SHARE

A Piscicultura no Brasil, em especial a Tilapicultura, tem passado por um momento delicado nos últimos meses fruto de uma conjunção de fatores que tem trazido preocupação para o setor. A redução do preço da carne do frango no Brasil, em virtude do embargo europeu no início do ano de 2018 fez com que os estoques se acumulassem nas câmaras frias dos principais produtores; a greve dos caminhoneiros, em maio, também agravou esta situação, dificultando ainda mais o já complicado escoamento do produto que estava acumulado.

Empresas que criam e diversificam não passa por crises (Foto: Divulgação)
Empresas que criam e diversificam não passa por crises (Foto: Divulgação)

Não podemos esquecer que proteína compete com proteína e, o peixe compete, além do peixe, com as demais proteínas disponíveis no mercado e aí o frango ganha de “lavada”, ainda mais no período de crise com o baixo poder aquisitivo da população.

Por outro lado, de um modo geral, especialmente no início desta crise, não vimos uma redução dos preços do peixe de cultivo nas gondolas no comércio varejista e, aí vem o questionamento:  O que pensa o varejo? É um grande paradoxo, não quer reduzir suas margens? Não pensa na cadeia produtiva?

Segundo dados oficiais, o Brasil ainda importa cerca de 60% dos peixes que nós brasileiros consumimos, ou seja, um mercado mensal de cerca de US$ 75.040.660. Peixes frescos, congelados ou refrigerados no ano de 2017, segundo dados do próprio Ministério da Indústria Comércio, ou seja, US$ 1 bilhão de dólares anuais. Então, mercado interno existe. Mas quais peixes nós, brasileiros,  queremos consumir? O que nossa Piscicultura deve fazer para que o seu peixe seja consumido pelos brasileiros?

O peixe que vem de fora atende alguns quesitos importantes. O primeiro é cultural/religioso, onde se insere o bacalhau português e o norueguês, o segundo é o gourmet, onde temos o salmão, o atum o linguado, entre outros, incluindo similares nacionais e, o terceiro e mais importante, é o preço. Sardinha, merluza, cação,  panga, polaca, entre outros, é aí que apanhamos feio, pois não temos variedade de produtos competitivos na nossa Piscicultura e nesse ponto temos que trabalhar atentamente.

Planejamento e estratégia

Há anos tenho falado que a estratégia da nossa tilapicultura é perigosa, pois baseia seu comércio em um único, ou principal produto de alto valor agregado e de alto custo, o filé, com alta taxa de perda e baixo aproveitamento, abaixo dos 35%, em média. Esse tipo de produto gera um risco na cadeia produtiva, pois para ser sustentável deve ser comercializado a um valor  bastante elevado o que gera um alto risco em um mercado de proteína altamente competitivo para produtos neste tipo de nicho.

“Precisamos de uma ampla variedade de produtos para atender todas os extratos de consumidores, com preço e qualidade, seguindo o exemplo das outras cadeias produtivas, especialmente a do frango”

É importante o desenvolvimento de uma diversidade de produtos de modo a aumentar significativamente o aproveitamento da tilápia e ocupar novos nichos de mercado com produtos mais competitivos que hoje são ocupados com produtos mais baratos, seja com peixes importados ou com produtos de peixes capturados. Porém, este processo pode ser lento, pois há a necessidade de desenvolvimento de cortes e produtos, embalagens, aprovação por parte das autoridades competentes, marketing e todas as etapas do processo de convencimento e aceitação por parte do consumidor. Vários Frigoríficos já estão cuidando disso, atuando junto ao MAPA para autorização e regulamentação de novos produtos, porém este processo é lento, especialmente aqueles produtos que demandam o uso de aditivos e outros insumos, os quais necessitam de um complexo processo de regulamentação.

Precisamos de uma ampla variedade de produtos para atender todas os extratos de consumidores, com preço e qualidade, seguindo o exemplo das outras cadeias produtivas, especialmente a do frango. Não podemos insistir com apenas um produto, o filé. O risco é muito grande e estamos vendo isso ocorrer neste momento.

