Por Antônio Oliveira

Uma pequena crônica, antes do assunto foco deste meu escrito:

Julho de 2017. Eu organizava a segunda edição dos eventos PISCISHOW & AVISULEITE, em Palmas (TO) e fui buscar, nas pessoas de máxima importância para os agronegócios brasileiros, os ex-ministros da Agricultura, Francisco Turra – que me deu a honra em me receber na sede da Associação Brasileira de Proteína Animal, que presidente, em São Paulo -, Roberto Rodrigues e Alysson Paolinelli, o apoio em transferir suas experiências para os produtores e acadêmicos da região do MATOPIBA, durante aqueles eventos. Prontamente fui atendido. Contudo, dias antes da abertura das duas feiras e congressos, Dr. Turra fora convocado pelo então presidente da República, Michel Temer, para missão no exterior justamente no dia em que ele estaria em Palmas – enviou representante; com os doutores Roberto Rodrigues e Alysson Paolinelli tivemos um problema,  na questão dos custos, que inviabilizou a vinda dos dois. Justifiquei e cancelei suas palestras.

Quinze minutos depois, recebo uma ligação do próprio Paolinelli, questionando-me se eu assumiria as despesas de logística para a vinda dele (Dr. Alysson Paolinelli usa os cachês de suas palestras numa Fundação filantrópica). Disse que sim. “Então eu vou para você”. Respondeu-me.

Dr. Alysson, durante a PISCISHOW de 2017, em conversa com os pesquisadores da Embrapa, Leovegildo Matos e Carlos Magno, este, então chefe geral da Embrapa Pesca e Aquicultura (Foto: antônio Oliveira/CDI-Cerrado Rural Agronegócios)

No dia seguinte, recebo uma ligação de sua secretária demonstrando muito carinho e preocupação com o ex-ministro: “Seu Antônio, o Dr. Alysson Paolinelli está indo por sua causa. Trate-o o bem, não se esqueça da idade dele”.

No dia da sua chegada, eu e um dos diretores da Secretaria de Agricultura do Tocantins, Alexandre Godinho, que, de última hora, teve que representar o então secretário desta pasta, Clemente Barros, meu convidado para ciceronear o ex-ministro, fomos recebê-lo no Aeroporto.

Chegou, visivelmente cansado, arrastando ligeiramente  uma perna, me entregou uma bolsa pouco menor que  a de uma de mulher para eu carregar e observou; “Antônio, dentro desta bolsa está todo o meu vestuário para uma semana de viagem. É minha mulher que arruma, só ela sabe esta arrumação”.

No dia seguinte, deu um aula de agronegócio, Política, na sua verdadeira acepção da palavra, e de simpatia, encantando um publico seleto na sua audiência.

No mesmo dia voltou para sua casa, em Belo Horizonte, “onde daria um beijo na sua amada esposa”, como brinquei, justificando para a platéia que ele não teria muito tempo após suas palestra, e seguiria para os Estados Unidos e missão de representação do milho brasileiro.

Aquele senhor por quem eu, desde muito jovem, já tinha uma admiração muito grande por seu caráter e serviços prestados ao Brasil, conquistara, de vez, o meu coração. Eu amo verdadeiros patriotas e lideranças públicas e privadas.

E, qual não foi minha surpresa, de alegria, quando li, neste domingo, 9, no centenário O Estado de S. Paulo, o artigo do outro ícone, não só do agro, mas do cooperativismo, Roberto Rodrigues, defendendo o Nobel da Paz para o Dr. Alysson Paolinelli.

Em apoio ao Dr. Alysson e ao Brasil, reproduzo aqui o artigo do Dr. Roberto.

Um Nobel para o Brasil

Por Roberto Rodrigues

Paolinelli tem um legado na transformação do Brasil em potência do agronegócio

Em 1970, o grande engenheiro agrônomo norte-americano Norman Bourlaug ganhou o prêmio Nobel da Paz por sua inestimável contribuição para o aumento da produção de alimentos nos países em desenvolvimento: multiplicou por 5 a produtividade do trigo no México e em países africanos. Seus conterrâneos calcularam que isso havia salvo da fome um bilhão de pessoas. Sabendo que não haveria paz onde houvesse fome, a Academia do Nobel conferiu a Bourlaug, com toda justiça, aquele galardão.

Foi a última vez que o Nobel da Paz teve uma conexão direta com a atividade rural. E já se passaram 50 anos!

