A pegada da água verde representou 99,5% do valor total das duas dietas (Foto: Gisele Rosso)
A pegada da água verde representou 99,5% do valor total das duas dietas (Foto: Gisele Rosso)

Da Agência Embrapa de Notícias*

A utilização de resíduos da agricultura na alimentação do gado confinado reduz a pegada hídrica da pecuária bovina. A conclusão é de pesquisa realizada na Embrapa Pecuária Sudeste (SP), que avaliou como o uso desses coprodutos influencia o consumo de água na produção de carne. Foram testadas duas dietas diferentes: convencional e com a substituição total por coprodutos. A pesquisa confirmou que a alimentação animal impacta no consumo de água.

De acordo com o pesquisador da Embrapa, Julio Palhares, a troca promoveu a redução do valor da pegada hídrica total. Enquanto na dieta convencional a pegada foi de 1.688 litros por quilo de carne, na alimentação com coprodutos, foi de 1.655 litros, uma redução de cerca de 2%.

Além de promover melhor eficiência hídrica, a utilização de alimentos alternativos manteve o desempenho dos animais. Para a zootecnista Marcela Morelli, responsável pela pesquisa juntamente com Palhares, o manejo nutricional adequado é relevante já que a dieta representa entre 60% e 80% dos custos de produção na propriedade. No entanto, para substituir ingredientes convencionais por resíduos agrícolas deve-se observar a disponibilidade comercial, a qualidade nutricional, a proximidade e a oferta.

Conhecer a pegada hídrica da carne, segundo o pesquisador da Embrapa, possibilita a identificação de pontos críticos no uso da água na pecuária e a proposição de manejos para dar ao produto maior eficiência.

Experimento

A pesquisa foi realizada no Confinamento da Fazenda Canchim, sede da Embrapa Pecuária Sudeste. Foram utilizados 52 machos Nelore divididos em dois grupos. As duas intervenções avaliadas foram: dieta convencional, composta por silagem de milho, concentrado de milho e farelo de soja, e dieta com coprodutos, à base de silagem de milho e concentrado de gérmen de milho gordo, polpa cítrica e casca de amendoim.

Durante o confinamento, a alimentação foi balanceada e ajustada para as exigências de ganho de peso dos animais de acordo com as fases de adaptação, crescimento e terminação.  Para o cálculo da pegada hídrica, foi utilizado o método da Water Footprint Network durante um ciclo de confinamento de 100 dias. O cálculo considerou as águas azul, verde e cinza (veja quadro no fim do texto) consumidas no sistema de produção e no abate dos animais.

Valores

A soma das pegadas hídricas verde e azul do confinamento apresentou valor de 1.695 litros por quilo de carne para a dieta convencional e de 1.545 litros para a alternativa.

Estudos demonstram que o uso de resíduos agrícolas mantém o ganho de peso e as características da carcaça (Foto: Gisele Rosso)
Estudos demonstram que o uso de resíduos agrícolas mantém o ganho de peso e as características da carcaça (Foto: Gisele Rosso)

A pegada da água verde representou 99,5% do valor total das duas dietas. A formulação apenas com coprodutos resultou em um impacto positivo pela redução da pegada hídrica total. Em contrapartida, a pegada hídrica azul foi 28,5% maior que a convencional.

Ao se adicionar o valor de pegada hídrica do processo de abate, as pegadas totalizam 1.802 litros por quilo de carne para a dieta convencional e 1.769 litros para a de coprodutos, representando um adicional de 6% nas duas pegadas. Os valores do abatedouro não diferiram entre as dietas, já que o processo de abate para os dois grupos foi igual. Ao somar a pegada hídrica do abatedouro, os valores de água verde passaram a representar em torno de 92% para as dietas.

De resíduo agrícola a alimento do gado

A busca por estratégias para aumentar a produção de bovinos em confinamento, com viabilidade econômica, tem aumentado a participação de coprodutos na dieta animal. Estudos demonstram que o uso de resíduos agrícolas mantém o ganho de peso e as características da carcaça. Além disso, é importante reduzir a dependência por produtos que poderiam servir de alimento para humanos, já que os bovinos são capazes de transformar ingredientes que não são úteis à alimentação humana em produtos com elevado valor nutricional.

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Muitos resíduos gerados pelas atividades agroindustriais podem ser utilizados na dieta animal. Porém, a viabilidade econômica vai depender da oferta e da proximidade dos polos produtores.

– Os coprodutos são indicados para pecuaristas que possam adquiri-los, considerando o valor nutricional e a viabilidade econômica, além da disponibilidade na região, caso contrário poderá não ser vantajoso em termos produtivos e econômicos. Também são necessários estudos para avaliar a viabilidade ambiental do uso dos coprodutos – explica Palhares.

A inclusão de coprodutos nas dietas brasileiras em confinamentos é significativa. Destacam-se como substitutos o caroço de algodão, polpa cítrica, e cascas de diversos produtos (soja, amendoim, etc.).

Menos 33 litros por quilo de carne

A pegada hídrica azul do grupo convencional foi de sete litros por quilo de carne e do grupo com dieta de coprodutos, de nove litros. Assim, para se produzir um quilograma de produto, os animais alimentados com ingredientes alternativos consumiram dois litros por quilo de carne a mais do que os alimentados com produtos convencionais.

O consumo médio do grupo com dieta convencional foi de 19 litros por cabeça ao dia e da dieta com coprodutos, de 23 litros.

– O consumo de água azul foi maior na dieta alternativa, pois os animais ingeriram maior quantidade de matéria seca, com menor teor de umidade, determinando maior consumo de água via bebedouro – explica Palhares.

Segundo Marcela, a maior parte dos estudos relacionada ao uso de coprodutos na alimentação de bovinos avalia a substituição parcial de algum ingrediente convencional. A dieta de coprodutos promoveu uma redução no valor da pegada hídrica total 33 litros por quilo de carne em comparação a convencional.

– Os resultados demonstram que é possível formular dietas com coprodutos em substituição total aos ingredientes convencionais e ter impactos positivos na melhoria da eficiência hídrica da carne e ainda manter os níveis de desempenho animal. Outro ponto positivo é o fato de se converter um coproduto em um produto nobre, a carne bovina –  destaca ela.

Pegada hídrica

A pegada hídrica é composta por componentes diretos (água ingerida pelo gado) e indiretos (água utilizada na produção de grãos).

A água verde representa a água consumida na produção das culturas vegetais e a contida nesses produtos.

A água azul é aquela extraída de fontes superficiais e subterrâneas e utilizada na irrigação das culturas, consumo direto dos animais, serviços na fazenda e no abate de animais e processamento dos produtos.

A água cinza é o volume necessário para assimilar a carga de poluentes com base nas concentrações naturais e nos padrões legais.

*Com edição de Cerrado Rural Agronegócios