O Cerrado não pode se transformar um monumento de recordação (Foto: Antônio Oliveira)
O Cerrado não pode se transformar num monumento de recordação (Foto: Antônio Oliveira/Cerrado Rural Agronegócios)

Por Antônio Oliveira

Países potenciais compradores de commodities (quer seja produtos agropecuários ou minerais), como os que integram a União Européia, estão cada vez mais atentos e exigentes quanto à necessidade de produção de forma sustentável – social e ambientalmente. Países fornecedores destes produtos e seus produtores que não se enquadrarem nestas exigências vão perder mercados internacionais.

A razão desta preocupação está na necessidade de se preservar o meio ambiente e respeitar os recursos humanos de acordo com o que rezam as leis trabalhistas e, digamos assim, humanitárias. Até 2030, o mundo terá um bilhão a mais de seres humanos para serem alimentados; em 2050, mais 2 bilhões. Desta forma, se o meio que fornece alimentos, ou seja, a terra e os rios, não forem usados de forma racional, sustentável, o mundo vai passar fome, o agropecuarista vai perder seus meios de ganhar dinheiro; seus clientes, idem. O Brasil já tem exemplos de terras altamente produtivas durante  os períodos Colonial e Imperial e que, há anos, já não produzem sequer uma erva daninha, de tão degrada e infértil que estão. Consequência da exploração indiscriminada e sem tecnologias, o que não faltam nos dias de hoje.

Grandes corporações globais, com dezenas, e até com mais de uma centena de existência, e com visão de longo prazo não só localizada, mas universal, estão preocupadas com isto. Razão pela qual estão tomando decisões que visam a produção sustentável, a exemplo da Cargill, a maior empresa de agronegócios do mundo. Ou se produz com equilíbrio, ou se perde as plataformas principais de produção – terra e água.

Segue, finalizando este ensaio, a decisão da Cargill, por meio de texto elaborado por sua assessoria de comunicação.  A seguir, nossos argumentos e opiniões de alguns atores do agronegócio brasileiro, inclusive do MATOPIBA, a região que será mais impactada com essas exigências de zerar o desmatamento ilegal.

"A agricultura e as florestas podem e devem coexistir", (Foto: Antônio Oliveira/Cerrado Rural Agronegócios)
“A agricultura e as florestas podem e devem coexistir”, (Foto: Antônio Oliveira/Cerrado Rural Agronegócios)

A Associação dos Produtores de Soja (APROSOJA-BR), reagiu de imediato à decisão Cargill. Em nota, frisando que fala, principalmente,  em defesa dos produtores de soja da região do MATOPIBA (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), a entidade discorda desta preocupação da Cargill e de sua decisão em investir US$ 30 milhões na preservação do Cerrado brasileiro.

Eis a íntegra da nota:

“Posicionamento sobre a produção de soja no Matopiba

A Associação Brasileira dos Produtores de Soja – APROSOJA BRASIL, representando produtores associados em 16 estados, especialmente os do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), não encontra motivos que justifiquem a decisão anunciada pela multinacional Cargill de investir US$ 30 milhões para fins de preservação do bioma cerrado com o objetivo de evitar o desflorestamento da região.

Vamos aos fatos. Há vinte anos, sem a produção de soja, os municípios da região chamada de Matopiba se encontravam em situação de extrema pobreza. Não havia acesso de infraestrutura, poucas casas eram feitas de alvenaria e não havia oferta de bens e serviços básicos à população.

Vinte anos mais tarde, a região floresceu e a pujança do agronegócio, na contramão das políticas públicas e falta de incentivos, mudou esse panorama. Cidades que “não existiam” hoje são polos produtores e exportadores, com grande geração de empregos e serviços variados ligados ao agronegócio.

Foram criados milhares de postos de trabalho diretamente nas propriedades e indiretamente nas revendas de insumos, máquinas e equipamentos agrícolas, além de hotéis, restaurantes, supermercados, farmácias e butiques, algo nunca visto antes. Tudo isso ocorre com a preservação de 73% da área do cerrado da região e com uma agricultura que não ocupa nem 7% deste território, segundo dados já divulgados pela Embrapa. Ou seja, trata-se de uma produção altamente eficiente e sustentável.

