Da Redação*

Ao todo, estima-se que estejam ativos, em todo o semiárido brasileiro, mais de 1 mil casas e bancos comunitários de sementes. Desse total, calcula a ASA, 460 receberam apoio do Programa Sementes do Semiárido, estruturado em 2015, pelo então Ministério do Desenvolvimento Social.

 Exemplares de sementes crioulas e outras variedades  (Foto: Milton Padovan/Embrapa)

Exemplares de sementes crioulas e outras variedades (Foto: Milton Padovan/Embrapa)

O perímetro do Cariri da Paraíba abrange 29 municípios e é considerado o mais seco do estado. Como destacou o geógrafo Bartolomeu Israel de Souza, em sua tese de doutorado Cariri paraibano: Do silêncio do lugar à desertificação, apresentada na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), não obstante os solos da região sejam originários de rochas cristalinas, sendo predominantemente rasos e argilosos, têm uma fertilidade variada, que facilita atividades agrícolas.

– Tive a oportunidade de trabalhar com eles [agricultores] três demandas específicas. Uma era dar visibilidade à qualidade das sementes crioulas. No caso, com as Sementes da Paixão. Para isso, fizemos ensaios, testes, comparando variedades crioulas e convencionais – somente convencionais, não transgênicas. Na oportunidade, houve uma política do governo de destruição de sementes. Só que eram sementes de uma variedade única, que é distribuída em todo o semiárido – explicou Amaury Santos, quanto à pesquisa da Embrapa.

Segundo o agrônomo, que trabalha na Embrapa Tabuleiros Costeiros, em Aracaju (SE), a destruição das sementes prejudicava os agricultores paraibanos, já que ignorava a diversidade da região.

– A outra demanda seria em relação a melhorar o processo de produção das sementes, com algumas tecnologias. E, finalmente, a questão de armazenamento e conservação de sementes em um período maior – disse.

Santos afirmou que as sementes crioulas têm valor para as comunidades de agricultores familiares porque fazem com que eles tenham autonomia. O incentivo vai ao encontro de dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO/ONU), que indicam que mais de 80% dos alimentos do mundo são produzidos por núcleos da agricultura familiar.

– A Embrapa atua como parceira deles, juntando nosso conhecimento acadêmico com o conhecimento popular dos agricultores, mas é importante frisar que o protagonismo é deles –  enfatizou.

Preconceito

Ele alertou que a semente crioula nem sempre tem tido a atenção que merece.

– Às vezes, quando você pergunta para o agricultor familiar se ele tem semente crioula ele fala que não tem. Ele tem, mas diz que não, porque tem vergonha. Porque, em muitos momentos, diziam que isso era um atraso. Então, muitas vezes, ficava com vergonha e até jogava fora, perdia essa semente, que é um grande patrimônio, reconhecido no mundo todo, como patrimônio para toda a humanidade.

Residente de um assentamento rural na Paraíba, Euzébio Cavalcanti, um dos produtores que integraram o grupo da pesquisa da Embrapa, diz que a iniciativa colaborou para o fortalecimento de sua atuação.

– A comunidade passou a perceber com mais carinho o instrumento que tinha. A gente teve essa vitória de fazer com que as pessoas se sentissem mais guardiãs da terra.

– A Embrapa considerou o diálogo com a comunidade. Antes era só o pesquisador. Com o projeto, pensou-se também em olhar para quem se vai pesquisar, se é só para o agronegócio ou também para a agricultura familiar – afirmou.

De acordo com Amaury Santos, este ano, a Embrapa deve manter três projetos relacionados às sementes crioulas, sendo um na Região Sul, outro em Goiás e um terceiro no semiárido. Todos contarão com o apoio do BNDES.

*Fonte: Ascom/Mapa, com edição de Cerrado Rural Agronegócios