Da Redação*

Aconteceu em Araguatins, região do Bico do Papagaio, entre os dias 6 e 7 deste mês,  a primeira capacitação de monitores pesqueiros e voluntários ligados ao projeto Propesca no Tocantins. Foram mostrados alguns números iniciais do trabalho desses monitores e discutiu-se a metodologia que o projeto adotará para realizar adequadamente o monitoramento da pesca artesanal na região.

O Propesca, que tem como nome “Monitoramento e manejo participativo da pesca artesanal como instrumento de desenvolvimento sustentável em comunidades da região amazônica (TO/PA/RR)”, é coordenado pela Embrapa Pesca e Aquicultura(Palmas-TO) e realizado em parceria com a Cooperativa de Trabalho, Prestação de Serviços, Assistência Técnica e Extensão Rural (Coopter), a Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspae a Embrapa Roraima (Boa Vista-RR).

Agora é a hora de o Propesca efetivamente realizar os monitoramentos pesqueiros nos 14 municípios em que atua(Foto: Embrapa)

Cada uma das três instituições coordena os trabalhos em seu estado de atuação, respectivamente Tocantins, Pará e Roraima. O pesquisador Adriano Prysthon, da Embrapa Pesca e Aquicultura, é o líder do projeto, que é financiado pelo Fundo Amazônia e operacionalizado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Além desse, há 18 projetos coordenados pela Embrapa (por meio de diferentes Unidades) ligados ao fundo. Tudo dentro do chamado Projeto Integrado para a Produção e o Manejo Sustentável do Bioma Amazônia.

Da capacitação em Araguatins, um dos municípios em que o Propesca está atuando, participaram nove monitores pesqueiros e voluntários do Tocantins e um do Pará, também ligado ao projeto. O coordenador dos trabalhos no Tocantins é Onivaldo Rocha, da Coopter. Ele mostrou os primeiros números dos monitoramentos, que já começaram em três dos cinco municípios tocantinenses que participam do projeto.

Ao todo, foram monitorados de março a julho 443 desembarques, sendo 186 em Esperantina, 158 em Xambioá e 99 em Araguatins. Em Araguacema e em Couto Magalhães, o monitoramento começará nas próximas semanas. Nesses monitoramentos, foram coletadas informações que ajudarão a entender melhor como é a pesca na região. O projeto objetiva conhecer o esforço de pesca de cada município, sensibilizar os atores da cadeia da pesca sobre a importância de se realizar um monitoramento bem feito e levantar números relacionados aos custos da pesca e aos recursos financeiros que a atividade movimenta em cada município.

Andamento do projeto 

– A avaliação que a gente tem da capacitação é bem positiva. Conseguimos reunir todos os nove monitores pertencentes aos cinco municípios que estão sendo monitorados pelo projeto aqui no Tocantins – diz Onivaldo.

– O nosso próximo passo agora é se alinhar mais com a colônia, gerar um cadastro dos pescadores, realizar um sorteio aleatório para que possa iniciar a segunda fase do monitoramento – diz.

Ele explica que a primeira fase, quando houve o monitoramento dos 443 desembarques, foi mais experimental.

– Agora, a gente vai, aplicando uma técnica específica, dar continuidade a esse procedimento – conta, detalhando que haverá uma seleção de pescadores que receberão um acompanhamento mais fixo durante duas temporadas de pesca, neste ano e em 2020.

A ideia é que, assim como no Tocantins, esse acompanhamento específico seja realizado também com pescadores selecionados em Roraima e no Pará e gere dados mais completos acerca da atividade pesqueira.

O coordenador geral do projeto percebe uma evolução nos trabalhos no Tocantins e relata o porquê do evento em Araguatins.

– Já vinham fazendo a coleta de forma satisfatória, mas eu senti, com o Onivaldo, a necessidade de a gente ter um momento em que a gente pudesse integrar, que eles pudessem se conhecer, momento em que a gente pudesse aprimorar as ferramentas que a gente já está fazendo. E culminou nesses dois dias – afirma Adriano.