Mercados que estão consolidados com o consumo do peixe inteiro estão muito mais tranquilos neste momento de crise, pois os preços no varejo são muito mais acessíveis. Estamos vendo isso ocorrer em algumas grandes capitais do Nordeste do Brasil, onde até falta o produto.

Outro aspecto importante é a questão de dentro da porteira: o que fazer com respeito ao produtor, como o produtor deve agir?

O planejamento da produção é o primeiro passo a ser seguido, garantindo a segurança da manutenção da oferta da produção em todos os meses e todos os dias do ano, garantindo que os abatedouros tenham e possam funcionar ininterruptamente e que os produtores tenham renda contínua e que os consumidores, a medida que se habituem ao consumo, não tenham ausência de oferta. Portanto, parar de povoar os tanques com alevinos é um péssimo negócio, pois aumenta o custo de produção e o preço final para o consumidor, eleva os estoques com alto custo e afeta toda a cadeia produtiva, é um ciclo vicioso, todo mundo perde.

Redução do custo de produção

Ao contrário do que se possa imaginar, muitos na crise reduzem a produção, esse ciclo vicioso, promovendo o aumento dos custos de produção, os  preços de venda, consequentemente tem que ser maior, tornado mais difícil vender o peixe estocado, o mercado vai sendo pressionado e vai ficando cada vez mais difícil para os frigoríficos adquirirem os peixes prontos dos produtores, uma “bola de neve”, toda a cadeia sofre. Chamamos isso de

“O exemplo que as cooperativas do Paraná estão dando tem mostrado à cadeia exatamente isso: na Crise, “pé no acelerador”, aumento na produtividade, consequente redução de custos e conquistas de novos mercados”

“botar o pé no freio”. A cadeia produtiva, especialmente os produtores mais preparados, deveriam botar o “pé no acelerador”, aumentar a produtividade, mantendo seu planejamento de estocagem e povoamentos, reduzindo seus custos de produção e podendo oferecer seu peixe terminado a preços melhores aos seus parceiros, frigoríficos e atravessadores, para que estes pudessem abrir novos mercados com preços mais competitivos na crise, garantindo o escoamento da produção, para poder manter a “roda girando”. Mas, ao invés disso, muitos preferiram colocar o “pé no freio”, se lamentar e aumentar seus custos de produção e criando uma “bolha de preços altos” e baixa  produtividade, provocando uma drástica redução e retração no mercado interno afetando toda a atividade. Isso é o que estamos vendo nos dias de hoje e todos estamos sofrendo, com o risco de muitos saírem da atividade, o que pode provocar uma perda irreparável para nossa atividade. Este filtro não é bom para este momento de crescimento, pois pode trazer falta de credibilidade para a atividade que está em franca expansão e consolidação. Não é momento para dúvidas.

O exemplo que as cooperativas do Paraná estão dando tem mostrado à cadeia exatamente isso: na Crise, “pé no acelerador”, aumento na produtividade, consequente redução de custos e conquistas de novos mercados, desenvolvimento de novos produtos e consolidação das marcas.

Muitas empresas se estruturaram para isso, porém, talvez não tenham enxergado, ou por falta de visão estratégica, ou por ainda não serem suficientemente maduras na atividade, ainda não encontraram este caminho, mas é certo que estamos amadurecendo e que vamos crescer e ter uma atividade consolidada no Brasil, pois temos todas as condições para sermos um dos maiores e mais bem sucedidos produtores e exportadores de peixes de água doce do mundo, com qualidade e profissionalismo.

Não é momento para dúvidas, é momento de investir e acreditar que temos uma atividade segura e que, com certeza, será brevemente uma das mais importantes cadeias produtivas do agronegócio brasileiro, gerando emprego e renda para o Produtor e divisas para o nosso País. Portanto, “pé no acelerador”.

IMG_20190105_114802190 (1)*Dr. Ricardo Pereira Ribeiro, Prof. Associado do Departamento de Zootecnia da Universidade Estadual de Maringá; Doutor em Ciências.

NO COMMENTS

LEAVE A REPLY