Por Edino Camoleze*

(Foto: Divulgação)
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Origem

Originário da maior bacia fluvial do mundo ( amazônica ) e também da bacia do rio Orinoco, que irriga a Venezuela e a Colômbia, e que se interligam através do canal do rio Casiquiare, alto Rio Negro ( Brasil ), o tambaqui, também chamado cachama, gamitana, black pacu e red pacu (Araujo, Lima & Gomes, 2005), foi descrito pela primeira vez pelo biólogo, zoólogo e naturalista francês Georges Cuvier quando estudou e analisou a sistemática da biota da pan-amazônia.

Pertencente à família Characidae, gênero Colossoma e espécie Macropromum, o tambaqui é o segundo maior peixe de escama da Amazônia, que se alastrou vigorosamente pelos rios e lagos das regiões norte e centro-oeste do país, sendo levado pelas correntezas do rio Paraguai, sentido norte-sul, para as bacias do Paraná e Prata. Na Amazônia brasileira habita quase todos os grandes afluentes do Rio Amazonas, principalmente os situados na margem direita, sendo menos encontrado nos da margem esquerda que têm como principal calha no território brasileiro o Rio Negro.

Hábitos e Habitats

Adaptado aos ambientes lênticos das águas dos rios, lagos e lagoas, no Amazonas, formados pelo regime do rio Solimões pelo derretimento das geleiras dos Andes, cheias e vazantes, o tambaqui tem preferência pelas águas claras e barrentas carregadas de nutrientes e matérias orgânicas em decomposição. Por ter uma cadeia alimentar trófica dispersiva, quando larvas e juvenis, habitam os lagos e lagoas alimentando-se de plâncton, zooplâncton e larvas de insetos. Já na forma adulta, apesar de onívoro, alimenta-se principalmente de frutas, sementes e raízes, encontrados nas matas de igapó, seu habitat preferido. Na época da reprodução abandona os lagos e migram para os rios, onde machos e fêmeas se encontram e realizam os acasalamentos e a reprodução. O tambaqui tem hábito diurno com maior atividade durante as primeiras horas da manhã e a tarde quando passeia nos lagos à procura de alimentos. São nesses períodos que são mais encontrados e capturados pelos pescadores e o caboclo amazonida.

Fig 2 – Amazônia: Mata de Igapó (Foto: Divulgação)
Fig 2 – Amazônia: Mata de Igapó (Foto: Divulgação)

Biologia 

Estudos do tambaqui na natureza mostram que seu ciclo de vida desenvolve em cinco fases: ovócitos, ovo embrionado, larva, juvenil e adulto, tempo que leva de 3 a 5 anos, quando as fêmeas atingem 58 cm e machos 70 cm, ( Araujo-Lima e Goulding, 1998). Esse processo acontece nas piracemas quando ocorrem os acasalamentos, isto é: os cardumes deixam as várzeas e nadam contra a correnteza dos rios em direção às suas nascentes, onde ocorrem as desovas das fêmeas e fertilização dos ovócitos pelos machos. As larvas geradas são levadas pelas correntezas para os lagos das várzeas onde passam a fase juvenil e depois adulto.       (Guimarães,2009). Observações feitas por vários pesquisadores ligados aos Institutos e universidades mostram a influência das cheias e vazantes dos rios amazônicos no ciclo reprodutivo do tambaqui e outros peixes, decisiva para que o processo se repita anualmente e torna-se perenizado.

No cativeiro, em laboratórios de peixes de reprodução assistida e controlada, o processo procura imitar a natureza. Os machos (reprodutores) e fêmeas (matrizes) apresentam maturidade sexual aos cinco e sete meses de idade ( Almeida et al., 2016) e a reprodução artificial, feita por indução hormonal nas fêmeas, pode ser realizada até duas vezes ao ano. Fatores ambientais como luminosidade, temperatura da água, movimentação hídrica etc., exercem forte influência no comportamento animal nos matrizeiros. A fecundidade do tambaqui é considerada alta (quase 13% do seu peso vivo – PV) aumentando com o tamanho e peso das fêmeas (Santos et al., 2006). Cada grama de ova de tambaqui contém de 1000 a 1500 ovócitos (Streit Jr et al., 2012). Do ovócito fertilizado até a idade juvenil, o processo dura em média 60 dias, com peso entre 40 a 50g, quando, estão aptos para serem comercializados para crescimento, reprodução e engorda.

Zootecnia

Considerado o segundo maior peixe de escama do Brasil, o tambaqui pode alcançar na natureza um metro de comprimento e pesar até 30 kg. De corpo volumoso e arredondado, bastante largo em relação ao comprimento, apresenta na região dorso caudal musculatura robusta bem desenvolvida que se estende até a cauda. Cabeça relativamente pequena, em relação ao volume do corpo, com boca apresentando maxilar e mandíbula fortemente providos com dentes fortes, resistentes e molariformes, apropriados para triturar sementes e frutas, tem ainda, olhos grandes e narinas largas e arredondadas com pequenas membranas circulares móveis que ajudam ao controle da entrada e saída do ar.

Conforme o habitat hídrico onde se encontra, águas escuras ou claras, o tambaqui pode se apresentar com uma só coloração uniforme amarronzada escura ou bicolor, ventre escuro e dorso amarelado. As nadadeiras dorsais, caudais, anais e ventrais são grandes e fortes, dando ao peixe equilíbrio e velocidade em caso de fuga e defesa do território.

