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Em tempos de mídias digitais em franco crescimento, nas diversas plataformas – verdade que há muitas aventuras  usando o jornalismo, de forma errônea, simplesmente para faturar verbas públicas de publicidade -, nos últimos anos fui tomado pela preocupação em torno do futuro das revistas técnicas impressas. Sou editor na área dos agronegócios (incluindo a agricultura familiar, que sempre considerei agronegócio, também), em plataformas digitais e impressa – esta a minha maior paixão e já com quase 16 anos, atravessando altos e baixos, mas mantendo sua chama.

Continuar investindo no impresso, ou não?

"Agora precisamos colocar a impressão como parte do portfólio, não no núcleo" (Foto: Internet)
“Agora precisamos colocar a impressão como parte do portfólio, não no núcleo” (Foto: Internet)

Com as crises que, periodicamente, nos atinge nestes grotões brasileiros, onde empreender nesta área não é fácil, devido aos parcos recursos da iniciativa privada regional para a mídia, estamos sempre “quebrando” nossa periodicidade. Quando isto acontece, somos muito cobrados pelo nosso público, que não se satisfaz apenas com nossa versão on line.

Particularmente, vejo que o público dos agronegócios empresarial e familiar prefere o impresso. Uma só edição, massificada em dia de campo, por exemplo, circula pelas mãos de 5 a 10 pessoas, potencializando a tiragem do veículo. É palpável e disposição sem esperar conexão e sem depender das oscilações de uma das internets mais lentas do planeta.

Bom, mas o que determina os caminhos a seguir é o mercado, baseado em estudos. Neste domingo, parei por alguns instantes pesquisando no Google sobre o tema. Captei alguma coisa que me deixa animado.

O site PwC Brasil, em recente publicação sobre a 18ª Pesquisa Global de Entretenimento e Mídia 2017-2021, considera que “a mídia impressa é, sem dúvida, o setor que está sofrendo o maior impacto provocado pela transformação digital. Não porque a procura por informação diminuiu. Pelo contrário. A quantidade de conteúdo online aumentou. E a audiência foi atrás”.

Ainda conforme a publicação,  “um momento de plena transformação, não há respostas para um modelo de negócios ideal e definitivo. Grandes editoras de livros, revistas e jornais estão tentando se adaptar ao comportamento do consumidor multiconectado. O desafio é como se manter rentável num universo de fontes alternativas”.

Um dado animador, a seguir:

– Os dados da pesquisa revelam que, no total, o tamanho do segmento impresso está reduzindo. Mas – constatação importante para as empresas do setor – não está ocorrendo uma migração dos gastos para o digital. De fato, o conteúdo de melhor qualidade e a maior confiança do consumidor e do anunciante nas mídias impressas têm mantido os gastos nos modelos tradicionais: no Brasil representaram 97% dos gastos do consumidor em 2016 e, em 2021, serão 95% – constata o site.

Ele observa que as  empresas do setor precisam encontrar uma forma de vender conteúdo de qualidade on line.

– Algumas empresas estão implantando sistemas eletrônicos que se somam aos modelos tradicionais, como a adoção do Paywall para jornais, dos clubes de assinaturas online para revistas e o aumento de lojas virtuais para livros – pontua.

Outros dados animadores, em relação a revista impressa,  conforme o PwC Brasil:

– O consumo de jornais é o que mostra maior resiliência ante a transformação digital. O mercado de quase US$1,5 bilhão em 2016, deverá reduzir a uma média de 0,3% ao ano até 2021. As assinaturas digitais estão crescendo; porém, não ultrapassarão 5% do total das receitas de consumo deste segmento -aponta.

– Revista é o segmento que apresentará maior queda de consumo: 3% ao ano até 2021, reduzindo de US$602 milhões em 2016 para US$526 milhões em 2021. Comparando com outros segmentos, o brasileiro irá gastar mais com o consumo de música do que com a compra de revistas.

Já o site RDA Comunicação Corporativa, no artigo “O futuro do impresso é digital?A revista impressa tem futuro?”, elaborado com base em pesquisa sobre ferramentas de content marketing que a Tracto Content Marketing produziu destaca que “revista impressa é vista na fase de queda e desilusão no Brasil, embora especialistas americanos, como Robert Rose e Joe Pulizzi, a considerem uma tática extremamente eficiente pela pouca concorrência no meio impresso.”

– Com vinte anos de experiência em comunicação corporativa, posso dizer que, apesar do dado me chamar a atenção, ele não me causou surpresa. Já vi várias ferramentas irem e voltarem ao topo, de tempos em tempos, quase de maneira cíclica, dependendo do contexto político, econômico e social em que vivemos – opina o editor do site.

– Mas, e as revistas? – questiona.

