugar de audiência no ano de 1953, tornando-os conhecidos em todo o país. Em 1954, recebem Medalha de Ouro concedida pela Revista Equipe e passam a ser conhecidos como “Os Sabiás do Sertão”, pelos recursos vocais e tonalidades da dupla. Em 1955, participam do filme Carnaval em Lá Maior, do diretor Adhemar Gonzaga (1901-1978), interpretando as canções “Índia” e “Meu Primeiro Amor”. No ano seguinte, lançam em 78 rpm, as canções “Noites do Paraguai” e “Recordações de Ipacaraí”. Gravam o primeiro LP, Os Sabiás do Sertão (1958), com destaque para “Serra da Boa Esperança”, de Lamartine Babo (1904-1963); o folclore tradicional “Casinha Pequenina”, e “Chuá, Chuá”, de Pedro de Sá Pereira (1892-?) e Ary Pavão, sucessos nas rádios.

Ao longo de toda a carreira gravaram várias versões de músicas do cancioneiro popular latino-americano. Destaque para as guarânias paraguaias, caraterizadas por letras melancólicas, de andamento lento, normalmente em tom menor, como “Índia” e “Meu Primeiro Amor”. Estas versões de músicas latino-americanas se popularizaram no Brasil a partir década de 1950, com Cascatinha e Inhana. Eles ajudam a formatar um modelo mais tarde seguido por duplas sertanejas, como Pedro Bento (1934) e Zé da Estrada (1929) e Belmonte (1937) e Amaraí (1940).

Um dos maiores destaque da dupla é o canto. A primeira voz é feita por Inhana, que desenvolve uma técnica intuitiva de soprano com extensão vocal e afinação, em harmonia com a segunda voz tenor de Cascatinha. O casal canta em terças e aproveita o contraste da voz feminina com a masculinamas, ao contrário das duplas caipiras que cantam em terças com sensação de uníssono. Inhana entoa a melodia enquanto Cascatinha faz uma linha melódica que segue o mesmo “gráfico”, porém com um intervalo de uma terça abaixo (terça descendente). Esse modelo deve-se à facilidade de Inhana de “passear pelas notas agudas”, combinada com a segunda voz de Cascatinha e arranjos instrumentais bem elaborados. Outra característica da dupla são os recursos técnicos empregados nas apresentações. Além do violão tocado por Cascatinha, destaca-se o que ele chama de “pistom” ou “trompete” nasal. Consiste na imitação do som de instrumentos de sopro, produzido pelo fechamento e abertura das narinas com o auxílio das mãos.

Em 1960, a Todamérica contrata Cascatinha como diretor artístico, com o objetivo de descobrir novos artistas. Ele lança, dentre outros, o casal Nonô (1922-1997) e Naná (1934) e Zilo (1935-2002) e Zalo (1937-2012). Durante a década de 1960, gravam alguns discos, em especial, o LP 25 Anos de Amor (1967), em comemoração aos 25 anos da dupla. Nele, destaca-se “Vinte Cinco Anos”, canção feita por Nonô em homenagem ao casal e “Flor do Cafezal”, de Luiz Carlos Paraná (1932-1970).

Na década de 1970, a dupla reinventa-se gravando diversos gêneros, como sambas, boleros, toadas, baiões, xotes, valsas, canções rancheiras e tangos. Destaca-se o disco Cascatinha e Inhana (1978), gravado ao vivo durante o espetáculo Índia, no teatro Alfredo Mesquita em São Paulo. Produzido por Delze Bregantini e Eladir Leite, a dupla conta sua história e canta seus sucessos. Em seus últimos trabalhos, procuraram a notoriedade com regravações, em ritmo sertanejo, de canções de sucesso do rádio. O título de um de seus discos é 30 Anos de Rádio (1979), que traz canções como “Sonho Meu”, de Dona Ivone Lara (1921) e Delcio Carvalho (1939-2013); “Gosto de Maçã”, de Wando (1945-2012), e “Casinha Branca”, de Gilson e Joran.

Em 1980, é lançado o último disco da dupla, Você Pra Mim é Tudo. Inhana morre depois do lançamento do disco, aos 57 anos, de infarto. A dupla se preparava para uma apresentação no show Grande Noite da Viola, no Maracanãzinho, Rio de Janeiro, ao lado das duplas Tonico e Tinoco e Milionário e José Rico

*Com edição de Cerrado Rural Agronegócios

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