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Yoshizaki utiliza a técnica de criopreservação (congelamento de células germinativas de peixes em nitrogênio líquido). (Foto: G1)

*Por Antônio Oliveira

Amada por milhares e odiada por centenas de pessoas, entre piscicultores, cientistas, ecologistas ou pseudos ambientalistas brasileiros, a tilápia cada vez mais surpreende a todos. De alimento, em vários tipos de pratos; uso em indústrias da moda e química e no tratamento de queimaduras de pele humana, por meio de seu couro, a espécie exótica mostra uma nova nuance: ser barriga de aluguel para a gestação do pirarucu, espécie amazônica de difícil reprodução em cativeiro.

Isto é resultado parcial de experiência, no Brasil, entre o pesquisador japonês Goro Yoshizaki e a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Nesta parceria, estão sendo feitos estudos usando a tilápia como modelo experimental como peixe-receptor (barriga de aluguel) para o pirarucu, peixe nativo da Amazônia de importância econômica mas que demora a se reproduzir.

Tecnologias de ponta  

O pesquisador japonês Goro Yoshizaki foi o conferencista na abertura do Simpósio Internacional sobre Fisiologia Reprodutiva de Peixes. Autoridade mundial na área de transplante de células germinativas em peixe, Yoshizaki enfatizou a importância de sua técnica para a preservação de espécies em perigo de extinção ao redor do mundo. A técnica também é aplicada para superar problemas com a biologia reprodutiva de espécies de importância econômica.

Yoshizaki utiliza a técnica de criopreservação (congelamento de células germinativas de peixes em nitrogênio líquido). A tecnologia apresentada pelo cientista consiste em congelar as células germinativas para depois transplantar esses gametas funcionais em outras espécies de peixes que atuam como “barriga de aluguel”.

Com a técnica, o pesquisador japonês já conseguiu, por exemplo, que trutas gerassem alevinos de salmão e vice-versa.

– O salmão do Pacífico morre logo após seu primeiro ciclo reprodutivo. Já a Truta não. Então, podemos fazer as trutas gerarem salmão ano após ano –  explicou o pesquisador.

Uma das propostas do cientista é que se crie um banco de dados genético com peixes de todas as partes do mundo, congelando células-tronco germinativas em nitrogênio líquido e assim salvar da extinção diversas espécies ao redor do mundo. – – Recuperar o meio ambiente leva muito tempo e a técnica permite ter essas espécies preservadas em banco de esperma e óvulo. Seria como um seguro que pode ser usado quando for preciso – revelou.

Simpósio

Estudo de Goro Yoshizaki e da UFMG, foi apresentado durante o 11º Simpósio Internacional sobre Fisiologia Reprodutiva de Peixes (ISRPF 2018), realizado em Manaus, com a participação de mais de 20 países e que tem como tema “Novas fronteiras na diversidade reprodutiva em um ambiente em mudança”.

O Simpósio tem mais de 200 inscritos, entre pesquisadores, profissionais e estudantes, e conta com apresentação de trabalhos de pesquisa em pôsters e 16 palestras principais de cientistas da área de reprodução de peixes. As atividades começaram dia 4 e vão até amanhã, 8 de junho, no Tropical Hotel em Manaus (AM).

O objetivo do simpósio é estimular a discussão, aprendizado e troca de informações entre pesquisadores sobre as mais recentes descobertas científicas na área de fisiologia reprodutiva de peixes. O comitê científico internacional é formado por pesquisadores do Brasil, Holanda, Portugal, Argentina, França, Hong Kong, Índia, Estados Unidos, Canadá, França, Japão, Israel e Noruega. No Brasil a coordenação do evento é do pesquisador Luiz Renato de França, diretor do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e professor titular da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Junto a pesquisadores de outras instituições, participam com apresentação de trabalhos pesquisadores da Embrapa Amazônia Ocidental (Amazonas), Embrapa Pesca e Aquicultura (Tocantins) e Embrapa Informática Agropecuária (Campinas).

Os trabalhos de pesquisa da Embrapa Amazônia Ocidental têm duas abordagens. Uma delas é focada no aperfeiçoamento de manejo reprodutivo, com o objetivo de aumentar a frequência do uso de reprodutores e matrizes de tambaqui.

– Outra linha de pesquisa é mais na abordagem de identificação de fatores envolvidos no processo de diferenciação sexual de tambaqui e pirarucu, ou seja, o que determina o sexo dos indivíduos nessas duas espécies – explica a pesquisadora da Embrapa Amazônia Ocidental, Fernanda Almeida O´Sullivan, que também integra o comitê local de organização do simpósio.

Pesquisador japonês Goro Yoshizaki foi o conferencista na abertura do Simpósio Internacional sobre Fisiologia Reprodutiva de Peixes (Foto: Assessoria do evento)

Cerca de 40% dos participantes são do Brasil. Dentre os 16 cientistas que fazem palestra, apenas dois são do Brasil: Samyra Lacerda, professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e Ronaldo Barthem, pesquisador do Museu Paraense Emilio Goeldi (MPEG). Os demais palestrantes são de outros países da América, da Ásia e da Europa.

Diversidade 

De acordo com o coordenador do evento no Brasil e diretor do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Luiz Renato de França, os peixes constituem o grupo mais diverso e abundante de vertebrados do mundo com quase 30 mil espécies, das quais 13 mil são de água doce e aproximadamente 3 mil estão na Amazônia.

– Só isso já mostra a importância do evento para a região, porque hoje grande parte dos peixes consumidos no mundo é cultivada, produzida em tanques e esse é o futuro da piscicultura – disse França.

– Então, para se chegar a um nível de produção de alta qualidade e rentável tem de fazer pesquisa; pesquisa de fertilização, sobrevivência da larva, patologias, ração e tudo mais. Esta é uma vertente que esperamos que resulte em frutos no futuro –  completou.

Esta é a 11ª edição do ISRPF, evento que acontece a cada quatro anos, desde a sua criação em 1977 pelo Prof. Dr. Roland Billard, na França. As edições anteriores foram na Europa, América do Norte e Ásia. Esta é a primeira edição realizada na América Latina.

*Fonte: Embrapa Amazônia Oriental e  assessoria de imprensa do ISRPF 2018, com edição de Cerrado Rural Agronegócios

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