– Lá nos idos dos anos 90, antes de a internet tornar-se o que é hoje, as ferramentas de comunicação corporativa eram bastante limitadas. Havia o jornal mural, a revista, as newsletters, as campanhas internas e algumas variações sobre esses temas – diz.

– Durante minha trajetória profissional, tive a chance de participar de alguns projetos muito bem-sucedidos de comunicação. E, em todos eles, a revista impressa era uma peça chave para o sucesso da estratégia. Eu acredito que ela continue sendo, ainda hoje, a despeito das muitas possibilidades digitais que estão agora disponíveis – atesta.

Ainda conforme o editor, algumas das razões da eficiência da revista impressa, enquanto ferramenta de comunicação, “estão relacionadas à sua natureza física, concreta – em oposição à impalpabilidade dos meios digitais”.

– Quando lemos uma revista impressa, nossa atenção está mais focada nessa atividade do que quando lemos algo em meio digital – neste caso, nossa atenção flutua, porque existem outros estímulos externos. O barulho do Whatsapp, a notificação do Facebook, o toque do telefone: tudo está na mesma plataforma, tudo se mistura; muitos estímulos competem para atrair a nossa atenção, que, afinal, é uma só. Ter foco e atenção é fundamental para que o conteúdo seja compreendido de maneira mais adequada e fixado com mais facilidade – opina.

Ele prossegue dizendo que a revista impressa dá ao colaborador que nela aparece uma sensação de ter sido reconhecido de forma mais definitiva e perene do que em uma matéria em um site da empresa.

– Isso porque as matérias nos sites e intranets tornam-se obsoletas muito mais rapidamente que em uma revista de papel. A atualização é diária ou semanal, enquanto que, no caso da revista de papel, a próxima edição só chega no mês que vem, ou bimestralmente.

Fato que eu também tenho constado nestes quase 16 anos da Cerrado Rural Agronegócios:

– O colaborador pode ver-se na revista impressa, mostrar para a família que a empresa onde ele trabalha o reconheceu. Ele pode guardá-la em casa para mostrar para familiares, amigos e conhecidos. Isso fortalece a reputação da empresa e os laços que ela estabelece com seus colaboradores.

Continua:

– Dependendo do setor e do ramo de atividade da empresa, a revista impressa é fundamental. Na indústria, por exemplo, nem todos os trabalhadores têm acesso permanente a computadores. A eles, restam recursos como as revistas de papel para que eles se sintam parte daquela comunidade.

– A sensação de pertencimento – essencial para trabalhadores de empresas com diversas filiais, presentes geograficamente em diversos lugares – é muito mais forte quando existe uma instância física de comunicação, papel que a revista impressa desempenha como poucas outras ferramentas – afirma.

O editor expõe um fato estratégico:

– Como aponta a conclusão da Tracto, agora que grande parte das corporações está voltada para os meios digitais, a revista impressa nada em um oceano mais azul, com muito menos concorrência do que antes. Pode ser a chance de uma estratégia de comunicação interna se destacar no mercado. Pode ser a oportunidade de uma empresa criar ou consolidar uma imagem e um diferencial perante o mercado.

Por fim, encontrei também na minha pesquisa as constatações seguintes, do site Do Papel.com, no artigo “As revistas impressas têm futuro, conclui o Magazine Seminar 2018”:

“Reuniram-se, em Bruxelas, na Bélgica, 65 especialistas das indústrias editorial e da impressão, para o Magazine Seminar 2018, organizado pela Intergraf e pela Smithers Pira. Entre as várias conclusões está a de que ainda existe um valor forte na impressão de revistas, desde que o conteúdo seja forte.

– Os participantes tiveram acesso a uma cópia exclusiva do relatório que revela que o mercado de revistas, como um todo, está em declínio. No entanto, “apenas um pouco do mercado de impressão desapareceu; as coisas de nicho ainda estão lá”, explicou James Hewes, presidente e CEO da FIPP, a rede de media global. O mercado ainda era de € 8,3 biliões em 2017 e continua a oferecer oportunidades para as empresas que são capazes de evoluir e melhorar suas ofertas.

Prossegue:

– The Economist Magazine, uma das principais histórias de sucesso da indústria, foi apresentado por Nicolas Sennegon, vice-presidente executivo e Chief Revenue Officer  do The Economist Group. Ele destacou a importância de um conteúdo e marca fortes – seja impresso ou em outras plataformas – sugerindo que “agora precisamos colocar a impressão como parte do portfólio, não no núcleo”.

“Collin Müller, chefe de desenvolvimento estratégico da Hubert Burda Media, a maior editora de revistas da Alemanha, elaborou que “as revistas não são o produto – o conteúdo é” – conclui a publicação.

Antônio Oliveira

 

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