O projeto utiliza metodologia participativa, na qual os envolvidos tendem a se sentir mais protagonistas dos trabalhos, ou seja, reconhecem mais a importância de sua atuação para o bom andamento das ações. Adriano entende que essa abordagem também dá resultados científicos.

– A pesquisa brasileira ainda tem uma forma muito convencional de fazer pesquisa com comunidades tradicionais, que é chegar, fazer a pesquisa, coletar os dados, ir embora, publicar e cumprir as suas metas. A nossa proposta com a abordagem mais participativa passa pela discussão, pelo diálogo, por essa aproximação e discussão dos objetivos.

Ainda segundo o pesquisador da Embrapa Pesca e Aquicultura, “o compartilhamento de objetivos é fundamental para que a gente possa construir que todos se sintam parte. A partir do momento em que a gente compartilha os objetivos e começa a colher os frutos, todos se sentem parte desses frutos. Eu acho que a gente está no caminho certo”. Assim como aconteceu no Tocantins, houve oficinas de capacitação de monitores em Roraima e no Pará. Agora é a hora de o Propesca efetivamente realizar os monitoramentos pesqueiros nos 14 municípios em que atua. E, seguindo o caráter participativo do projeto, depois retornar aos envolvidos os dados e as informações geradas.

Monitores  3

Um dos monitores do Propesca no Tocantins é Alonso Martins, que mora em Araguacema. Com 27 anos na atividade de pescador, ele aprovou a capacitação: “pra mim, foi muito importante”. Com experiência de aposentado, seu Alonso diz que “cada dia, cada hora, você está aprendendo mais”. Animado, o monitor pretende repassar o conhecimento que obteve nos dois dias em Araguatins.

– Eu estou aprendendo e vou dar aula pros outros companheiros que estão lá que, com certeza, vão aprender também muitas coisas que eu não sabia e eles vão ficar sabendo a partir desse movimento que nós fizemos aqui – afirma.

Jusciely Oliveira também é monitora do Propesca no Tocantins. Moradora de uma comunidade no município de Esperantina (onde os rios Araguaia e Tocantins se encontram e passam a ter o nome do segundo), ela também considera que valeu a pena participar da capacitação.

– Eu achei que foi bem proveitoso. Em relação aos conteúdos, aprimorou mais algumas dúvidas que a gente tinha em relação a poder fazer o monitoramento dos pescadores porque muitos perguntavam muitas coisas que a gente não sabia. E aqui a gente pôde estar descobrindo e com uma resposta mais certa pra dar pro pescador – relata.

Amazocom

Entre os 19 projetos que a Embrapa atualmente coordena no âmbito do Fundo Amazônia, um tem caráter transversal e lida, diretamente, com comunicação. Tem o nome de “Interação, intercâmbio e construção do conhecimento e comunicação nos projetos do Fundo Amazônia” ou, de maneira mais simples, Amazocom. Liderado pelo pesquisador Antônio Heberlê, da Embrapa Café (Brasília-DF), o projeto vem trabalhando em diferentes comunidades amazônicas numa perspectiva de comunicação comunitária e de construção coletiva de conhecimento.

O jornalista Clenio Araujo, da Embrapa Pesca e Aquicultura, falou sobre o Amazocom na capacitação em Araguatins. Discutiu com os monitores sobre a comunicação no Propesca, buscando fazê-los refletir sobre três perspectivas: a comunicação que eles fazem; a que eles querem; e a que eles podem. A proposta é realizar uma oficina de comunicação comunitária com os monitores do Propesca no Tocantins, procurando torná-los de fato protagonistas desse processo dentro do projeto. Os monitores do Pará, que têm uma área de atuação próxima aos do Tocantins (concentrada no Baixo Tocantins-Araguaia), também poderão participar da mesma oficina.

*Fonte: Embrapa Pesca e Aquicultura, com edição de Cerrado Rural Agronegócios