ROBERTO SAHIUM – Pirarucu, ilustre tocantinense

ROBERTO SAHIUM – Pirarucu, ilustre tocantinense

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Roberto_Jorge_Saihum_Agricultura.180x237Como surjo escrevendo para Cerrado Rural, gostaria que me titulasse de contador de lendas, estórias, causos ou proseiro, mesmo sabendo que às vezes somos confundidos como mentirosos. Digo, não é bem assim. Estou alcunhado de colunista, e escrever aos sábados tem que ter muita carne pra encher lingüiça, espere ai, carne tá muito caro. Por outro lado estou com uma baita inspiração, cuja força cósmica dominante me dá a achar que neste texto de cá, tenho de versar sobre os peixes. Digo, sobre os Peixes da Amazônia! Em distinto os que vivem zanzando nas corredeiras ou águas paradas do Tocantins.

Assim, partiu hoje falar de um dos animais mais fantástico do nosso terreiro: o Pirarucu, majestoso rei das nossas águas, conhecido pelos torrãozeiros do Varjão da Bacia do Rio Araguaia como Pirosca.

Ajuíza num peixe inteligente e obstinado, tem na perpetuação da sua espécie o maior desafio e, a despeito de aparecer museólogo, pois este bicho atravessou o túnel do tempo e prepara-se para atravessar o túnel do futuro. Fisiologicamente é aparelhado com órgãos extremamente resistente para enfrentar as intempéries do amanhã, como: águas quentes, precárias e de qualidade ruins; é protegido por uma fuselagem revestida de blindagem para a guerra de sobrevivência.

A história do Pirarucu começa assim:

O pirarucu é o rei  dos rios amazônicos. (Foto: Divulgação)
O pirarucu é o rei dos rios amazônicos. (Foto: Divulgação)

Prova disso é a Geologia, não me deixa compor esta fábula sozinho. Pois num e profundo Canyon, versado de Depressão Araguaia, habitado pelos valentes, vaidosos e brigões guerreiros que deram origem ao povo Iny.

Na época, a guerra com muitas mortes entre aldeias uma grande satisfação desta Nação. Pirarucu era um jovem Iny. Forte, formoso, valente, justo, não compartilhava das atrocidades da sua gente. Sempre pronto para ajudar os outros, principalmente as mulheres e idosos os aposentados. Isto criou uma imensa marola de ciúmes e muita inveja entre os guerreiros.

Tupã, fulo da alma no seu pedestal de Rei dos Reis, então, resolveu castigar este povo, encomendando à Deusa das chuvas e tempestades a Juruá-Açu, um imenso temporal, com trovões de rasgar os céus, ventos e redemoinhos de deixar Nhanderuvuçu de queixo caído, e assim aconteceu.

Ao grande Cacique, os invejosos disseram que o Tupã estava enfurecido e a causa de toda aquela desgraceira de tormenta era o Pirarucu, que estava a salvar os flagelados das enchentes.

Agitando os movimentos sociais os inimigos do Índio Pirarucu convenceram o Cacique que para estancamento das chuvas teriam que penitenciar as pessoas improdutivas e molengas da aldeia.

Permissão conseguida, os movimentos sociais levaram o Pirarucu para a mata, surrando seu corpo com Vara-de-Ju e sua cabeça achatando-a com Pau-de-Anhangá, até a perda dos sentidos.  Iara, Deusa da águas e das chuvas, ainda muito jovem, irmã caçula de Jurua-Açu, vê aquilo e com muita pena do pobre moribundo arrastou para o fundo da dita depressão.

Lá nas profundezas Iara muito bondosa o tocou com varinha-do-milagre, fizera respiração boca a boca no paciente e aplicou-lhe curativos feitos com barbatanas de Aruanã e ungüento de pasta da Pedra-Ganga.

E as tempestades continuaram, transformado em dilúvio, engolia tudo.

La pelas bandas do Oriente, Noé em sua barca, salvou um casal de cada vivente da região, também citado em Gênesis 6-12, assim como no Alcorão. Por aqui o serviço de salvamento ficou por conta do Pirarucu, agora, um peixe de corpo avermelhado pelo ungüento de pedras oxidadas do primitivo Cerrado, com robustas e potentes nadadeiras e dois aparelhos respiratórios.

O Pirarucu usa as branquias para a respiração aquática e a bexica nadatoria modificada pela varinha-magica de Iara, especializada para funcionar como pulmão, no exercício da respiração aérea.

De caráter manso e dóci, Pirarucu não guardou mágoa e assim todas as vezes que subia para respirar na superfície fora da água, trazia consigo das profundezas do buraco das águas os animais, as plantas e o povo Iny. Fez isto por muito, mas, muitos anos.

Apos o dilúvio o barro precipitou sobre a Depressão do Araguaia, formou-se uma enorme planície de terrenos aluvionares, com uma topografia muito plana e altitudes entre 200 e 250 m, denominada de Ilha do Bananal, pelos Javaé. Conhecida por Iny òlòna, o lugar de onde surgiram (ou saíram de baixo) os humanos, ou Ijata òlòna, o lugar de onde surgiram as bananas.

O Pirarucu por muitos anos viveu em uma fonte d água que margeava a ex-depressão, o qual recebeu o nome de Ribeirão do Pirarucu, em homenagem ao grande feitio do peixe-guerreiro. Este ribeirão é situado na divisa dos municípios de Figueiropolis e Formoso do Araguaia, aqui no Estado do Tocantins, de onde Pirarucu rumou pelo Rio Formoso entrou, o Lago do Caracol atravessou, ao Rio Javaes chegou, os lagos do Mamão e Sorrocan dentro da Ilha do Bananal povoou, raça nos lagos Escondido na fazenda do Domingos Pereira e Butelo na Capiaba deixou, moradas nas lagoas Bonita em Duere e Lago da Pedra em Pium criou, no Cantão procriou, o Rio Araguaia desceu, o Rio Tocantins pegou, no Rio Amazonas e seus tributários mergulhou, ao Acre, Rondônia, Roraima e Amapá chegou, e  por volta de 1822 de Arapaima gigas o batizou.

*Roberto Jorge Sahium é Engenheiro Agrônomo, Extensionista do Ruraltins, Imortal da Academia de Letras da Extensão Rural Brasileira, encontra-se secretário de Desenvolvimento Rural de Palmas e é colunista da revista Cerrado Rural Agronegócios – site e impresso. Escreve aqui sempre aos sábados.

 

 

 

 

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