Por Antônio Oliveira

A Fazenda Savana reuniu produtores rurais e pesquisadores para apresentar os resultadas da cultura do trigo na propriedade. (Foto: Antônio Oliveira)
A Fazenda Savana reuniu produtores rurais e pesquisadores para apresentar os resultadas da cultura do trigo na propriedade. (Fotos: Antônio Oliveira)

O Brasil consome, anualmente, cerca de 12 milhões de toneladas de trigo. Destes, algo em torno de 50% são importadas dos Estados Unidos e países do Mercosul, especialmente da Argentina. Nos últimos vinte e cinco anos os cerrados do Brasil Central – terras altas de Goiás, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul e, ainda, o Distrito Federal -, graças às pesquisas da Embrapa Trigo, passaram a produzir o grão, acrescentando cerca de 200 mil toneladas do produto à produção geral brasileira.

O oeste da Bahia, que na década de 1980 entrou no vácuo da triticultura naquelas outras regiões de cerrados – mas que saiu depois -, pode dar uma contribuição ainda bem maior na redução das importações do cereal: tem terras abundantes acima de 500 metros de altitude – a mínima para a produção sob irrigação,  e 800 para sequeiro -, e condições edafocliáticas melhores que as dos outros estados produtores do Brasil Central.

Ricardi usou as variedades CD 108 e CD 150 da COODETEC, com alta produtividade nos cerrados.
Ricardi usou as variedades CD 108 e CD 150 da COODETEC, com alta produtividade nos cerrados.

Partindo do princípio de que o trigo irrigado vai muito bem, há anos, em terras altas daquelas outras regiões de Cerrado-, e, ainda, que este bioma na  Bahia já o cultivou com bons resultados, o produtor rural Osvino Fábio Ricardi, da Fazenda Savana, localizada em terras altas do município de Riachão das Neves, a cerca de 50 quilômetros de Luís Eduardo Magalhães, e 90 de Barreiras, decidiu, a partir da safra 2013/2014, entrar na cultura, cultivando em suas terras mais de 200 hectares sob pivô central.

Ele usou as variedades CD 108 e CD 150 desenvolvidas pela Cooperativa Central de Pesquisa Agrícola  (COODETEC), de Cascável (PR), que acompanhou o desenvolvimento de sua lavoura tritícola.

Para apresentar os excelentes resultados obtidos com a plantação, o produtor rural, em parceria com a CODETEC, Embrapa Cerrado, Embrapa Trigo, Associação dos Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba) e Sindicato Rural de Luís Eduardo Magalhaes, promoveu o 1º Encontro Tecnológico de Trigo Irrigado no Oeste da Bahia, que teve a presença de mais de 100 produtores rurais da região.

– Nós temos uma perspectiva muito boa desta cultura nos cerrados da Bahia, uma cultura que já está consolidada na região de Brasília e de Minas Gerais. Hoje não temos mais dúvidas de sua viabilidade sob pivô na região, disse  o empreendedor rural, Fábio Ricardi.

Além de inibir doenças, pragas e ervas daninhas, o trigo deixa uma ótima palhada para o PD.
Além de inibir doenças, pragas e ervas daninhas, o trigo deixa uma ótima palhada para o PD.

Ainda de acordo com ele, o manejo do trigo é muito fácil, “claro que observando alguns cuidados”. Ricardi informou ainda que espera obter, com a comercialização, uma rentabilidade entre 15% e 20%, uma margem de lucro um pouco menor o que a conseguida na safra passada. Como cultura irrigada, ainda conforme ele, o trigo é uma ótima opção para a rotação de culturas.

A expectativa de colheita sob dois pivôs  é de mais ou menos 1,4 mil toneladas, levando-se em conta uma média de 7 toneladas por hectare. Ele teve um custo de mais ou menos R$ 2.800 por hectare. A tonelada de trigo, hoje, no mercado está entre R$ 750 e R$ 800.

Gargalos

Se o trigo vai muito bem porteira adentro de sua propriedade, da porteira para fora alguns gargalos terão que ser trabalhados, conforme o produtor rural.

– A vontade de novos produtores em investir na cultura; mercados compradores; construir armazéns para este tipo de grão e o aumento constante da área de produção, no que vai atrair os compradores ou até mesmo a instalação de um moinho na região, pontuou.

Segundo os pesquisadores presentes, com a produção de 5 mil toneladas/safra já justifica uma planta de moagem na região. O mercado comprador mais próximo do oeste da Bahia é Brasília.

Para o pesquisador Heron Ayres de Sousa Freitas, da COORDETEC, não resta mais dúvida de que o Cerrado da Bahia tem grande potencial e todas as condições para produzir trigo de qualidade e de alta produtividade, até bem maior que a produtividade das outras regiões de Cerrado. Ainda segundo ele, o trigo melhora as condições de diversos tipos de lavouras, pois é capaz de inibir doenças  de solo como a nematoides, quebra o ciclo de pragas e doenças, reduz a incidência de plantas daninhas no solo e, ainda, após a colheita, deixa excelente palhada para o plantio direto “uma das melhores”, frisou.

Ainda de acordo com ele, o trigo produzido no Cerrado apresenta-se como excelente para a panificação, tipo mais procurado e valorizado no Brasil.

Além do mais, continuou o pesquisador em entrevista a Cerrado Rural, o Cerrado da Bahia não corre risco com fortes chuvas e geadas, tão comuns no Sul do Brasil, e que provocam perdas de produtividade na cultura. Por fim, ele explicou que o cultivo do trigo é uma alternativa para diminuir os custos de produção do milho e do algodão, plantados logo após a sua colheita.