É evidente que nos municípios em que a soja e

Bartolomeu Braz Pereira, presidente da Aprosoja Brasil (Foto: Divulgação)
Bartolomeu Braz Pereira, presidente da Aprosoja Brasil (Foto: Divulgação)

o milho são plantados a vida das pessoas melhorou se comparado ao que era antes da chegada da agricultura tecnificada. Nestes, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) mais que dobrou, conforme dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Não fosse os agricultores que lá estão, não haveria nenhum modelo de desenvolvimento sendo adotado para os municípios da região.

A verdade é que o cerrado do Matopiba não está ameaçado. Mas as pessoas, sem o benefício do desenvolvimento econômico, ficarão ameaçadas pela pobreza e desnutrição, pela falta de oportunidades, de emprego e de qualidade de vida.

A produção de soja no cerrado brasileiro é um caso de sucesso não apenas pelo impacto econômico extremamente positivo para o desenvolvimento do país, mas também pela sustentabilidade social e ambiental desta produção.

Portanto, antes de se falar em recursos vindos do exterior para reduzir a produção de grãos do país, é preciso entender com mais profundidade e conhecimento técnico o modelo de produção brasileiro, definido por leis rígidas nas áreas ambiental, fundiária, trabalhista e tributária. Aprosoja Brasil”

É necessário o equilíbrio da produção em terra e água (Foto: Arquivo)
É necessário o equilíbrio da produção em terra e água (Foto: Arquivo)

No Pará, estado amazônico, mas com uma mancha de Cerrado, o presidente da APROSOJA paraense, Vanderlei Silva Ataídes, também reagiu à decisão da Cargill. Em entrevista ao site Notícias Agrícolas, ele disse ser contra o desmatamento ilegal, mas defende o direito do produtor abrir novas áreas dentro do permitido pela legislação.

Ainda conforme ele, “esse comprometimento já existia em relação à Amazônia, portanto, o Pará recebe diretamente os efeitos de ambas as condições. É um tiro no pé” – disse.

Ele afirmou ainda que o setor (a sojicultura) observa a nota da Cargill de forma desconfiada e classifica a situação como “desnecessária”, já que, de acordo com o Código Florestal, os produtores rurais possuem direito ao desmatamento legal em parte de sua propriedade. Esse desmatamento, portanto, não seria ilegal.

Na sua fala ao Notícias Agrícolas, Ataídes deixa entender que, se a Europa não quer comprar produtos de desmatamento, a Ásia compra.

– Há de se analisar a possibilidade de reinventar a questão da comercialização e se aproximar da China para não ficar refém dessa situação.

O dirigente destaca que o Pará tem potencial para abrir mais 3 a 4 milhões de hectares no Cerrado.

Cerrado Rural Agronegócios também procurou as regionais da APROSOJA do Piauí e no Tocantins e até o fechamento desta matéria, fim desta manhã de terça-feira, 18,  não obteve retorno dos contatos feitos.

Soja Responsável

Procuramos também a superintendente da Fundação de Apoio a Pesquisa no Corredor Norte de Exportação Irineu Alcides Bays (Fapcen), com sede em Balsas, no sul do Maranhão. A entidade  trabalha com programas nacionais e internacionais de sustentabilidade, como a global RTRS (Soja Responsável), com atuação, sob a coordenação da Fapcen, no Maranhão, Tocantins e Piauí, o chamado Corredor Norte de Exportação, ou MATOPI.

Gisela Introvini, superintendente da Fapcen (Foto: Divulgação)
Gisela Introvini, superintendente da Fapcen (Foto: Divulgação)

Para Gisela Introvini, a superintendente, alguns produtores de soja no Cerrado e suas representações estão fazendo tempestade em copo d´água.

– A Cargill está propondo investir na expansão sustentável de soja em áreas degradadas e o aumento da produtividade em áreas em produção. Este é o foco da multinacional – apontou, em entrevista a Cerrado Rural Agronegócios, direto de Portugal, via WhatsApp. Na semana passada, na Holanda, a Fapcen, recebeu dois dos três prêmios conferidos à instituições com trabalham na difusão e incentivo da produção sustentável.

– A empresa quer mais soja para o mercado internacional e vai investir pesado no apoio a uma produção cada vez melhor – completou.

Introvini disse ainda que as empresas globais estão presentes em todo mundo e sabem do tamanho de suas responsabilidades.

– A Cargill assumiu o compromisso de colaborar para a redução de emissões decorrentes de sua cadeia de produção já faz uns quatro anos com a Declaração de Nova York. É um compromisso global, novos valores, nova visão de futuro – disse acreditar a superintendente da Fapcen.

