A tragédia ocorrida em Brumadinho tem mobilizado toda a sociedade e a opinião pública em torno do tema e do risco das barragens de rejeitos de mineração no Brasil.

Vários especialistas se manifestaram e praticamente a opinião é unânime:  a técnica de armazenagem de rejeitos, usada por essas mineradoras, é ultrapassada A justificativa de seu uso é o menor custo do uso da água na mobilização desses rejeitos.

O tema custo parece que é a palavra de ordem para as mineradoras justificarem essa opção e manutenção desse grande número de barragens de rejeitos. Segundo informações veiculadas, há mais de 700 barragens no Brasil, sendo que cerca de 45 a 50 delas com alto potencial de impacto humano no caso de rompimento, pois estão posicionadas a montante de áreas habitadas a exemplo da barragem do Córrego do Feijão,  em Brumadinho.

Tijolos feitos com a lama  de Mariana, projeto desenvolvido pela Universidade Federal d Lavras (Foto: Divulgação)
Tijolos feitos com a lama de Mariana, projeto desenvolvido pela Universidade Federal d Lavras (Foto: Divulgação)

Para mim, a  avaliação das mineradoras parece totalmente equivocada, pois os fatos que estamos presenciando neste momento nos remetem a fazer raciocínios e cálculos matemáticos sobre se o risco econômico, social, ambiental e de manutenção destas estruturas realmente fecham esta conta, pois só com a manutenção destas estruturas, que é permanente,  geram um passivo econômico astronômico.

Para falar apenas do caso da Vale, seu peso no índice da Bolsa de Valores de São Paulo é de cerca de 11%, no Pregão do dia 28 de janeiro, primeiro dia útil após a tragédia, as suas ações caíram 24%, uma perda de mais de R$ 72 bilhões no valor de mercado da empresa em um dia de Pregão. É claro que o mercado é volátil e, no futuro, resultados econômicos positivos podem alterar este quadro. Mas esta última tragédia manchou a imagem da empresa de um modo muito grave e levantam suspeitas de que os seus executivos omitiam informações de seus acionistas e isso já tem repercutido em uma avalanche de ações na Justiça norte americana sob suspeita de manipulação de informação, o que pode gerar custos indenizatórios de alta monta, a exemplo do que ocorreu com a Petrobrás, no caso da Lava Jato.

“Como vem sendo demonstrado por vários especialistas na área, que sugerem transformar este material em tijolos, cerâmica, telhas, entre outros materiais para construção civil”

Este tipo de custo intrínseco de perda de credibilidade, normalmente, não está presente nos cálculos das empresas em suas demandas operacionais. Porém, o exemplo que estamos presenciando demonstra que eles são reais, de elevadíssima monta e permanentes.

Soma-se a isso, o custo da manutenção do sistema de manejo de rejeitos, o qual poderia e deveria ser substituídos por novos sistemas de aproveitamento destes rejeitos, sob uma nova ótica, tornando-os coprodutos, como vem sendo demonstrado por vários especialistas na área, que sugerem transformar este material em tijolos, cerâmica, telhas, entre outros materiais para construção civil, os quais além de dar um destino nobre a este antes chamados “rejeitos”, ainda trariam, a longo prazo, vários benefícios: eliminação de impactos ambientais na sua manutenção; eliminação de riscos de catástrofes humanas e ambientais com elevados custos intangíveis – afinal de contas, quanto vale uma vida humana? -; efeito social positivo, pois além da criação dos empregos diretos e indiretos da própria mineração, ainda teriam a criação dos empregos diretos e indiretos dos novos empreendimentos de produção de material de construção, minimizando a pressão social sobre comunidades carentes que circundam as áreas de exploração de minério; aumento da credibilidade e confiança social das empresas de mineração junto ao mercado com a anulação ou minimização dos riscos de impactos ambientais.

De outro lado cabe aos governos elaborarem uma política de longo prazo visando a proibição de implantação de novas barragens de rejeitos de mineração à montante, substituindo-as por métodos de estocagem a seco desses rejeitos, no caso de não aproveitamento dos mesmos e por fim uma política de eliminação gradual de todas as barragens já existentes, priorizando as que apresentem maior risco humano e ambiental. Somente assim será possível assegurar que este tipo de tragédia nunca mais possa ocorrer em nosso país e que essa importante atividade econômica que é a mineração possa ser realizada com respeito  a vida em todos os seus aspectos.

IMG_20190105_114802190-1-e1546714869647*Dr. Ricardo Pereira Ribeiro, Prof. Associado do Departamento de Zootecnia da Universidade Estadual de Maringá; Doutor em Ciências.