Embrapa

Julio Albrecht: "Necessidade de reduzir praga, doenças e ervas daninhas, dão força ao trigo no Cerrado baiano.
Julio Albrecht: “Necessidade de reduzir praga, doenças e ervas daninhas, dão força ao trigo no Cerrado baiano.

O pesquisador Julio Cesar Albrecht, da Embrapa Cerrados, uma das maiores autoridades na triticultura do Brasil, esteve neste encontro técnico e falou aos presentes sobre o desempenho da cultura nos cerrados brasileiros. A Embrapa é uma das principais instituições de pesquisas no melhoramento e desenvolvimento de variedades de trigo.

Conforme o pesquisador, em entrevista a Cerrado Rural, a empresa estatal já desenvolve pesquisa com o trigo não só no Cerrado do Brasil Central, mas também do oeste da Bahia desde a década de 1980 obtendo muita aceitação por parte dos agricultores desta região que viam no trigo uma alternativa às outras culturas, como soja e milho. Mas com o tempo e as dificuldades de mercado e cultivo do cereal na região, eles optaram por  outras alternativas, deixando o trigo de lado.

– Hoje, com a necessidade do produtor reduzir custos, doenças de solo e a presença de ervas daninhas, o trigo está voltando à região. O trigo, conforme o pesquisador, é uma supressora de doenças de solo, de plantas daninhas, que são problemas que os produtores rurais irrigantes no oeste da Bahia estão enfrentando, disse ele.

Julio Albrecht informou ainda que, baseados nesses problemas, os produtores rurais irrigantes da região, procuraram a Embrapa novamente para voltar a incentivar a cultura do trigo na região.

– Nos cerrados de Brasília, de Goiás, do Triângulo Mineiro, o trigo já é uma realidade, então nós estamos trazendo essas cultivares que deram certo lá para o oeste da Bahia e elas têm tido excelentes resultados aqui na região, disse.

As cultivares que mais se adaptaram aos cerrados do Brasil Central, ainda conforme o pesquisador da Embrapa Cerrados, é a BRS 264 que no oeste da Bahia tem alcançado até 8 mil toneladas por hectare e uma qualidade exigida para a panificação, que é o que os moinhos mais querem hoje.

– Então dá para dizer que o oeste da Bahia tem um potencial para produzir muito trigo de excelente qualidade para panificação. Dá para dizer ainda que um dos melhores trigos do mundo, hoje, é produzido nos cerrados do Brasil Central, entre eles o oeste baiano, informou.

O pesquisador explica ainda que entre as condições edafoclimáticas dos cerrados do Distrito Federal, Goiás, Minas Gerais e Mato Grosso e as do oeste da Bahia, não há muito diferença para a cultura do trigo irrigado – em altitude acima de 500 metros. Já o trigo de safrinha, continuou, plantado entre fevereiro e março, é de alto risco, pois depende da distribuição de chuvas.

– Então, nas regiões, onde as chuvas são melhores distribuídas, o trigo tem se dado bem. Tem regiões como o sul de Minas Gerais, o Triângulo Mineiro, sudoeste goiano, a safrinha têm produzido até 3 mil toneladas por hectare. Aqui no oeste da Bahia nós temos que estudar melhor a distribuição das chuvas. Mas pode ser também uma alternativa ao produtor, produzindo uma safrinha com a variedade BRS 264, que tem se adaptado muito bem à essa condição, e o produtor aqui vai ter um custo menor e produzir, talvez, entre 1,5 toneladas por hectare e 2 toneladas por hectare, disse.

Porém, o pesquisador alerta que o trigo de safrinha é de alto risco, pois depende da boa distribuição das chuvas e de mais pesquisas. Julio Albrecht  alerta ainda para, além dos cuidados com a época de plantio sob irrigação – 10 de abril até 30 de maio -, se ter cuidado com doenças, como as foleares, bastante cuidado com as aplicações. Ele acrescentou que são doenças de fácil controle, desde que, assim que ver a infecção já iniciar imediatamente o tratamento.

– E que o produtor da região se aproxime da indústria moageira para comprar o seu trigo e, enfim, que siga todas as outras orientações oferecidas pela Embrapa, por exemplo, pontuou o pesquisador.

Fábio Ricardi: "Perspectiva muito boa para o trigo no Cerrado baiano.
Fábio Ricardi: “Perspectiva muito boa para o trigo no Cerrado baiano.

Expectativa

Para o presidente da Aiba, Julio Busato, que também participou deste dia técnico, as perspectivas do trigo no oeste da Bahia são as melhores possíveis.

– É uma cultura interessante, que tem particularidades que nos interessa, que são menor consumo de água, resistência ao nematoide, o que deve nos ajudar muito no futuro. Todas as culturas começaram assim: tem o início, depois vem o pessoal técnico e os produtores assimilam  e aí vai modificando ao longo dos anos e, aí, nós temos o sucesso, como é o caso da soja e do milho na região. Então, eu acredito que o trigo vai andar pelos mesmos caminhos trilhados pelos outros grãos na região, informou.

As  próximas etapas  a serem perseguidas pelos agricultores da região,  ainda conforme a concepção do presidente da Aiba, são variedades validadas para o Cerrado da Bahia; cuidar da qualidade do trigo, o que mais o mercado exige.

Mais do que o anunciado  pelos pesquisadores e por Busato, para a viabilidade do trio no Cerrado da Baha, é o zoneamento agrícola da cultura na região e consequente linhas de crédito para o seu cultivo, armazenagem  e comercialização.

(Veja esta reportagem também nas versões vídeos (nosso canal, linkado aqui no site) e a versão impressa de Cerrado Rural)