Por Antônio Oliveira

Com mais de 340 mil quilômetros quadrados, ricos em solo, água e condições climáticas para a produção agropecuária, além de sua privilegiada localização geográfica, o estado de Goiás, que cedeu praticamente metade de suas terras para a formação do estado do Tocantins, tinha pouca significância no cenário econômico nacional, da década de 1980 para trás. Só evoluiu nos agronegócios, no comércio e por meio de um variado parque industrial, a partir de 1980, graças a programas de fomento desenvolvidos desde a primeira gestão de Iris Rezende até a de Marconi Perillo, mais recentemente, que também deu forte contribuição para esta projeção.

Foi muita ousadia “peitar”  estados desenvolvidos como São Paulo e Minas Gerais. Mas os sucessivos governos goianos, de 1980 para cá, peitaram, inclusive atraindo indústrias instaladas em outros estados para fincar suas bases em Goiás. “Peitaram” e atenderam bem os investidores que buscavam o estado para fazer investimentos.

O setor da indústria de carne pode reduzir sua produção no Tocantins, ou até mesmo se retirar do Estado. (Fotos Ricardo Benichio)

Com esta política agressiva de atração de projetos empresariais e agropecuários, os goianos se projetaram no cenário nacional como a 9ª economia brasileira. Conforme o Instituto Mauro Borges (IMB), Goiás é, hoje, destaque na indústria de alimentos e bebidas, mineração, fármacos, montadora de automóveis e produção de etanol.

É um dos estados líderes no ranking nacional da produção de commodities minerais e agrícolas e de medicamentos genéricos. Está, também, inserido na geografia da indústria automotiva nacional com grandes montadoras de veículos com cerca de 1,8% na indústria automotiva brasileira e tem a  expectativa de se tornar o terceiro no ranking de produção automotiva do país.

Ainda conforme o IMB, Goiás é o 2º maior produtor nacional de cana-de-açúcar (76 milhões de toneladas) e, em decorrência disso, é o 2º maior produtor nacional de etanol cuja produção na safra 2017/2018 atingiu 4,6 bilhões de litros. Na  produção de açúcar o estado é o 4º maior com 2,3 milhões de toneladas. Para tanto, o número de usinas implantadas em Goiás aumentou bastante. Atualmente há 36 usinas em atividade, uma em implantação e duas suspensas.

Tocantins. Estado com apenas 31 anos de idade, pouco menor que seu “estado irmão”; localização privilegiada, boas condições climáticas, rico em água, solos propícios para a pecuária e para a agricultura mecanizada. Sua logística – com o multimodal rodovias e ferrovia, com projeto de contar com uma hidrovia e um terminal aeroportuário de carga (este com estrutura pronta, faltando legalização) – caminha para ser uma das melhores do Brasil, tornando o estado numa Mississipi brasileira. Tem tudo para se projetar no cenário nacional como pólo agropecuário, de agronegócio, de produção de proteína animal – do peixe ao búfalo -, na agroindústria e na indústria diversificada – leve e pesada.

Tem tudo isto. Mas não tem a ousadia que Goiás e outros estados tiveram e estão tendo para atrair investidores. Sua política de fomento ainda é tímida e seus governos têm mais  retórica, discurso eleitoreiro, que ação. Aqui se vive eleições o tempo todo. Sempre foi assim.

Acreditava-se que esta “cantilena” iria acabar com um empresário no comando do Governo do Estado, Mauro Carlesse. Aliás, nos primeiros dias deste governo a promessa era que o Palácio teria uma “Sala do Empreendedor”, numa mostra de como o  estado estaria para os investidores. Ou seja,  estes teriam prioridade no atendimento em Palácio. Ledo engano, pelo que vem se observando nestes primeiros 12 meses de governo efetivo de Carlesse. A retórica, a cantilena do “temos potencial” continua. Faltam ousadia, profissionalismo, respeito a quem empreende no estado – do micro ao grande -; a quem quer empreender – daqui e de alhures.

Isto está muito visível nestes últimos meses do ano quando a política de incentivo ao desenvolvimento econômico por meio da indústria, do comércio e da agropecuária foi reduzida com revisão de alíquotas de ICMS e a instituição de um imposto, mascarado de fundo, que será cobrado dos setores mineral e agropecuário – neste, flagrante violação da Lei Kandir, que é federal.

Ora, preferível a isenção, ou imposto pequeno, e ter empregos e rendas, por meio da empresa beneficiada e do que ela gera em torno de si, dentro de sua cadeia, que cobrar altos impostos, perdendo geradores de empregos e renda. Tem que ser assim, Tocantins não tem as prerrogativas de estados desenvolvidos e estruturados. É preciso que se cative o empresário.

Paralelo a este panorama há a questão da falta de respeito e consideração com o empresário. Produtores rurais e setor da indústria da carne têm conversado comigo sobre esta política inversa de desenvolvimento de Mauro Carlesse e me relataram que apesar disto há uma tremenda falta de respeito com o empresariado local e os de fora. Um absurdo, que revela falta de visão, eu ouvi de um executivo na área de produção de carne bovina. Contou-me ele que executivos de grandes frigoríficos nacionais se deslocaram de seus estados para se somarem com seus colegas no Tocantins em trabalho de convencimento do governo local de como é que funciona esta política de sucesso em outros estados. Passaram à margem da atenção do governador e do secretário da Fazenda.

Aí não dá, mesmo.

Para atrair investidores é preciso não apenas políticas públicas de atração de investimentos, mas também diplomacia, respeito, atenção, consideração, marketing de relacionamento, etc.

E vou mais longe, baseado tanto neste relato quanto na minha experiência pessoal neste Tocantins: do que adianta ter na Secretaria da Agricultura, Pecuária e Aquicultura e na Indústria, Comércio e Serviços um Cesar Halum e um Tom Lyra, respectivamente? O primeiro político experiente, conhecedor da realidade do Tocantins e que sabe se assessorar interno e externamente para exercer a sua função; o outro, empresário bem sucedido, visão ampla de desenvolvimento, dedicado e extremamente técnico, se eles não têm autonomia? Tudo tem que passar pelo Palácio e/ou pela Secretaria da Fazenda e Planejamento, por pessoas que se fecham em seus gabinetes priorizando a questão político-partidária, escolhendo com quem falar – elitizando o atendimento, até. Eles é que dão o “veredito”.

Ora, senhores, ampliem a visão de Estado. Governador, assuma as rédeas da política de desenvolvimento econômico do Tocantins. Do jeito que está, o estado vai ser atropelado pelo desenvolvimento em busca de outros estados que lhe deem atenção, segurança institucional, fomento e respeito. Há frigoríficos e outras empresas de outros ramos já pensando em, ou reduzir sua produção ou bater de volta para suas origens.

A região do MATOPIBA é o maior alvo das atenções do capital nacional e internacional com vistas a investimentos na agropecuária e na agroindústria. Tocantins tem posição privilegiada, mas se não sabe atrair esses olhares, perde para seus vizinhos Bahia, Maranhão, Tocantins e Piauí.

Ninguém quer esmola, benesses. Muito menos ser humilhado. Quer trabalhar, gerar empregos e renda de forma equilibrada.