“Uma pesquisa de médio a longo prazo e de benefícios enormes – assegura Jenner” (Foto: Portal Amazônia)

Por Antônio Oliveira*

O tambaqui, peixe amazônico, tem um problema natural que é um grande obstáculo ao seu consumo e consequente comercialização: suas espinhas em forma de Y em toda sua carne (intramuscular). Mas, se mesmo assim, é o segundo mais produzido e consumido no Brasil, imagina se ele não tivesse este incômodo que causa preocupação, durante sua degustação, principalmente por crianças? Será que a tilápia continuaria líder em produção e consumo no Brasil?

É possível, atualmente,  este peixe chegar às mesas de residências e restaurantes sem espinhas. Mas isto custa caro, devido o trabalho artesanal de retirada dos Y’s da questão.

Mas, não demora muito, esta espécie chegará à mesa do consumidor sem esse incômodo. Não por mudanças genéticas de laboratório, mas pela própria natureza, que entrega a variedade às academias.

Vamos ver?

Em Rondônia, o maior produtor desta espécie no Brasil, uma produtora de alevinos descobriu, por acaso, uma variedade da espécie sem espinhas Y. Conforme conta o Engenheiro de Pesca Jenner Menezes, da Biofish Aquicultura, o tambaqui sem espinhas Y foi descoberto, em 2012,  por meio de um cliente que encomendara uma nova safra de alevinos da espécie, da mesma variedade do lote anterior, sem espinhas

– Eu duvidei e ele me convidou para ir ver os peixes. Ele assou 4 tambaquis, dois tinham espinhas e outros dois não, eu na hora comprei de volta os peixes dele, e tinham 134 ainda do lote – conta o engenheiro.

A partir desta descoberta, diz o engenheiro, iniciou-se o trabalho de identificação dos tambaquis sem espinhas

– Foi uma epopéia para conseguir um Raio-X, para radiografar os 134 peixes, ou então teria que levá-los à uma clínica radiológica. Era uma operação de guerra, ainda em 2012 e 2013. Depois de uns 6 meses eu consegui um veterinário que tava trazendo um Raio-X portátil para Rondônia, fui buscá-lo no aeroporto e ele nunca imaginou que ia radiografar peixes. De lá, identificamos 50 tambaquis sem espinhas – relata Jenner.

Ele ressalta que foi a formação do primeiro lote do peixe no mundo. Saiu, então, a procura de pesquisadores para estudar esse lote, encontrando o geneticista Professor Doutor Alexandre Hildsorf, da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC).

Jenner conta que o que ela havia  descoberto, com os tambaquis sem espinhas, era a materialização da teoria de pós-doutorado do Alexandre, que fala em espécies que perderiam as espinhas Y, que foi o caso dos peixes da família caracídeos, onde o tambaqui está inserido.

Iniciados os estudos, dos primeiros  cruzamentos entre os tambaquis radiografados sem espinhas, nasceram de outras formas

A esquerda (CY), tambaqui normal; a direita (SY) sem espinhas (Foto: Biofish)

– A descoberta é muito complexa, em alguns casos voltavam as espinhas, em outros só na calda, outros de um lado, outros sem espinhas, e com isso, estamos trabalhando tentando afinar para chegarmos a 100% de peixes sem espinhas –  afirma  Jenner.

Conforme o  Dr. Alexandre Hildsorf, o desenvolvimento de variedades genéticas sem essas espinhas intermusculares seria uma verdadeira revolução na criação de algumas espécies de peixes.

– Devemos lembrar que nem todas as espécies de peixes tem estas espinhas. Por exemplo, tilápias, tucunarés e outros peixes dessas famílias (os ciclídeos) não as tem, assim como os bagres. Assim, a ausência dessas espinhas poderia impulsionar a aquicultura de várias espécies de peixes de nossas águas, tais como os Matrinchã, curimbatás, traíras e, naturalmente, o tambaqui e o pacu – ressalta.
O geneticista conta ainda  que uma colaboração com o Laboratório de Genética de Organismos Aquáticos e Aquicultura  da Universidade de Mogi das Cruzes busca estudar os animais sem espinhas e tentar entender os mecanismos genéticos que controlam a ausência destas espinhas.

– Desenvolvemos uma ferramenta de ultrassonografia para avaliar os animais e publicamos 3 artigos em periódicos nacionais e internacionais sobre o tema – explica.