Gisela Introvini disse ainda que o amadorismo no cultivo da soja deverá ter fim, ficando apenas os profissionais e que todo o mercado mundial vai fazer opção por maiores compromissos com a questão climática.

Outra questão apontada por ela, como conseqüências dessas exigências do mercado mundial, é que a especulação com terras agrícolas vai acabar.

– Não vai dar mais para vender e abrir terras onde não há condições climáticas para a produção agrícola – pontua.

Agora, a decisão da Cargill:

“Cargill reforça o compromisso com as cadeias produtivas livres de desmatamento

A Cargill opera na intersecção entre a agricultura e os negócios, conectando agricultores aos consumidores em todo o mundo. Atualmente, a Companhia adotou medidas para avançar com o seu compromisso de proteger as florestas e promover o desenvolvimento agrícola rural em todas as suas cadeias produtivas e lançou uma Política Sustentável de Soja para a América do Sul,  um Compromisso com os Direitos Humanos e uma atualização da Política de Florestas.

“A agricultura e as florestas podem e devem coexistir”, afirma Dave MacLennan, presidente e CEO da Cargill. “O mundo depende da agricultura para alimentar uma população cada vez maior, mas também depende da viabilidade de longo prazo dos nossos recursos naturais. Liderar transformações setoriais significa que podemos inovar, desafiar o que é possível e garantir que as pessoas e o planeta tenham o que precisam para as gerações que virão”.
Com a publicação das três políticas, a Cargill delineou uma abordagem completa para as cadeias produtivas sustentáveis em soja, cacau palma. As políticas foram desenhadas para:

– Alcançar cadeias produtivas livres de

Dave MacLennan, presidente e CEO da Cargill (Foto: Divulgação)
Dave MacLennan, presidente e CEO da Cargill (Foto: Divulgação)

desmatamento que também protejam a vegetação nativa para além das florestas.
– Promover a produção responsável, em benefício dos agricultores e comunidades vizinhas. Até o momento, a empresa já treinou mais de 250.000 produtores em boas práticas agrícolas nas três cadeias produtivas, incluindo treinamentos conduzidos em parceria com The Nature Conservancy na cadeia produtiva da soja.
– Respeitar e defender os direitos dos trabalhadores, povos indígenas e comunidades.
– Manter padrões de transparência por meio de relatórios de métricas e progressos importantes, vinculados a planos de ação com prazos determinados.
– Endereçar reivindicações de stakeholders externos em tempo hábil, e se forem identificados incidentes, tomar as medidas corretivas necessárias incluindo, mas não se limitando a, medidas disciplinares ou comerciais.
– Trazer uma perspectiva externa aos esforços de sustentabilidade da empresa por meio de um Conselho Consultivo Externo.

As políticas reforçam a intenção da Cargill em fazer as mudanças necessárias para alcançar cadeias produtivas livres de desmatamento. Apesar disso, uma única empresa não consegue alcançar desmatamento zero sozinha. A Cargill uniu forças com parceiros do setor, fornecedores diretos e indiretos, clientes, governos e grupos de agricultores, visto que as práticas de desmatamento e conversão de terras são movidas por forças econômicas complexas que abrangem todo o mundo.

“Acabar com o desmatamento requer um equilíbrio de prioridades ambientais, econômicas e sociais concorrentes”, afirma Ruth Kimmelshue, vice-presidente sênior da Cargill Business Operations and Supply Chain. “Nos comprometemos em reunir os stakeholders críticos necessários para atingir o nosso objetivo comum: cadeias produtivas livres de desmatamento em todo o mundo”.

“Por mais de 15 anos, trabalhamos com a Cargill e produtores no Brasil para promover práticas agrícolas sustentáveis e proteger as florestas”, disse David Cleary, diretor de agricultura global da The Nature Conservancy. “Políticas abrangentes de sustentabilidade, combinadas com ações locais, ajudarão a garantir a preservação dos biomas, não apenas hoje, mas nos próximos anos. Houve um bom progresso, mas o trabalho deve continuar para acabar com o desmatamento”.

Os compromissos de sustentabilidade da Cargill são orientados por seu propósito – nutrir o mundo de forma segura, responsável e sustentável. A Companhia estabeleceu um Hub de Sustentabilidade Corporativo para garantir que os esforços sejam operacionalizados em toda a organização. O Hub compartilha as lições e as melhores práticas em todas as cadeias produtivas da empresa e com a indústria para conduzir uma transformação setorial.”