Fig 03 – Tambaqui bicolor de águas escuras (Foto: Divulgação)
Fig 03 – Tambaqui bicolor de águas escuras (Foto: Divulgação)
Peixe   longevo   que pode viver até onze anos, é rústico e resistente a doenças e variações hidrológicas como: temperatura – 27 a 30º C, PH 4.0 a 6.5, e oxigênio dissolvido 3.0 até 1.0 mg/L.

A criação do tambaqui para a   comercialização industrial pode ser feita em tanques escavados naturais, cimentados,  tanques rede e raceway. Para esses sistemas de criação, os alevinos para povoamento dos criatórios devem ter o tamanho entre 5 a 8 cm, o peso 20 a 40 g, e a densidade de 15 peixes por/ m². Aceita bem a ração comercial, ganho médio de peso de 4.5g/dia e taxa de conversão de 1:2 kg. Para a despesca e comercialização o tambaqui deve ser abatido com o peso de 2.3 a 3.3 kg aos 12 meses (Melo et al., 2001).

Aquicultura

Dentre os peixes tropicais brasileiros, o tambaqui tem tido a preferência para a criação comercial, pesca esportiva e agricultura familiar. Também, a plataforma biológica dos pesquisadores e cientistas como base animal para pesquisas genéticas, cruzamentos industriais e formação de híbridos. Atualmente a aquicultura brasileira tem sido enriquecida e diversificada sua produção econômica com novos peixes oriundos dessas pesquisas laboratoriais, principalmente, dos cruzamentos entre as espécies: tambaqui (Colossoma macropromum), do pacu ( Piractus mesopotamicus ) e da pirapitinga ( Piractus brachypomus ).

Cabe destacar nesse artigo os trabalhos genéticos desenvolvidos pelo Centro Nacional de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade Aquática e Continental – CEPTA/ICMBio e da EMBRAPA, Pesca e Aquicultura, que com pesquisadores, técnicos especializados, laboratórios e Estações Experimentais, implantados em todo o território nacional, utilizando-se da Biotecnologia, manipulação do DNA, engenharia genética e equipamentos modernos, têm possibilitado o surgimento de novas espécies aquáticas aproveitando os estoques genéticos naturais brasileiro e a criação artificial de novos peixes.

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Quadro 1 – Híbridos Colossoma X Piractus

China, maior produtor do mundo

Como aconteceu com a seringueira (Hevea brasiliensis) no Séc XIX, (1876), que foi levada para a Ásia pelo britânico Henry Wickham, constituindo-se numa das maiores biopiratarias da história mundial, tirando da Amazônia essa riqueza natural que só o Brasil possuía, mudando os destinos da produção da borracha do mundo, o tambaqui doado a Deng Xiaoping, em 1992, pelo então governador do Amazonas, Gilberto Mestrinho, antes da Conferência da ONU – Rio 92, que o presenteou com alevinos da espécie, possibilitou a entrada do peixe brasileiro na Ásia. Após 27 anos de introdução no território asiático, depois de aclimatado e adaptado, o tambaqui constitui, hoje, uma das principais riquezas da piscicultura asiática, criado em condições naturais e em cativeiro, tornando o país, o maior produtor de tambaqui do mundo.

Fig: 04. http://wwwpiscicultura.ecrau.com/o-peixe-do-melo-e-um-negocio-da-china

A produção de tambaqui no Brasil

A aquicultura brasileira tem crescido continuamente no período de 2005 a 2017 a uma taxa anual de 8.87%, passando de 257 mil t em 2005 para 691 700 t em 2017, graças a impulsão da criação de peixes em cativeiro, puxado pelos peixes nativos tropicais, destacando o tambaqui e seus híbridos nas regiões Norte e Centro-Oeste do país. Rondônia e Amazonas (região Norte), Mato Grosso e Goiás (região Centro-Oeste) e Maranhão (região Nordeste) são os maiores produtores de peixes nativos do Brasil. Rondônia lidera o ranking, com 100% de sua produção (77 mil t, em 2017) de espécies nativas. Mato Grosso aparece em segundo lugar, com 60.134 t (97% do total). Na sequência, vêm Amazonas, com 100% da produção de peixes nativos (28 mil t), Maranhão, com 90% das 26.500 t, e Pará, com 97,2% da produção total de 20 mil t. (Peixe BR, Anuário da Piscicultura, Brasil 2018).

Os cinco estados juntos representam 69% da produção de peixes nativos, principalmente, o tambaqui e seus híbridos derivados do pacu e da pirapitinga, maior que 37%, como se verificou no gráfico estatístico realizado pelo IBGE/SIDRA de 2015.

Apesar do avanço e progresso na produção da aquicultura brasileira, falta a consolidação da cadeia produtiva, que apresenta ainda alguns entraves políticos, administrativos, comerciais e industriais como: crédito ao piscicultor, indústria de beneficiamento e produção de ração, alevinagem, assistência técnica, associativismo e comercialização do pescado, como é feito na avicultura e outras atividades agropecuárias do país.

*Artigo publicado na revista Animal Business Brasil, da Sociedade Brasileira de Agricultura