Será uma revolução
Essas pesquisas feitas Jenner, por meio da Biofish, ainda demandam tempo. Mas, conforme ele, o avanço na descoberta melhoria muito a cadeia produtiva da espécie.

– O benefício de termos um lote de tambaquis sem espinhas é o fato mais importante para a piscicultura do Brasil, no momento. Essa espinha intramuscular é o principal entrave na cadeia do tambaqui e, uma vez descoberto e planejado para produção massiva, teremos um filé sem espinhos com um melhor corte, em nível de frigorífico, uma redução no desperdício, onde se perde de 11 a 13% da carne com remoção de espinhas, sem falar no  que economizaríamos com tempo e pessoal – ressalta Jenner.

O lote dos 50 tambaquis sem espinhas Y está em observação e, segundo Jenner, não há previsão para fornecimento dos peixes.
– Ainda não temos lotes puros sem espinhas para fornecer, além de termos mais um agravante, que é o tempo de maturação sexual do tambaqui, de 2 anos e meio a 3 anos, então na medida que você faz uma geração precisa esperar esse tempo para um novo teste. Uma pesquisa de médio a longo prazo e de benefícios enormes – assegura Jenner.
A espinha Y do tambaqui
O Dr. Alexandre Hildsorf explica que a presença dessas espinhas pode estar relacionada ao tipo de propulsão no meio aquático.

– O que os estudiosos nesta área propõem é que a presença destas espinhas confere transmissão de força aos segmentos da musculatura e firmeza corporal. Contudo, os animais que temos hoje sem espinhas, aparentemente não apresentam nenhuma deformidade e incapacidade natatória. Como disse, outros peixes como os bagres não têm espinhas e não apresentam problemas –  finaliza.

Experiências também no Amazonas

Lá, a Universidade Federal do Amazonas (Ufam) desenvolve uma pesquisa de investigação das mutações do tambaqui. A tese, “Mapeamento de Mutações Genéticas do tambaqui”, é desenvolvida pelo professor José Ribamar da Silva Nunes, vencedor do Prêmio Capes de 2018, como melhor pesquisa na área de Ciência, Zootecnia e Recurso Pesqueiro. Trata-se de uma pesquisa aplicada a espécies que não possuem genoma definido. O intuito era identificar mutações e características de interesse econômico e social.

A Ufam apresentou este estudo no final de maio, juntamente com outros projetos de produção do conhecimento pela universidade pública federal. Segundo o professor, José Nunes, um dos objetivos da pesquisa genética do tambaqui era identificar as mutações que estivessem relacionadas a reposta da espécie em relação às mudanças climáticas. Para saber o modo como cada peixe se adaptaria, a pesquisa foi aplicada em outras regiões, além do Norte.

“Uma vez descoberto e planejado para produção massiva, teremos um filé sem espinhos com um melhor corte, em nível de frigorífico, uma redução no desperdício, onde se perde de 11 a 13% da carne com remoção de espinhas”

– O cenário, daqui há alguns anos, será diferente. A alteração no ambiente afeta os peixes e a estimativa é de que a produção caia. Com isso, o objetivo era descobrir quais mutações poderiam ser selecionadas para adaptar o peixe a produzir em cenários extremos – explica.

Outra ocorrência natural que contribui com a descoberta do tambaqui sem espinhas Y: durante a pesquisa, o professor conseguiu identificar uma população de tambaqui que não produz espinhas intramusculares. São grupos que já nascem sem espinha, uma população criada em cativeiro, sem a necessidade de fazer algum tipo de mutação.

– No mapeamento, foram identificados 13 genes que estão relacionados as estas mudanças. Foram identificados alguns mecanismos genéticos e, no genoma do tambaqui, foram identificados quase 200 mil mutações – disse.

O projeto contou, ainda com o apoio de universidades internacionais, nos Estados Unidos, onde foi feito o mapeamento, e na China, que despertou interesse em saber como os peixes estavam nascendo sem espinha.

A pesquisa foi desenvolvida, também, em Mogi das Cruzes, onde o levantamento de dados foi realizado. O Instituto de Pesquisas da Amazônia (Inpa) também faz parte do projeto. Nunes afirmou que o trabalho está em fase de publicação. Será o primeiro mapa do tambaqui a ser publicado e as pesquisas continuarão.

*Fontes: Portal Amazônia/ William Costa e Diário AM/ Stephane Simões, com edição de Cerrado Rural Agronegócios/Antônio Oliveira