A Fazenda Paraná quer chegar a 30 mil caixas e quatro safras por ano (Foto: divulgação)

Por Antônio Oliveira

A produção de mel no Brasil, por meio das modalidades apicultura e meliponicultura é pouco  conhecida pelos brasileiros que habitam as cidades, que das duas atividades conhecem apenas alguns produtos como o mel e a própolis. Os poucos que conhecem, mais o ou menos, as vêem como atividade da agricultura familiar ou de extrativistas. Na verdade, essa produção envolve muito mais que isto: milhões de dólares em exportação e grandes empresas  do agro no ramo, em nível de parceria ou com produção própria.

Conforme o IBGE, a produção e exportação do mel e de seus derivados vêm registrando crescimento. A própolis verde, produzida apenas em Minas Gerais, chega a obter mais de US$ 100 por quilo, enquanto o mel in natura recebe em média, US$ 4 por quilo. Em 2016, os dois setores – apicultura e meliponicultura  – faturaram mais de 470 milhões e o país exportou, naquele ano, mais de 24 mil toneladas – há estatística que apontam 37.820 toneladas.

O bom que tanto a apicultura quanto a meliponicultura são atividades desenvolvidas de forma sustentável e praticamente orgânica: é das flores para os favos e os potinhos de cera, no caso das abelhas sem ferrão.

E quem disse que apicultor e meliponicultor não podem conviver com o chamado agronegócio? Conceito equivocado. As duas atividades de produção de mel encontraram  nos sistemas de integrações agropecuárias e florestais  ambientes perfeitos para a produção e parcerias.  Essa integração entre produção de mel e agronegócios se dá, principalmente,  em áreas de reflorestamento de eucalipto e acácia, ou com a fruticultura, precisamente na citricultura.

Uma mão lava a outra: esse sistema de integração, conforme o pesquisador da Embrapa, Evaristo de Miranda, no livro “Tons de Verde” (Meta Livros), tem obtido importantes conquistas no campo da tecnologia e diversidade com a incorporação de abelhas meliponíneas e europeias em sistemas adaptados de apicultura, associados com pequenos ruminantes, em pastagens extensivas, especialmente no bioma Caatinga. Ainda conforme o pesquisador, atualmente os produtores estão optando pelo  plantio de acácias na parte de floresta dos sistema Integração Lavoura Pecuária e Floresta (ILPF), desenvolvido pela Embrapa, visando a produção de grande quantidade de mel em sistemas de apicultura intensivos.

Projetos são implantados sob florestas plantadas (Foto: divulgação)

Evaristo de Miranda informa que as acácias atraem e podem alimentar as abelhas. Ele cita como exemplo a Fazenda Paraná, localizada no alto da Serra do Roncador, em Mato Grosso. A propriedade, com 34 mil hectares, é, atualmente, referência nessa área  no Brasil. Em breve se tornará o maior apiário e maior produtora individual de mel do país. Seu sistema de produção tem capacidade para processar 6 t de mel por dia, de maneira totalmente automatizada.

Relata ainda o pesquisador Evaristo de Mirada que nessa apicultura intensiva, a produção anual foi da ordem de 200 toneladas de mel, em 2017, e atingirá 1.400 toneladas por ano entre 2023 e 2025. As 1.500 caixas com colmeias  existentes atualmente no projeto chegarão ao número de 30 mil caixas, com quatro colheitas de mel por ano.

O projeto é bem pensado: as abelhas terão pólen, néctar e água por meio da preservação da vegetação nativa, ao longo dos córregos e riachos que cortam a propriedade. A faixa de mata ciliar será ampliada de 30 para 300 metros.

Parcerias

Grandes empresas de reflorestamento, de alguns anos para cá, passaram a ter um posicionamento mais proativo na produção de mel, tanto nas próprias plantações como nas de associados e fornecedores. Elas desenvolveram programas de formação em apicultura e de “apoio na aquisição de equipamentos para auxiliar a geração de renda, melhora a qualidade de vida e o desenvolvimento das comunidades onde estão instaladas, por meio da abertura de novos mercados relacionados à atividade”, conta Evaristo de Miranda em seu livro.

Veja: conforme o pesquisador  e autor da obra consultada por este jornalista, a maior empresa produtora e exportadora de papéis do Brasil, Klabin, criou há mais de 10 anos o Programa de Apicultura e Meliponicultura , implantado no Paraná. “Em parceria com associações de apicultores, o programa valoriza os produtos não madeireiros das florestas e impulsiona cadeias produtivas que trazem benefícios à população e ao meio ambiente. Na apicultura, a empresa cede áreas florestais para instalação e manejo de apiários”, conta Miranda.

“O objetivo é fortalecer a atividade apícola  nesses estados, gerando emprego e renda a partir do aperfeiçoamento da cadeia produtiva do mel de eucalipto e de mata nativa”

E a empresa não faz favor ou marketing. Ela também investe em pesquisa e multiplicação de abelhas nativas, responsáveis por 40% a 90% da polinização das espécies vegetais, auxiliando também na preservação e uso sustentado dos ecosistemas.

Razão que move outras empresas do setor. A Fíbria, outra empresa nacional e líder mundial na produção de celulose de eucalipto a partir de florestas plantadas, já está nesta parceria há mais de 15 anos junto às comunidades vizinhas, por meio do Programa Colmeias.

“Trata-se de uma iniciativa realizada em parceria com associações e cooperativas de apicultores de São Paulo, Mato Grosso do Sul, Espírito Santo e Bahia. O objetivo é fortalecer a atividade apícola  nesses estados, gerando emprego e renda a partir do aperfeiçoamento da cadeia produtiva do mel de eucalipto e de mata nativa”, relata Evaristo de Mirada.

E informa ainda que da produção à comercialização, o Programa Colmeias oferece apoio na implementação de novas tecnologias e capacita cada apicultor a desenvolver um plano de negócios. São, ao todo, 67 associações integrantes do projeto. Em 2016, elas responderam por 35% da produção total de mel no estado de São Paulo e 65% do Espírito Santo. Em 2017, das 1.600 toneladas de mel produzidas, 500 toneladas foram exportadas.

Programas com esses mesmos objetivos estão em desenvolvimento por empresas e cooperativas, nos estados da Bahia, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Milhares de agricultores, nessas iniciativas,  tornaram-se,também, apicultores.

Conforme Evaristo de Miranda, em breve o Brasil deverá atender a boa parte da demanda mundial por mel, “sobretudo no contexto de desaparecimento das abelhas europeias em países temperados, atribuído a uma  interação de fatores que podem interferir no sistema imunológico das abelhas, como ácaros, fungos, vírus, pesticidas e manejos equivocados.

Por fim, pensa que isto é tudo? Não, ainda é apenas o começo da projeção do Brasil no cenário mundial de produção de mel e seus derivados:  segundo ressalta Evaristo de Miranda, “por enquanto, entre 80% e 85% do pasto apícola do país ainda é inexplorado”.