Desde então, a agropecuária e o agronegócio tiveram um desenvolvimento espetacular em todo o mundo, mas em especial nos países tropicais, entre os quais se destacou o Brasil. Quando Bourlaug recebeu seu prêmio, o Brasil importava 30% dos alimentos que consumia, desde o feijão até o leite, passando por carne, trigo e mesmo arroz. Em 1976, produzíamos 47 milhões de toneladas de grãos e hoje, 242 milhões. A produção das carnes (bovinos, aves e suínos) era de 2,7 milhões de toneladas e hoje é de 28,7 milhões. E o Brasil se transformou, desde então, em um dos maiores produtores e exportadores de alimentos do mundo, levando segurança alimentar para bem mais de um bilhão de pessoas.

Claro que isso se deve aos avanços tecnológicos extraordinários, ao empreendedorismo dos nossos produtores rurais e a algumas políticas públicas que se sucederam desde então. Mas sempre tem alguém que inspira e aponta o caminho em evoluções tão impressionantes.

E nós temos um gigantesco herói nesse processo: um engenheiro agrônomo mineiro que comandou a maior revolução tropical agrícola da história. Chama-se Alysson Paolinelli e é impossível contar sua saga no espaço de um artigo.

Paolinelli era o jovem diretor da Escola Superior de Agricultura de Lavras, Minas Gerais, quando foi convidado pelo governador Rondon Pacheco para ser secretário de Agricultura de seu Estado. Lá, organizou o sistema de pesquisa agropecuária e de extensão rural com resultados tão rápidos que chamou a atenção do presidente Ernesto Geisel e este o convocou para assumir o Ministério da Agricultura e Pecuária do Brasil.

“Paolinelli segue batalhando para acabar com a fome, em busca da paz universal. Nada mais correto, então, do que este ilustre brasileiro receber o Nobel da Paz”

Daí em diante, desfraldou com coragem a bandeira da autossuficiência alimentar brasileira, a partir da montagem da Embrapa onde, liderando uma equipe brilhante, partiu para a conquista do Cerrado brasileiro. Criou o Prodecer (Programa de Desenvolvimento do Cerrado), numa parceria entre os governos do Brasil e do Japão. Para esse empreendimento gigantesco, Paolinelli chamou as cooperativas agropecuárias do Sul e do Sudeste, e dessa maneira trouxe os pequenos produtores profissionais daquelas regiões. Com a tecnologia tropicalizada pelos técnicos da Embrapa, que Paolinelli e seus companheiros tinham enviado para fora para estudar as rotas tecnológicas mais modernas, o Cerrado explodiu em produção e produtividade, atraindo investidores de outras regiões do País. A soja, a brachiaria e o zebu foram a ponta de lança dessa conquista e atrás dela vieram o milho e a produção de frangos e suínos, o café, a cana de açúcar, o algodão e as frutas.

Paolinelli também criou o Polocentro para estimular ainda mais a região Central, e participou do Proalcool, maior programa mundial de alternativa ao petróleo, cujos preços tinham aumentado muito nos anos anteriores. Montou programas de irrigação em grande escala no Nordeste e no Sudeste, viabilizando produções intensivas, sempre apoiando o agricultor.

Depois que saiu do governo, seguiu sua missão: foi deputado federal constituinte e teve papel central na criação da Frente Parlamentar da Agricultura, que emplacou na Constituição de 1988 a novidade da Lei Agrícola.

Foi presidente da CNA, Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, modernizando a instituição que tem a representação legal do setor, e aí ajudou a criar e a liderar a Frente Ampla da Agropecuária Brasileira que tantas conquistas trouxe ao campo.

Como produtor rural, aplicou a integração lavoura-pecuária-floresta desenvolvida pela Embrapa e impulsionou esse programa em 2005. Hoje, preside a Associação Brasileira de Produtores de Milho e o Fórum do Futuro, onde estuda os nossos biomas, convencido de que a sustentabilidade da produção é a base da competitividade e será obtida com as tecnologias disruptivas.

Professor admirado, conferencista emérito, conselheiro de empresas e instituições, consultor global, Paolinelli tem um legado imensurável na transformação do Brasil na grande potência mundial do agronegócio, e no papel do País na alimentação de pessoas no mundo todo. Isso faz dele o maior brasileiro vivo.

Paolinelli segue batalhando para acabar com a fome, em busca da paz universal. Nada mais correto, então, do que este ilustre brasileiro receber o Nobel da Paz. É tempo de trabalhar por esse merecido troféu.

*Roberto Rodrigues é ex-ministro da Agricultura e coordenador do Centro de Agronegócios da Fundação Getúlio Vargas. Escreve a cada segundo domingo do mês para o Estadão